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14 de novembro de 1984
Crônica
Paulo Roberto Lopes
"Me dá uma coisa"
-- Moço, me dá uma coisa!
-- Que coisa, menino?
-- Qualquer coisa serve.
E lá se foi o menino, descalço, descamisado, magro, sujo, nariz escorrendo,
comendo a sua "coisa". Para quem não tem nada, qualquer coisa é
lucro.
Esse menino é apenas um de tantos que tocam a campainha de minha casa.
Entre eles, há quem é específico no pedido.
-- Moço, me dá um pouco de pó de café!
-- Não serve pão?
-- Não. Pão eu já ganhei hoje. O que falta agora é café.
Há aquele que tem preferência por dinheiro.
-- Me dá um dinheiro!
-- Não tenho.
-- Então em aceito uma moeda.
Ele diz como se moeda não fosse dinheiro -- e não é mesmo.
Outro dia, apareceu uma menina crescidinha, de uns 15 anos. Foi o seu dia de
sorte.
Minha mulher tinha achado no quartinho das tranqueiras uma bicicleta
velha, mas em bom estado, deixada na casa pelo morador anterior.
-- Tome, menina, leve esta bicicleta.
-- Pra mim!!!
-- É.
-- Tem certeza!
-- Tenho.
Quinze minutos depois, apareceram, juntas, quatro crianças -- todas querendo
bicicleta.
Foi difícil explicar-lhes que não havia mais bicicleta. Até que uma delas,
falando pelas outras, se convenceu e disse:
-- Tá bom. A gente aceita outra coisa.
O que essas crianças precisam mesmo é de uma vida digna. Mas isso, no Brasil,
está em falta.
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