Textos de Paulo Roberto Lopes
no "Diário Popular" (anos 80)

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8 de maio de 1985
Crônica
O Brasil mudou

Hospitalizado por causa de uma pedra que se formou no meu rim, deixei de ler jornais e assistir noticiários por uns dias dez dias. E foi nesse período em que ocorreram o agravamento da doença do presidente eleito Tancredo Neves e sua morte.

Confesso que, naqueles dias, com soro na artéria e sondas no rim, não me animei a acompanhar a dramática luta de Tancredo contra a morte.

Pois bem. De volta à saúde, comecei a me colocar em dia. Fiquei perplexo, porque em apenas dez dias muita coisa tinha mudado no país. Cheguei até mesmo a desconfiar se ainda estava sob os efeitos dos sedativos.

Comecei a fazer perguntar.

É verdade mesmo que o deputado Dante de Oliveira, que ficou famoso pelo seu projeto-de-lei das eleições diretas para a Presidência da República, deixou de apoiá-las? 

Conforme ele diz agora, como fazem outros políticos do PMDB, as diretas neste ou no próximo ano seriam um "golpe" contra (pasme!) a democracia. 

O curioso é que ninguém do governo anterior -- governo ditatorial, ainda que promotor da abertura política -- arriscou-se a fazer afirmação parecida. Mas, ao que parece, o governo que se julga democrático pode cometer as barbaridades contra a democracia.

Também estranhei os políticos do PMDB que se colocaram contra a greve dos metalúrgicos -- greve que também ameaça a democracia, segundo eles.

Ora, esses políticos acham, no mínimo, que o povão não tem memória. Até recentemente, até o último dia do Governo Figueiredo, eles eram os primeiros a se colocarem do lado dos metalúrgicos. Mais do que isso até, porque, em algumas greves, políticos como Ulisses Guimarães, Orestes Quércia e Fernando Henrique Cardoso chegaram a participar de assembléias de trabalhadores grevistas.

É bem verdade que, nesta última greve, tem havido excessos por parte dos trabalhadores, entre os quais o aprisionamento de funcionários da GM. 

Mesmo assim, pergunta-se: por que esses políticos estimularam greves no governo passado, governo ditatorial, e não fazem o mesmo agora, quando se tem um governo dito democrático? 

A resposta é simples: esses políticos agora são o governo.

Observo que nem tudo mudou. Por exemplo: os bandidos de colarinho branco -- bandidos que dão golpe de bilhões e trilhões de cruzeiros -- continuam não indo para a cadeia.     

 

 

 

 

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