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4 de janeiro de 1985
Crônica
Paulo Roberto Lopes
A grande lição
-- É
assim que você deve colar nos exames finais, disse a
professora, fazendo-me olhar ligeiramente para o lado direito, onde se
encontrava o melhor aluno da classe.
Eu tinha uns 8 anos e estava no 3º do primário. Era novo naquela escola, para lá
acabara de ser transferido, e o fim do ano letivo estava por
algumas semanas.
Na nova escola, encontrei um currículo completamente diferente daquele que via
seguindo. E não havia tempo para me recuperar. Ia ser reprovado.
A inusitada lição da professora, de como colar, deixou-me confuso. Por que ela
estava fazendo aquilo?
Menino extremamente tímido, meu rosto ficou vermelho de vergonha. Afinal, toda
a classe estava presenciando o meu incomum aprendizado. E o melhor aluno da
classe, do qual eu nem sequer era amigo, o que estaria pensando?
Temi que o diretor da escola viesse a saber do caso. Temi não por mim, porque
nada tinha a temer -- praticamente já estava reprovado. "Ela poderá até
perder o emprego", passou pela minha cabeça. "Se for demitida, não
há como eu não me sentir culpado."
Infelizmente, não lembro o nome dela, mas sua imagem ficou gravada na minha
memória. Era franzina e elétrica, como se estivesse ligada a uma tomada por um
longo fio. Caminhava o tempo todo pela classe. Gesticulava muito. E olhava firme
para os olhos dos alunos. Ela se impunha pelo olhar.
E chega o dia dos exames finais.
O diretor da escolha foi o primeiro a entrar na classe. Ele tinha resolvido
inspecionar a realização dos exames do primeiro ao último minuto, o que não
era comum, segundo me disseram. Tremi. "Vai ver que ele já sabe de tudo,
alguém lhe contou", pensei.
Comecei a tentar a responder a questões. Uma dúvida me perturbava: devo colar
para não decepcionar a professora, ou não devo, para não colocá-lo no risco
de ser despedida? Ser ou não aprovado não me preocupava.
Olhei algumas vezes para o lado do menino-primeiro-da-classe, que estava
colocando a sua prova a minha mostra, mas não consegui colar. O diretor,
afinal, até que não estava prestando muito atenção na classe. Mas era o
emprego da professora, que ficou no fundo da sala, que me preocupava.
Fui reprovado.
Somente muitos anos depois é que consegui entender aquela lição da
professora. A lição de que, para a sociedade, o importante é ter aparência,
ter boas notas, ainda que não sejam merecidas. Saber mesmo, na maioria das
vezes, não faz diferença.
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