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8 de março de 1985
Crônica
Paulo Roberto Lopes
Divina Comédia ou o Inferno de Dante
De repente, tive a sensação de
estar entrando num daqueles círculos do inferno descritos por Dante Alighieri,
na "A Divina Comédia".
Arrepiei-me. Me vi diante de um longo corredor tomado por pessoas, a maioria de
pé, umas sentadas e outras poucas deitadas em macas. Mal dava para ver as
centenas de portas do corredor.
As pessoas gemiam e se lamentavam. De quando em quando, alguém no fundo do
corredor gritava: "Ai!!"
Se naquele instante Dante, guiado pelo poeta Virgílio, passasse por mim e me
acenasse marotamente, não iria estranhar.
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Aquilo de fato era um pedaço do
inferno, também chamado pelas pessoas por "hospital municipal".
Eu estava ali, felizmente, para tentar resolver o problema de um amigo, e não
meu.
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Puxei conversa com um enfermeira.
-- Este corredor fica sempre assim, cheio de pacientes?
-- Fica, porque não há quartos vagos. O pior não é isso, é que muitas
dessas pessoas não vai ser atendida, por falta de medicamentos e equipamentos.
-- Mas alguém tem de resolver esse problema?
-- Quem, se as autoridades afirmam que não há recursos?
"A Divina Comédia", em sua primeira parte, relata a visita do
próprio autor, Dante, aos nove círculos do inferno. Em cada círculo, há, em
substâncias que fervem, pessoas que praticaram na Terra determinado tipo de
maldade. Há o círculo dos hipócritas, o dos tiranos, o dos corruptos, e assim
vai.
E eu fico a pensar o quê de tão mal teriam feito aquelas pessoas amontoadas no
corredor do hospital. Pessoas pobres, pessoas sofridas.
Tenho certeza de que Dante jamais convocaria essas pessoas como personagens,
porque, pela elite do poder, elas já foram colocadas no inferno do desemprego,
da inflação, do arrocho salarial, da indignidade humana.
A semelhança entre essas pessoas e aquelas que povoam o inferno de Dante é que
umas e outras sofrem duras penas no maior conformismo. Os personagem do poeta se
comportam assim porque a consciência lhes pesa. Mas e aqueles pacientes do
corredor do hospital?
Na parte final de "A Divina Comédia", Dante relata sua visita
paraíso. Mas, quanto a isso, não há comparação que possa ser feita com o
povo brasileiro.
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