Textos de Paulo Roberto Lopes
no "Diário Popular" (anos 80)

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11 de janeiro de 1985
Crônica
Paulo Roberto Lopes
Metrô, segunda de manhã

Eram sete horas de uma segunda-feira.

Metrô lotado.

Eu estava na composição que saíra da Estação Jabaquara.

No vagão, tudo normal. Um senhor de chapéu lia jornal. Um menino espiava -- o quê? -- pela janela. Um senhora, de pé, esperava em vão o surgimento de um gentil cavalheiro. Um senhor enfiava o dedo no nariz.

De repente, um office boy cai desmaiado. As pessoas em sua volta falam ao mesmo tempo.

-- Vai ver que ele está tendo um ataque de epilepsia, e isso pega, disse uma senhora, dando um passo atrás.

-- Não é nada disso, assegurou um senhor que procurava abanar o rosto do rapaz.

-- Mesmo que fosse epilepsia, não haveria problema, acrescentou ele. Essa doença não contamina.

-- Quem garante, gritou alguém que estava à distância.

-- Um médico, por favor! Há algum médico no vagão?, berrou uma senhora grávida.

-- Não há!, acrescentou ela. Eu já sabia. Isto está parecendo posto do INPS --  nunca há médico para os
casos de emergência!

Um sujeito de meia-idade tenta fazer uma piadinha:

-- Para mim, algum "santo" baixou neste cara; ele tem jeito de macumbeiro.

Uma velhinha não se conteve:

-- Não baixou "santo" nenhum, sem graça. Mas o que vai baixar mesmo daqui a pouco é o meu braço em você.

Foi então que de outro extremo do vagão surgiu alguém pedindo licença.

-- Deixa eu ver. Saiam todos de perto. O rapaz precisa de ar, precisa respirar.

A senhora grávida não se conformou em ser afastada.

-- Afinal, quem é você? É médico? Não leva jeito!, disse.

-- Ainda não sou médico, minha senhora. Sou estudante de veterinária. Estou no segundo ano, respondeu.

-- Então serve, já que não há nenhum médico de verdade por aqui, disse a grávida, com, aparentemente, a concordância de todos.

-- O estudante examinou as pálpebras e o pulso do office boy.

-- Este rapaz desmaiou de fraqueza, de fome. Deve fazer tempo que ele não come nada.

Neste momento, o trem chega em uma estação, e para fora foi puxado o desmaiado, que ficou aos cuidados de um funcionário do metrô. E todos no trem ficaram aliviados, porque se livraram do problema.

E a estação, por ironia, era a da Saúde.

 

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