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8 de maio de 1985
Crônica
O Brasil mudou
Hospitalizado por causa de uma
pedra que se formou no meu rim, deixei de ler jornais e assistir noticiários
por uns dias dez dias. E foi nesse período em que ocorreram o agravamento da
doença do presidente eleito Tancredo Neves e sua morte.
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Confesso que, naqueles dias, com soro
na artéria e sondas no rim, não me animei a acompanhar a dramática luta de
Tancredo contra a morte.
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Pois bem. De volta à saúde, comecei a
me colocar em dia. Fiquei perplexo, porque em apenas dez dias muita coisa tinha
mudado no país. Cheguei até mesmo a desconfiar se ainda estava sob os efeitos
dos sedativos.
Comecei a fazer perguntar.
É verdade mesmo que o deputado Dante de Oliveira, que ficou famoso pelo seu
projeto-de-lei das eleições diretas para a Presidência da República, deixou
de apoiá-las?
Conforme ele diz agora, como fazem outros políticos do PMDB, as diretas neste
ou no próximo ano seriam um "golpe" contra (pasme!) a
democracia.
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O curioso é que ninguém do governo
anterior -- governo ditatorial, ainda que promotor da abertura política --
arriscou-se a fazer afirmação parecida. Mas, ao que parece, o governo que se
julga democrático pode cometer as barbaridades contra a democracia.
Também estranhei os políticos do PMDB que se colocaram contra a greve dos
metalúrgicos -- greve que também ameaça a democracia, segundo eles.
Ora, esses políticos acham, no mínimo, que o povão não tem memória. Até
recentemente, até o último dia do Governo Figueiredo, eles eram os primeiros a
se colocarem do lado dos metalúrgicos. Mais do que isso até, porque, em
algumas greves, políticos como Ulisses Guimarães, Orestes Quércia e Fernando
Henrique Cardoso chegaram a participar de assembléias de trabalhadores
grevistas.
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É bem verdade que, nesta última
greve, tem havido excessos por parte dos trabalhadores, entre os quais o
aprisionamento de funcionários da GM.
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Mesmo assim, pergunta-se: por que esses
políticos estimularam greves no governo passado, governo ditatorial, e não
fazem o mesmo agora, quando se tem um governo dito democrático?
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A resposta é simples: esses políticos
agora são o governo.
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Observo que nem tudo mudou. Por
exemplo: os bandidos de colarinho branco -- bandidos que dão golpe de bilhões
e trilhões de cruzeiros -- continuam não indo para a
cadeia.
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