Textos de Paulo Roberto Lopes
no "Diário Popular" (anos 80)

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18 de janeiro de 1985
Crônica
Paulo Roberto Lopes
Moça, vim votar

Deu uma ajeitada no velho terno, que mal lhe cabia, de tão pequeno que ficara ao longo dos anos. Passou a mão de leve no cabelo, para ser se ainda estava penteado. Testou a garganta:

-- Han, han, haann.

E perguntou:

-- Moça, é aqui que é o Congresso Nacional?

-- É.

-- Vim votar

-- O senhor está falando com a pessoa certa. O credenciamento é comigo mesmo. Seu nome?

-- Aristides Bento da Silva. Às suas ordens.

-- O senhor não me parece ser deputado e muito menos senador. Quem o senhor é?

-- Não sou deputado nem senador, mas sou gente boa. Todo mundo me conhece em minha cidade, Birigui. Trabalho no ramo de construção, sou pedreiro. E quebro o galho em muitas outras coisas: conserto torneira pingando, ajudo a fazer mudanças..

-- Quer dizer que o senhor não é nada!! Ora, o senhor não pode votar!

-- Por que, moça? Eu tenho título de eleitor. Olha aqui, ó. Tá novinho. Tenho guardado ele muito bem guardado todos esses anos. E agora que está chegando a Democracia, pelo que me falaram, quero votar. Democracia não é quando todas as pessoas usam o título de eleitor?

-- Senhor Aristides, a eleição é indireta. só votam os senadores, deputados e delegados estaduais dos partidos. O povo, não. Seu título de eleitor não serve para nada. Com ele, o senhor, hoje, não pode nem entrar no Congresso. Só entra quem tem convite.

-- Moça, não dá para fazer uma exceção, quebrar o galho? Vim de longe. Gastei minhas economias com a viagem. E lá em casa meus filhos e minha mulher estão orgulhosos por eu ter vindo votar para presidente. Eles acham que isso vai melhorar minha vida, que vai ficar mais fácil para pagar as contas. Neste país, há um jeitinho para tudo, por que teria de ser diferente com a Democracia? Deixa eu votar, moça, prometo que voto direitinho...

-- Impossível! E o senhor já está me incomodando. Tenho outras coisas para fazer. Se o senhor insistir, chamo os guardas que estão logo ali.

-- Não precisar chamar os guardas, moça. Já estou indo. E é até bom que saia de perto desses guardas, porque vou quebrar a cara do primeiro que me falar que já existe democracia no país.

 

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