Textos de Paulo Roberto Lopes
no "Diário Popular" (anos 80)

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2 de fevereiro de 1985
Crônica
Paulo Roberto Lopes
A história de Jóca

Seu nome nunca pegou entre os colegas da escola. Jóca -- seu apelido -- tinha cara de Jóca, e Jóca ficou. "Às vezes, até eu esqueço o meu nome", dizia.

Éramos treze estudantes na república -- cada um de nós vinha de uma das cidades da região. Estudávamos em um colégio técnico, profissionalizante.

As camas se esparramaram por todos os cantos da casa. A de Jóca ficava na sala, onde sempre havia mais alguém. Inclusive à noite. Alguns estudantes dormiam de dia, não iam portanto à escola, e à noite jogavam baralho na sala.

Jóca não se perturbava com a luz forte da sala nem com os berros de truco! "Até prefiro que a luz fique acesa", falava. "Assim sou obrigado a estudar mais."

Jóca tinha cabeça dura. Tinha uma dificuldade tremenda para entender os professores. Estudava como um danado, mas suas notas eram fracas.

Um dia ele me disse o que todos já sabíamos. Disse que a sua família fazia sacrifício pagar os seus gastos na república e na escola. "É por isso que preciso tirar boas notas, mas sou burro."

Quase todos procuravam ajudá-lo. O dinheiro que ele pedia emprestado ninguém cobrava e sempre havia alguém para lhe explicar alguma matéria. 

E assim, empurrado, ele levou a escola, passando de um ano para outro, com dificuldade.

No último ano do curso, Jóca entrou em desespero porque suas notas eram insufucientes para a aprovação, a não ser que ele fosse muito bem na avaliação final.

A alguns dias antes dos exames finais, ele chorou um choro calado, para dentro, enquanto dizia baixinho: "Não posso ser reprovado. Já cheguei até aqui. Não posso decepcionar minha família. Não posso, não posso".

Depois, disse que, se repetisse, passaria o fim-do-ano na república, sozinho, para não ter de enfrentar o seu pai e mãe. "Invento uma justificativa e fico por aqui." 

No dia dos exames, Jóca foi nervossísmo para a escola. Fiquei sabendo que só entregou as provas para o professor no último minuto. As notas sairiam no dia seguinte.

Jóca acabou aprovado. Apertado, com as notas mínimas necessárias, é verdade, mas foi aprovado.

Ficou feliz, orgulhoso, certamente com a expectativa de que agora, com o diploma na mão, a sua vida e a de sua família iam melhor.

No mesmo dia, ele partiu para sua cidade. Tinha de dar sem demora a boa notícia a sua família.

À noite, fiquei abalado com a notícia de que Jóca tinha morrido na estrada, no choque do ônibus em que viajava com um caminhão.

Se tivesse sido reprovado na escola, certamente estaria vivo até hoje. 
     

 

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