Textos de Paulo Roberto Lopes
no "Diário Popular" (anos 80)

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15 de março de 1985
Crônica
Paulo Roberto Lopes
15 de março de 1985

Vi tudo da janela de casa.

Eram duas da tarde, por aí, quando notei que havia mais pessoas do que o costume na praça central da cidade (São Carlos, interior de São Paulo). E as pessoas não paravam de chegar, avolumando-se. Fiquei intrigado.

- O que está acontecendo, perguntei a alguém que passava.

- Vai haver uma manifestação de estudantes contra a ditadura, contra os militares.

Eu sabia que os militares mandavam no país, mas não avaliava o que isso significava. As minhas preocupações de adolescentes não incluíam a política.

E mais estudantes apareciam de todos os lados e na praça já não cabiam todos. Tomaram as ruas, pararam o trânsito.

Todos estavam tensos e tenso também fiquei. Tive vontade de me juntar aos estudantes, mas não foi preciso. A aglomeração já chegava à minha janela.

Alguém sobe em um palanque improvisado e grita:

-- Companheiros...

E nada mais pôde dizer. Não sei exatamente de onde, apareceram centenas de policiais jogando bomba de lacrimogêneo em todo mundo e distribuindo a esmo cacetadas e empurrões.

Corre-corre, gritos, gente sangrando, berros de “abaixo a ditadura”. Fiquei perplexo. Não entendi porque o discurso de alguém poderia causar tanto fúria nos policiais. Eu tinha 15 anos e o ano era 1968.

Depois desse episódio, numa mais fui o mesmo. Politizei-me, a ditadura ganhara mais um opositor e a amargura de ter os militares usurpando o poder tomou conta de mim – amargura que termina hoje, 15 de março de 1985, dia em que o Congresso Nacional vai eleger um civil para presidência da República, o primeiro desde 1964.

 

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