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1º de março de 1985
Crônica
Paulo Roberto Lopes
Bloco de anotações
O escritor Inácio de Loyola
Brandão não se desgruda de bloquinhos de anotações. "Meus livros
começam a ser escritos nesses bloquinhos", disse-me ele certa vez.
Loyola anota tudo: um gesto, um sorriso, um olhar, uma idéia, uma cor. Depois,
o seu talento transforma tudo isso em livros.
"Decidi carregar bloquinhos quando li a autobiografia de um escritor que
sempre tinha à mão papéis para anotação", revelou o autor de
"Zero", de "Não Verás País Nenhum" e de tantos outros
livros que enriquecem a literatura brasileira.
Resolvi seguir o exemplo de ter sempre um bloquinho no bolso. Não,
evidentemente, para escrever livros como os de Loyola, porque para isso é
preciso ter verve, mas para anotar impressões que possam ser desenvolvidas em
crônicas neste canto, ou em notas para o "Que Fique Bem Claro" aí do
lado, ou ainda em artigos para a página de Economia deste jornal.
A experiência durou pouco, não tanto por falta de material para anotar, mas
mais por eu esquecer de carregar o danado do bloquinho.
Outro dia, achei-o numa gaveta e, antes que eu o perca de novo, transcrevo
abaixo algumas das anotações, o que já é uma forma de transformá-las em
crônica.
-- No teatro, ao meu lado, alguém diz para o seu acompanhante: "Não faço
questão de cumprimentar os meus amigos, porque eles sabem que os quero bem. Mas
nunca deixo de cumprimentar meus inimigos, para lembrá-los que continuo
vivo".
-- Sábado, 16h. Preparo, às pressas, notícias para a edição de domingo do
jornal. Ai aparece o leitor e amigo Paulo Teixeira, para um dedo de prosa. Às
tantas, ele me surpreende. Tira uma enorme tesoura de destrinchar frango debaixo
do seu blusão e me diz: "Xará, dá para você vir comigo aqui ao lado,
num jardim público, pegar folhas de um pé de pitanga para fazer chá?"
Digo que não posso e fico a pensar que, se não existisse, alguém teria de
inventar o Paulo Teixeira.
-- Três cegos e um menino caminham pelas calçadas do centro da cidade.
Certamente os cegos são irmãos -- têm a mesma cara. Cada um carrega um
instrumento musical: um acordeão, uma flauta e um triângulo. Andam agarrados
entre si, como se fossem um trenzinho, cuja locomotiva é o mirrado menino. Por
um momento, tive a impressão de que o cego com a flauta fosse fazer piuiii!,
piuiii!
-- Ao morder uma maçã (opa, deu cacofonia), senti forte gosto de DDT ou coisa
parecida. Lembrei-me de Sócrates, filósofo grego que teve de tomar uma taça
de veneno. Talvez porque ainda não existiam as maçãs envenenadas com
inseticida de hoje em dia.
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