Há mais ou menos 1.500 anos a.C. desenvolveu-se na Península Balcânica a Civilização Grega a mais importante da Antigüidade e também a mais influente de toda a história. Arquitetos Gregos criaram estilos que são copiados até hoje. Seus pensadores fizeram indagações sobre a natureza que continuam a serem discutidas nos dias atuais. O teatro também nasceu na Grécia, onde as primeiras peças eram representadas em anfiteatros abertos. Foi em Atenas, uma Cidade-Estado*, que se fundou a primeira democracia, isto é, o governo do povo - embora houvessem escravos, que por não serem cidadãos não votavam -. A sociedade grega atravessou diversas fases, atingindo seu apogeu entre os anos 600 e 300 a.C., com grande florescimento das artes e da cultura. A Grécia foi unificada por Felipe da Macedônia. Seu filho, Alexandre O Grande, disseminou a cultura grega pelo Oriente Médio e pelo norte da África.
Descrição do país
Na região sudoeste da Europa, formando a extremidade meridional da península balcânica, situa-se a Grécia, país de tanta fama e grandeza nas páginas das grandes civilizações.
O país compreende duas partes: a continental e a insular. Aquela (conforme se pode observar em qualquer mapa) caracteriza-se pelo número de regiões: a Tessália e o Épiro ao norte; a Etólia próxima a Delfos, a Beócia, junto a Tebas e a Ática triangular em que se situa Atenas. Mais para o sul, no Peloponeso separado do restante do país pelo istmo de Corinto, temos a Élida, a Arcádia, a Lacônia e Messênia. A parte insular compreende centenas de ilhas constantemente citadas na história, na literatura e nas artes (Creta, Milo, Paros, Samos, Lesbos são algumas das que tem maior celebridade).
O clima da Grécia assemelha-se ao dos países mediterrâneos: quente e seco no verão, frio e úmido no inverno.
O nome de Grécia foi desconhecidos por seus antigos habitantes, Estes se chamavam Helenos e ao país denominavam de Hélade. Foram os romanos, os criadores daquele termo derivado de Graea, povoação do Épiro, de onde vieram os primeiros colonos helenos da Itália.
O papel do mar
O mar desempenhou para os gregos uma função de alta importância; dilatou-lhes excepcionalmente o horizonte. É assim que, navegando de ilha em ilha (era o tempo em que a navegação não ousava perder de vista o horizonte terrestre). os gregos chegaram: a) pelo mar Egeu ao litoral da Ásia Menor, onde fundaram colônias e dominaram localidades; b) pelo mar Jônico à Itália Meridional e à Sicília, onde fundaram a Magna Grécia.
O mundo grego compunha-se, portanto, graças ao mar, de três partes: a Grécia propriamente dita, a Grécia da Ásia Menor ( o outro lado do mar Egeu, diziam os gregos) e a Magna Grécia.
A formação do povo
Os próprios gregos ignoravam a sua origem e procuravam explica-la através de lendas maravilhosas (os mitos). Na verdade, porém, a Grécia foi habitada, em tempos, muito distantes, por povos não gregos, de origem mediterrânea a que se dá o nome de pelasgos.
Mais tarde, o país foi invadido por povos arianos - Aqueus e dórios principalmente - os quais acabaram por se mesclar e deram origem aos helenos.
A religião dos gregos
Os gregos tal como os egípcios eram politeístas, isto é, adoravam muitos deuses. Os mais poderoso era Zeus, deus do céu e do fogo. Hera, sua esposa protegia a vida familiar. Seguiam-se entre outros, Apolo, o deus do sol, Ártemis, a deusa da Lua, Hermes, deus dos oradores e comerciantes, Ares, deus da guerra e Atena deusa da sabedoria.
O culto e os heróis
O culto aos deuses comportava entre os gregos o sacrifício de animais e festas. Algumas festas eram particulares a determinadas cidades, enquanto outras eram comuns a toda Grécia. Entre as primeiras, cita-se a procissão de Palas-Atena, realizada em Atenas em honra da deusas que protegia a cidade. Das segundas, cita-se a de Olímpia, onde compareciam gregos de todos os lugares para participar ou assistir os Jogos Olímpicos.
Ademais, os gregos reverenciavam os heróis (homens que haviam realizado feitos extraordinários e que uma vez mortos se aviam transformados em deuses). O mais famoso dos heróis gregos foi Hércules.
Os monumentos Gregos
Os mais belos monumentos arquitetônicos da Grécia antiga constituíam-se de templos dedicados a vários deuses. Cada cidade-estado tinha orgulho de seus templos. Nenhuma, porém, possuiu templos tão grandiosos e tão belos como Atenas. Os templos atenienses agrupavam-se num planalto rochoso, isto é, na acrópole (parte alta da cidade).
O principal era o Partenon, templo dedicado a Palas-Atena. O arquiteto que construiu este templo foi Fídias que era igualmente um grande escultor. Suas obras principais de estatuária consistiram na estátua de Palas-Atena, junto ao Partenon, e na de Zeus, erguida na cidade de Olímpia.
As letras Gregas
Os maiores escritores da Grécia viveram entre o V e o IV séculos. Entre outros citam-se Ésquilo, Sófocles e Euripedes, autores teatrais que se dedicaram a celebração dos episódios mais gloriosos da história do país. Aristófanes escritor de comédias e Demostenes, também famoso orador se integram a citação resumida que aqui faço.
A tais nomes cumpre ainda juntar os de Píndaro (famoso poeta), Heródoto e Túcides (grandes historiadores) e Tales de Mileto, Pitágoras, Sócrates e Platão (grandes pensadores).
Filosofia Grega
A filosofia grega dividi-se em antes e depois de Sócrates. Foram pré-socráticos Tales de Mileto (fim do século VII - início do VI a.C.); Pitágoras (582 - 497 a.C.); Demócrito (460 - 370 a.C.); Heráclito (535 - 475 a.C.); e Parmênides (540 - ? a.C.). No tempo de Sócrates predominava a escola dos sofista que se serviam de reflexão para atingir fins imediatos, ainda que por falso argumentos. O maior dos sofista foi Pitágoras.
Sócrates (470 - 399 a.C.) - Fundou a Filosofia Humanista. Criou a maiêutica ("parto das idéias"), método de reflexão que consiste em multiplicar as perguntas para obter, a partir da indução de casos particulares, um conceito geral do objetivo. Para Sócrates, a virtude era uma ciência que se podia aprender. Uma voz interior, daimon, indicaria o caminho do bem. Irônico, hábil em confundir o interlocutor, cercado de discípulos extravagantes, como Alcebíades, atraiu muitos inimigos. Acusado de renegar os deuses e corromper a juventude, Sócrates foi condenado a beber cicuta (tipo um veneno), o que fez com bravura e serenidade.
Platão (427 - 347 a.C.) - Principal discípulo de Sócrates, fundou a Academia de Atenas. Segundo sua teoria, baseadas nas idéias (formas essenciais), o mundo real transcende o mundo das aparências, o qual nada mais é do que uma derivação das idéias matrizes. Em suas obras políticas, destaca como virtudes essenciais a bravura, a serenidade e a justiça. Obras importantes: Apologia de Sócrates**, Críton, O Banquete, Fédon, Fedro e A República.
Aristóteles (384 - 322 a. C.) - Considerado por muitos como o maior filósofo de todos os tempos. Abarcou todos os conhecimentos de seu tempo - Lógica, Física, Metafísica, Moral, Política, Retórica e Poética. Sua obra foi editada pela primeira vez no séc. I a.C. por Andrônico de Rodes. Partindo de Sócrates e Platão, Aristóteles sistematizou os princípios da Lógica, formando uma ciência que ele chamou de Analítica. Sua Metafísica estuda o "ser enquanto ser"e investiga os "primeiros princípios" e as "causas primeiras do ser". Em sua Teologia, Aristóteles procura demonstrar racionalmente a existência de Deus, o "primeiro motor móvel", o "não-vir-a-ser", o "ato puro".
Cronologia da Grécia Antiga
1500 a.C. - A civilização minóica atinge seu apogeu.
c. 1400 a.C. - A civilização micênica domina a Grécia; grandes palácios são construídos nas regiões continentais.
c. 1250 a.C. - Época provável das guerras entre os micenas e Tróia.
c. 1000 a.C. - Os primeiros povos de língua grega se estabelece na área e fundam as cidades-Estados.
776 a.C. - Realizam-se em Olímpia os primeiros jogos Olímpicos.
750 a.C. - Fundação das primeiras colônias gregas.
c. 505 a.C. - Atenas adota a democracia como forma de governo.
500-449 a.C. - As Guerras Médicas; as cidades gregas se unem para combater os persas.
anos 400 a.C. - Apogeu do teatro grego.
490 a.C. - Os gregos derrotam os persas na batalha de Maratona.
480 a.C. - Os gregos destroem a frota persa na batalha de Salamina.
479 a.C. - Derrota final persa na batalha de Platéia.
461-429 a.C. - Péricles governa Atenas; construção do Partenon.
431-404 a.C. - Guerra do Peloponeso, entre Esparta e Atenas; início da supremacia de Esparta sobre a Grécia.
359 a.C. - Filipe torna-se rei da Macedônia.
338 a.C. - Filipe domina toda a Grécia.
336-323 a.C. - Alexandre o Grande, filho de Filipe, expande o império grego até o Oriente Médio.
Arte Grega
Enquanto a arte egípcia é uma arte ligada ao espírito, a arte grega liga-se
à inteligência, pois os seus reis não eram deuses, mas seres inteligentes e
justos que se dedicavam ao bem-estar do povo. A arte grega volta-se para o gozo
da vida presente.
Contemplando a natureza, o artista se empolga pela vida e tenta, através da
arte, exprimir suas manifestações. Na sua constante busca da perfeição, o artista
grego cria uma arte de elaboração intelectual em que predominam o ritmo, o
equilíbrio, a harmonia ideal. Eles tem como características: o racionalismo;
amor pela beleza; interesse pelo homem, essa pequena criatura que é “a medida
de todas as coisas”; e a democracia.
Arquitetura

As edificações que despertaram maior interesse são os templos. A característica
mais evidente dos templos gregos é a simetria entre o pórtico de entrada e o
dos fundos. O templo era construído sobre uma base de três degraus. O degrau
mais elevado chamava-se estilóbata e sobre ele eram erguidas as colunas. As
colunas sustentavam um entablamento horizontal formado por três partes: a
arquitrave, o friso e a cornija. As colunas e entablamento eram construídos
segundo os modelos da ordem dórica, jônica e coríntia.


- Ordem Dórica - era simples e maciça. O fuste da coluna era monolítico
e grosso. O capitel era uma almofada de pedra.
Nascida do sentir do povo grego, nela se expressa o pensamento. Sendo a mais
antiga das ordens arquitetônicas gregas, a
ordem dórica, por sua simplicidade e severidade, empresta uma idéia de solidez
e imponência

- Ordem Jônica - representava a graça e o feminino. A coluna apresentava
fuste mais delgado e não se firmava diretamente
sobre o estilóbata, mas sobre uma base decorada. O capitel era formado por duas
espirais unidas por duas curvas. A ordem
dórica traduz a forma do homem e a ordem jônica traduz a forma da mulher.
- Ordem Coríntia - o capitel era formado
com folhas de acanto e quatro espirais simétricas, muito usado no lugar do
capitel jônico, de um modo a variar e enriquecer aquela ordem. Sugere luxo e
ostentação.
Os principais monumentos da arquitetura grega:
a) Templos, dos quais o mais importante é o Partenon de Atenas. Na Acrópole,
também, se encontram as Cariátides homenageavam as mulheres de Cária.
b) Teatros, que eram construídos em lugares abertos (encosta) e que compunham
de três partes: a skene ou cena, para os atores; a konistra ou orquestra, para
o coro; o koilon ou arquibancada, para os espectadores. Um exemplo típico é o
Teatro de Epidauro, construído, no séc. IV a.C., ao ar livre, composto por 55 degraus
divididos em duas ordens e calculados de acordo com uma inclinação perfeita.
Chegava a acomodar cerca de 14.000 espectadores e tornou-se famoso por sua
acústica perfeita.
c) Ginásios, edifícios destinados à cultura física.
d) Praça - Ágora onde os gregos se reuniam para discutir os mais variados
assuntos, entre eles; filosofia.
Pintura
A
pintura grega encontra-se na arte cerâmica. Os vasos gregos são também
conhecidos não só pelo equilíbrio de sua forma, mas também pela harmonia entre
o desenho, as cores e o espaço utilizado para a ornamentação. Além de servir
para rituais religiosos, esses vasos eram usados para armazenar, entre outras
coisas, água, vinho, azeite e mantimentos. Por isso, a sua forma correspondia à
função para que eram destinados:
- Ânfora - vasilha em forma de coração,, com o gargalo largo ornado com duas
asas;
- Hidra - (derivado de ydor, água) tinhha três asas, uma vertical para segurar
enquanto corria a água e duas para levantar;
- Cratera - tinha a boca muito larga, ccom o corpo em forma de um sino
invertido, servia para misturar água com o vinho (os gregos nunca bebiam vinho
puro), etc.
As pinturas dos vasos representavam pessoas em suas atividades diárias e cenas
da mitologia grega. O maior pintor de figuras negras foi Exéquias.
A pintura grega se divide em três
grupos:
1) figuras negras sobre o fundo vermelho
2) figuras vermelhas sobre o fundo negro
3) figuras vermelhas sobre o fundo branco
Escultura
A estatuária grega representa os mais altos padrões já atingidos pelo homem. Na
escultura, o antropomorfismo - esculturas de formas humanas - foi insuperável.
As estátuas adquiriram, além do equilíbrio e perfeição das formas, o
movimento.
No Período Arcaico os gregos começaram a esculpir, em mármores, grandes figuras
de homens. Primeiramente aparecem esculturas simétricas, em rigorosa posição
frontal, com o peso do corpo igualmente distribuído sobre as duas pernas. Esse
tipo de estátua é chamado Kouros (palavra grega: homem jovem).
No Período Clássico passou-se a procurar movimento nas estátuas, para isto, se
começou a usar o bronze que era mais resistente do que o mármore, podendo fixar
o movimento sem se quebrar. Surge o nu feminino, pois no período arcaico, as
figuras de mulher eram esculpidas sempre vestidas.
Período Helenístico podemos observar o crescente naturalismo: os seres humanos
não eram representados apenas de acordo com a idade e a personalidade, mas
também segundo as emoções e o estado de espírito de um momento. O grande
desafio e a grande conquista da escultura do período helenístico foi a
representação não de uma figura apenas, mas de grupos de figuras que
mantivessem a sugestão de mobilidade e fossem bonitos de todos os ângulos que
pudessem ser observados.
Os principais mestres da escultura clássica grega são:
-
Praxíteles, celebrado pela graça das suas esculturas, pela lânguida pose em
“S” (Hermes com Dionísio menino), foi o primeiro artista que esculpiu o nu
feminino.
- Policleto, autor de Doríforo -
condutor da lança, criou padrões de beleza e equilíbrio através do tamanho das
estátuas que deveriam ter sete vezes e meia o tamanho da cabeça.
- Fídias, talvez o mais famoso de todos, autor de Zeus Olímpico, sua
obra-prima, e Atenéia. Realizou toda a decoração em baixos-relevos do templo
Partenon: as esculturas dos frontões, métopas e frisos.
-
Lisipo, representava os homens “tal como se vêem” e “não como são”
(verdadeiros retratos). Foi Lisipo que introduziu a proporção ideal do corpo
humano com a medida de oito vezes a cabeças.
- Miron, autor do Discóbolo - homem arremessando o disco.
Atenas e Esparta
Atenas
A vida civil de
Atenas foi muito diferente do viver militar dos espartanos.
Atenas era uma cidade jônica, situada na pequena península da Ática. Desde os tempos dos antigos, seus habitantes se entregavam a navegação marítima e, em contato com outros povos de civilizações adiantadas aprenderam e desenvolveram os elementos de uma vida espiritual e materialmente superior.
As tradições davam a cidade como fundada por Cécrope, colono egípcio. Um dos seus monarcas lendários teria sido o herói Teseu. O último desta fase foi Codro que sacrificou a própria vida para salvar o país da invasão dos dórios. A fim de honrar-lhes a memória, os atenienses aboliram a realeza, declararam que ninguém possuía dignidade bastante para substituir um rei com aquelas qualidades.

Acrópole de Atenas - Vista aérea -
A organização social de Atenas
A população de Atenas dividia-se em três classes: cidadãos, metecos e escravos.
A cidadania era um privilégio que se adquiria pelo nascimento. Somente filhos de pai e mãe atenienses se reservava o direito de serem cidadãos. Os estrangeiros e seus descendentes, domiciliados em Atenas, formavam a classe dos metecos, excluídos, como os escravos, da vida política. Diz-se em resumo, que em Atenas, todos cidadãos tinham direitos políticos, mas nem todos habitantes eram cidadãos.
A organização política de Atenas
Tal como nas demais cidades da Hélade, havia em Atenas a classe dos aristocratas, os eupátridas (bem nascidos), como ali eram chamados. Estes, apos a morte de Codro, elegeram um magistrado vitalício, com o título de Arconde, responsável pelo governo, mas despojado das prerrogativas reais. Mas tarde, tornaram aquele cargo temporário, limitando-o a dez anos de mandato. Por fim, o Arcontado foi anual e passou a ser exercido por nove arcondes, um dos quais chamado arconde-rei, encarregado das funções religiosas.
Ao lado do Arcontado, com poderes administrativos militares e religiosos, funcionava o Aerópago, assembléia ou conselho formado pelos ex-arcondes, com poderes judiciários e também políticos.
As primeiras leis escritas
O governo dos nobres era opressor e indiferente à sorte do povo. Com o tempo, formou-se uma nova classe social: a dos comerciantes e de industrias que desejavam participar dos atos de governo. Uniram-se, por isso, aos demais e deram começo a uma série de lutas, visando a melhores condições de vida de toda a população. No século VII a.C., surgiram as primeiras leis escritas, atribuídas a Drácon e que se tornaram famosas pela severidade e rigor. era um passo à frente na conquista dos direitos humanos, embora a maior parte das coisas se mantivessem praticamente no mesmo estado anterior.
Sólon
Em 594 a.C., os atenienses elegeram para o Arcontado um dos "sete sábios da Grécia", Sólon, homem de grande inteligência, que realizou importante reforma no sentido democrático, inspirado no desejo de favorecer os direitos do povo. Começo por libertar os devedores reduzidos à escravidão, suprimindo o cativeiro por dívidas; garantiu a liberdade individual; estabeleceu um imposto progressivo sobre os rendimentos, para o que dividiu os cidadãos em quatro categorias, repartindo entre estas os cargos e os direitos em forma proporcional e eqüitativa.
Os poderes do governo foram divididos em quatro corpos políticos: o Arcontado, o Bulé, a Eclésia e o Aerópago.
Para o primeiro, só podiam ser eleitos os cidadãos da primeira classe, isto é, os mais ricos; o Bulé, era um conselho de 400 cidadãos, eleitos entre os membros das primeiras três classes, a Eclésia, ou assembléia do povo , pertenciam vinte mil cidadãos, incluindo-se os que nada possuíam. O Aerópago manteve a estrutura anterior.
Pisístrato
As reformas de Sólon originaram descontentamento: os eupatridas se viram prejudicados e o povo achou que devia ter mais direitos. Das lutas aproveitou Pisístrato, jovem endinheirado que, apoiado no partido popular, apoderou-se do governo.
Deu-se- o qualificativo de tirano, que, como sabemos, designava os que se elevavam ao poder por meios irregulares.
Pisístrato administrou com justiça e acerto, respeitando as leis de Sólon e procurando melhorar as condições dos menos favorecidos. A ele se atribui a iniciativa de determinar a compilação das obras de Homero. quando morreu, sucederam-lhe os filhos Hiparco e Hípias: aquele foi morto numa conjuração e este foi obrigado a fugir, por força de uma sublevação de nobres atenienses (510 a.C.).
A democracia ateniense
O governo de Atenas coube, depois de algumas lutas, a Clístenes, homem de origem aristocrática, mas de tendências populares. Nomeado arconde realizou reformas políticas de grande importância, aboliu a divisão de classes e permitiu que todos os domiciliados em Atenas fossem considerados cidadãos. Depois dividiu politicamente o território dez tribos com direitos iguais e deu à Eclésia maior qualidade de poderes.
Para evitar influências de indivíduos que pudessem atentar contra a liberdade instituiu o ostracionismo, votação realizada pela Eclésia, que tinha por fim exilar, pelo prazo de dez anos, os que visem a incidir naquela suspeição.
A partir de 503 a.C., data em que tivessem aplicação as reformas de Clístenes, o Estado ateniense passou a ser uma democracia, embora estivesse longe se assemelhar-se as democracias de nosso tempo (havia ainda muita desigualdade, mais do que a existente hoje).
Esparta
No sudoeste do Peloponeso estende-se um vale por onde rola suas águas o antigo rio Eurotas. A região, que é quase toda cercada de montanhas chamou-se noutros tempos, de Lacônia. Inicialmente foi habitada pelos pelasgos, depois foi invadida pelos aqueus e, por fim, conquistada pelos dórios.
Esses últimos fixaram o centro de sua atividade na cidade de Esparta.
A hostilidade dos aqueus, vencidos mas não conformados, a influência do solo áspero, do clima e da própria situação geográfica, tornaram os espartanos, no decorrer dos séculos um povo guerreiro.
Tr6es motivos principais levaram os espartanos a guerras de conquista:
1- A preocupação de abater qualquer outro Estado que, por seu poderio, constituísse ameaça ao país;
2- A necessidade de outras terras para a população crescente;
3- O desejo de aumentar o poderio militar que lhes era próprio, absorvendo novas tropas auxiliares ou aliadas
A organização social espartana
A organização política e social de Esparta é atribuída a Licurgo, personagem lendária, que teria vivido no século IX a.C.
A população se compunha de três classes sociais: espaciatas, periecos e ilotas.
Os espaciatas também chamados espartanos eram descendentes dos antigos dórios e formavam a classe dos iguais, espécie de aristrocacia dominante. Os periecos integravam a classe formada pelos antigos aqueus que não foram despojados de suas pequenas propriedades; não tinham direitos políticos, mas gozavam de completa liberdade social e econômica. Os ilotas eram também aqueus, pertencentes, porém, aquela grande maioria que fora privada de seus haveres e reduzida a condições de trabalho humilde.
A organização política de Esparta
Esparta era governada por dois reis ao mesmo tempo. Era época de guerra, somente um deles marchava para o combate.
O poder dos monarcas sofria, porém, limitações impostas pelos seguintes outros órgãos de governo:
I - A Gerúsia, câmara formada de cidadãos maiores de 60 anos, que redigia as leis a serem por todos obedecidas;
II - A Ápela, assembléia em que tomavam parte os maiores de 30 anos, com poderes para aceitar ou rejeitar as propostas da Gerúsia;
III - Os Éforos, conselheiros ou magistrados, em números de cinco, eleitos por um ano e com atribuições de convocarem as duas câmaras, de darem ordem a militares, de administrar justiça e de vigiar a vida particular dos adultos.
A educação espartana
A educação dos espartanos visava a fazer de cada indivíduo um soldado. O recém-nascido que apresentasse defeito para a vida militar era morto por ordem do Estado. Quando os meninos alcançavam os setes anos de idade, tornavam-se recrutas e passavam a fazer parte de uma pequena tropa que, sob as ordens de um monitor, praticavam diariamente exercícios atléticos e ginástica. Aos vinte anos, o jovem ingressava no exército, aos trinta, podia casar-se e participar da Ápela. A vida militar só findava quando o homem espartano chegava aos 60 anos de idade. Todos, mesmo os monarcas, antes dessa idade, eram obrigados a tomar parte nos exércitos militares, que, periodicamente, se levavam a efeito em tempos de paz.
A cultura intelectual foi quase nula em Esparta limitando-se ao ensino de poesias sagradas, a cantos de guerra e a uma eloqüência particular que devia expressar muitas coisas em poucas palavras. Chama-se lacônica a linguagem breve, concisa, sentenciosas, igual a que e falava na Lacônia.
As conquistas espartanas
Esparta manteve um exército adestrado de 30 mil homens de infantaria e 500 de cavalaria. Proporcionalmente ao total da população , o número de soldados era excessivo, podendo se dizer que a lacônia era um quartel general e o povo espartano um exército. Vivendo exclusivamente para as glórias da guerra, foram os espartanos no dizer do historiador Xenofonte: "artistas da arte militar".
Com esse exército, Esparta dominou várias cidades do Peloponeso e com aquelas que não pode subjugar formou a famosa aliança que teve o nome de Liga do Peloponeso. No ano de 490 a.C., o poderio de Esparta era superior ao de todas a s cidades da Grécia. Esta fase teve o nome de Hegemonia espartana.
Guerra do Peloponeso

Conflito entre Atenas e Esparta, ocorrido entre 431 e 404 a.C.. Sua história
foi detalhadamente registrada por Tucídides e Xenofonte. De acordo com
Tucídides, a razão fundamental da guerra foi o crescimento do poder ateniense e
o temor que o mesmo despertava entre os espartanos. A cidade de Corinto foi
especialmente atuante, pressionando Esparta a fim de que esta declarasse guerra
contra Atenas. Esparta invadiu a Ática com seus aliados em 431 a.C., mas
Péricles persuadiu os atenienses a se deslocarem para trás das 'longas
muralhas' que ligavam Atenas a seu porto, o Pireu, e a evitar uma
batalha em terra com o superior exército espartano. Atenas confiava em sua
frota de trirremes para invadir o Peloponeso e proteger seu império e suas
rotas comerciais, mas foi gravemente surpreendida pela deflagração da peste, em
430 a.C., que matou cerca de um terço da população, inclusive Péricles. Apesar
disso, a frota teve boa performance e foi estabelecida uma trégua de um ano, em
423 a.C.. A Paz de Nícias foi concluída em 421 a.C., mas Alcibíades liderou um
movimento de oposição a Esparta no Peloponeso; suas esperanças esvaneceram-se
com a vitória de Esparta em Mantinéia, em 418 a.C..
Ele foi também o principal defensor de uma expedição à Sicília (415-3 a.C.),
que visava derrotar Siracusa e que resultou em completo desastre para Atenas. A
guerra foi formalmente retomada em 413 a.C.; a fortificação de Decélia, na
Ática, pelos espartanos, e revoltas generalizadas entre seus aliados pressionaram
Atenas, que havia perdido grande parte de sua frota na Sicília e estava falida
e atormentada por convulsões políticas. Apesar disso e graças, em grande parte,
a Alcibíades, a sorte de Atenas ressurgiu, com vitórias
navais em Cinosema (411 a.C.), e Cícico (410 a.C.), e com a reconquista de
Bizâncio (408 a.C.). Houve mais uma vitória em Arginuse, em 406 a.C.. A partir
de então, o apoio financeiro da Pérsia a Esparta e as habilidades estratégicas
e táticas do espartano Lisandro
alterou a balança. A vitória espartana em Egospótamos e seu controle do
Helesponto subjugaram Atenas, pela fome, até a rendição, em abril de 404 a.C..
Seguiu-se imediatamente um golpe oligárquico, apoiado por Esparta, e o reino de
terror da 'Tirania dos Trinta'. A democracia foi restabelecida em 403 a.C..
Árvore Genealógica dos Deuses Gregos

O Surgimento dos Deuses
Para os gregos, não foram os deuses que criaram o Universo, e sim o Universo
que os
criou.
No princípio era o Caos (fenda), que gerou Géia ou Gaia (a Terra), que por sua
vez
espontaneamente gerou Pontos (o mar) e Urano (o céu).
A união entre Géia e Pontos gerou as antigas divindades marítimas, praticamente
personificadas em Nereu, o velho do mar, que podia assumir todas as formas,
diluir-se e
desmanchar-se na água. Nereu é representado como um ancião de barbas brancas e
corpo de peixe.
Géia e Urano tembém se uniram, deles surgindo os Titãs (Oceano, Coeus, Crius,
Hyperion, Japetus e Cronos), e as Titânidas (Thétis, Phoebe, Mnemósine, Théia,
Themis
e Réia). Os irmãos uniram-se às irmãs, gerando uma série de divindades.
Por escolha de Géia, coube a Cronos destronar o pai Urano, o que fez com uma
foice de
ferro, metal gerado por Géia. Cronos castrou Urano, e atirou ao mar a bolsa
escrotal e o
pênis, que provocaram uma onda de espuma manchada de sangue, da qual nasceu
Afrodite.
Cronos, por sua vez, foi destronado por Zeus, um dos filhos de sua união com
Rhea.
Cronos temia ser destituído como o pai, por isso devorava seus filhos. Quando
do
nascimento de Zeus, Rhea enganou Cronos, dando-lhe uma pedra envolta em
cueiros, e
entregou a criança aos cuidados da ninfa Adrastéia, que o alimentou de mel e do
leite
da cabra Amaltéia.
Zeus chegou rapidamente à idade viril, e com a ajuda de Géia, derrubou Cronos,
forçando-o a ingerir um remédio de mostarda e sal; Cronos regurgitou primeiro a
pedra,
depois os demais filhos (Héstia, Hades, Posseidon, Hera e Deméter). Zeus e os
deuses mais jovens combateram os Titãs, nas planícies da Tessália, e se
apossaram do
Monte Olimpo, que passou a ser a morada dos deuses. Na mitologia romana, Cronos
é
Saturno.
O encadeamento dessa sucessão de divindades tem como uma de suas explicações a
própria história da Grécia, cujos habitantes primitivos, os pelasgos, sofreram
as invasões
dos aqueus, eólios, jônios e dórios, tribos de origem indo-européia ou ariana,
que
penetraram e se fixaram na Grécia entre os séculos 20 e 12 a.C.. Esses povos
invasores
fundiram seus mitos e lendas aos dos povos conquistados, daí resultando as
diversas
versões em torno da origem dos deuses, bem como a variação dos padroeiros das
cidades e regiões.
Os
Deuses do Olímpio
Zeus (Júpiter) | Posseidon (Netuno) | Hades (Plutão) | Ares (Marte) | Apolo
|
Hermes (Mercúrio) | Hefesto (Vulcano) | Dionísio (Baco)
Zeus - É o chefe supremo do Panteão Olímpico grego. Seu nome, de origem
indo-européia, significa resplandecente, brilhante; é associado ao trovão e ao
raio.
Homero o chama de "Pai dos deuses e dos homens", colocando-o na
posição de
patriarca ou chefe de tribo, responsável pela justiça e pela ordem moral e
social da
Grécia.
É representado como um homem robusto, majestoso, com uma barba imponente. Era o
deus mais venerado da Grécia, e o seu principal centro de culto era em
Olímpia.
Zeus inspirou muitos mitos e lendas na literatura grega, sobretudo pela
quantidade de
mulheres que possuiu. Tinha como mulher oficial Hera, uma de suas irmãs. Na
religião
romana, Zeus era conhecido como Júpiter.
Posseidon - Era o senhor do mar, segundo em importância na escala do
Olimpo, pois
para os gregos o comércio marítimo era uma peça fundamental da economia.
Posseidon tinha um esplendoroso palácio no fundo do mar; sua mulher era
Anfitrite, neta
do titã Oceano. É representado como um homem de boa aparência, barbudo, com um
tridente nas mãos. Entre os romanos, era conhecido como Netuno.
Hades - Dominava o mundo subterrâneo. Embora seja conhecido como o deus
dos
mortos, era também chamado Pluto, o deus das riquezas contidas no subsolo.
Sombrio e
sinistro, raramente visitava a Terra, e possuía um capacete ou elmo que tornava
qualquer um invisível. Costuma ser representado num carro de ouro, com a
cornucópia
da abundância nas mãos.
Sua mulher era Perséfone, filha de Zeus e da irmã de ambos, Deméter.
Ares - Deus da guerra, filho de Zeus e Hera. A sua figura surgiu na época
em que o
ferro passou a ser utilizado para a fabricação de espadas e escudos, e os
Exércitos
passaram a ter normas precisas para ataque e defesa. Possuía um caráter
violento,
apreciava cenas brutais e tinha prazer em observar a dor alheia.
Ares não era cultuado na Grécia, onde o povo preferia a concórdia e a harmonia.
Por
essa razão, era muitas vezes o derrotado nos mitos gregos; Atena, deusa da
sabedoria,
o venceu várias vezes, o que era uma forma de demonstrar o triunfo da razão
sobre a
brutalidade. A versão romana de Ares é Marte.
Apolo - Deus do sol, irmão gêmeo de Ártemis, deusa da caça, filho de
Zeus e Leto, filha
dos titãs Coeus e Phoebe, tios de Zeus. Tinha qualidades atléticas, musicais e
poéticas,
possuía uma bela voz e tocava lira; os gregos o invocavam também em relação à
medicina, criação de gado, agricultura e no manejo do arco e flecha. Era também
o deus
das profecias, concedendo esse dom aos humanos que apreciava; o seu oráculo em
Delfos, era o mais célebre do mundo helênico.
Os atributos de Apolo eram relativos à sua luminosidade, e integravam o modelo
ideal do
homem grego, capaz de equilibrar heroísmo, beleza e sabedoria. Alguns mitos o
colocam
também como impiedoso e cruel, como no caso da transformação da ninfa Dafne
numa
árvore.
Hermes - Conhecido como o mensageiro dos deuses, era filho de Zeus com a
ninfa
Maia, filha de Atlas, neta dos titãs Oceano e Thétis; Zeus a possuiu na calada
da noite,
enquanto Hera dormia, e Hermes nasceu pela manhã.
Foi o deus dos pastores, viajantes por via terrestre, mercadores, pesos e
medidas,
atletas, e ladrões; venerado pela astúcia e sagacidade, inspirava também a
literatura e
a oratória. Ainda dedicava-se à música, sendo o inventor da lira e da flauta;
no campo
esportivo, era considerado o criador do pedestrianismo e do pugilismo. Como
mensageiro
dos deuses, guiava as almas dos mortos para o mundo subterrâneo, e também estava
associado com a transmissão dos sonhos aos mortais.
Hermes é representado por um jovem bonito, de porte atlético, com sandálias e
capacete alados, portando o caduceu, símbolo dos plenos poderes como executor
das
ordens de Zeus, e do seu caráter conciliador. Em Roma era venerado como
Mercúrio.
Hefesto - Deus do fogo, artesão divino, que produzia muitos dos objetos
e acessórios
utilizados pelos deuses, inclusive os raios de Zeus.
Hefesto, segundo Hesíodo, foi gerado espontaneamente pela vingativa e ciumenta
Hera,
em represália a paixão de Zeus por Métis. Porém, Hera decepcionada com a feiúra
do
filho, o atirou Olimpo abaixo. Em outra versão, Zeus o atira por ter apoiado
Hera numa
discussão.
Como artesão, Hefesto pretendia Atena como mulher, por ser a padroeira da
indústria,
mas ela o recusou por ser muito feio; em outra versão, ela desaparece do leito
nupcial,
e Hefesto ejacula no chão; num conto semelhante, o esperma derramado na coxa de
Atena gera Erecteu, que foi rei de Atenas. Apesar dos desencontros, ambos são
muito
venerados na cidade de Atenas, na qual as manufaturas tinham um papel
importante na
economia.
Hefesto também aparece como o marido traído de Afrodite; depois desse episódio,
segundo Homero (Ilíada), desposou Aglaea, uma das Graças. Na mitologia romana
era
chamado Vulcano.
Dionísio - Era um dos deuses mais populares. Conhecido em Roma como Baco,
foi
caracterizado de duas maneiras: na primeira como o deus do vinho, da vegetação,
fertilidade, e também padroeiro do teatro; na segunda, como o iniciador no
êxtase
místico resultante da entrega do corpo às substâncias inebriantes, com ênfase
para as
bebidas alcoólicas. Assim, era o inspirador de cultos orgiásticos.
Dionísio era filho de Zeus com Semele, uma bela mortal a quem prometera satisfazer
todos os desejos. Semele pediu para ver Zeus em toda a sua majestade, mas os
raios
luminosos procedentes dessa visão a carbonizaram; como estava esperando
Dionísio, ela
e o filho em gestação foram para o Hades, de onde Zeus o resgatou, levou para o
Olimpo, costurando-o em sua coxa, de onde foi retirado ao completar a gestação.
Há
outra versão em que Dionísio seria filho de Perséfone, deusa do mundo
subterrâneo.
As Deusas do Olímpio
Hera (Juno) | Héstia (Vesta) | Deméter (Ceres) | Ártemis (Diana) |
Atena (Minerva) | Afrodite (Vênus)
Hera - Além de irmã de Zeus, também foi a sua mulher oficial.
Protetora do matrimônio,
extremamente ciumenta, buscava castigar as mulheres pelas quais Zeus se
apaixonava.
Não perdoava aqueles(as) que a ofendiam.
As mulheres casadas invocavam o seu auxílio no momento do parto. Em algumas
cidades, Ilítia ou Eileithyia, a divindade consagrada a esse acontecimento,
identificava-se com a própria Hera, em outras como sua filha. Os romanos
tratavam Hera
como Juno.
Héstia - Deusa dos laços familiares, simbolizada pelo fogo da
lareira. Cortejada por
Possêidon e Apolo, jurou virgindade perante Zeus; embora não apareça com
frequência
nas histórias mitológicas, era admirada por todos os deuses. Quando os gregos
fundavam cidades fora da Grécia, levavam o fogo da lareira como símbolo da
ligação com
a terra mater. Em Roma era cultuada como Vesta; suas sacerdotisas eram chamadas
vestais, e faziam voto de castidade.
Deméter - Deusa da terra fértil, dos campos e dos cereais, especialmente
do trigo. Era
uma das deusas mais antigas, associada a Géia e à sua própria mãe Réia. Seu
culto era
praticado em diversas regiões do mundo helênico, onde assumia os nomes de
Cibeles
(Frígia), Ísis (Egito) e Ceres (Roma).
Ártemis - Deusa das florestas, da caça e dos animais selvagens. Em
algumas cidades
era a deusa da fertilidade e do nascimento das crianças; também era considerada
a
divindade da luminosidade lunar, e protetora da juventude feminina.
Existiam contradições nos papéis a ela atribuídos. Ao mesmo tempo em que era a
deusa
da caça, protegia os animais, especialmente os cervos; embora fosse virgem,
virtude
que foi defendida em vários mitos, protegia os partos.
Era descrita como uma mulher alta, que se destacava das ninfas que a acompanhavam;
portava arco e flecha, e era rodeada por uma matilha. Também é representada com
cabelo preso e seios à mostra. Em Roma era venerada como Diana.
Atena - Deusa da sabedoria, indústria, justiça, guerra e artes. Era
filha somente de
Zeus, que ao sentir uma terrível dor de cabeça, pediu a Hefesto, deus do fogo e
padroeiro dos artesãos, lhe abrisse o crânio; então, dele saltou Atena, já
adulta. Atena
teria sido concebida por Métis, a antiga deusa da prudência, que em alguns
mitos foi a
primeira mulher de Zeus, porém havia uma profecia de que a criança o
destronaria;
então, Zeus devorou Métis, e teve Atena sozinho.
Na guerra, Atena associava-se ao combate individual, estratégia e justiça,
diferentemente de Ares, que tinha prazer apenas pela brutalidade. O atributo da
vitória
era em algumas cidades consagrado a Atena, em outras aparecia Nike, uma deusa
específica para a vitória, representada por uma mulher alada. Minerva era o
nome que os
romanos designaram para Atena, e Victória para Nike.
Afrodite - Deusa do amor, beleza e êxtase sexual. De acordo com
Hesíodo, nasceu
quando Urano foi castrado por Cronos, que atirou os órgãos genitais ao mar; um
turbilhão levantou-se e dele ela surgiu. Há uma outra versão em que Afrodite é
filha de
Zeus e Dione.
Afrodite era uma deusa de origem asiática, similar a Ishtar da Mesopotâmia, e a
Ashtart
sírio-palestina. Seus símbolos eram o delfim, o pombo, o cisne, a romã e a
limeira.
A presença de Afrodite causou um alvoroço no Olimpo; Zeus, temendo uma briga
entre
os deuses, por causa dos seus encantos, resolveu casá-la com Hefesto, deus do
fogo e
ferreiro dos deuses, por ele considerado o mais estável emocionalmente; também
se
conta que foi uma forma de Zeus castigá-la pela vaidade.
O casamento não deu certo; a bela, alegre e atraente deusa não se encantou pelo
feio,
coxo e encardido ferreiro, e o traiu com Ares. Eros, o garoto alado que atirava
as
flechas para que as pessoas se apaixonassem, é filho dessa união. Em Roma,
Afrodite foi
cultuada como Vênus, e Eros como Cupido.
Eros e Psiquê
Num belo dia de outono na Grécia, as pessoas deixaram de prestar culto
regular a deusa da divina beleza Afrodite. Abandonaram seu santuário para
admirar a extraordinária formosura de uma simples mortal: Psiquê (alma).
Menosprezada pelos homens, que preferiam homenagear uma beldade humana,
Afrodite teve um acesso de raiva. E para vingar-se, pede a seu filho Eros
(amor) que use suas flechas encantadas e faça Psiquê apaixonar-se pela criatura
mais desprezível do mundo.
Eros parte para cumprir sua missão. Mas a beleza de Psiquê era tão grande, que
ao vê-la, Eros distrai-se e fere-se com uma de suas próprias flechas. Vítima do
encantamento em que enredava deuses e mortais, o deus feriu-se de amor.
Apaixonado, nada disse à sua mãe; apenas limita-se a convencê-la de que
finalmente estava livre da rival. Ao mesmo tempo que oculta seu sentimento,
torna Psiquê inatingível aos mortais terrenos.
Embora todos os homens a admirem, nenhum por ela se apaixona, e apesar de
infinitamente menos belas, suas irmãs logo se casam com reis. Psiquê, amada por
Eros sem que o saiba, a ninguém ama. E porque é uma beleza humana cobiçada por
um deus, permanece só. A solidão de Psiquê preocupou tanto seus pais, que foram
então consultar o oráculo de Apolo, afim de buscar auxílio. Entretanto Eros já
havia tornado Apolo seu aliado em sua conquista amorosa.
Assim para ajudar Eros, Apolo ordenou aos pais da princesa que a vestisse em
trajes nupciais, que do alto de determinada colina uma serpente alada e
medonha, mais forte que os próprios deuses, iria torná-la mulher. Embora a
revelação do oráculo fosse terrível, o rei e a rainha nada mais poderiam fazer
senão cumprir o que fora determinado.
Deixaram-na sozinha na colina, aguardando corajosamente seu triste destino. Mas
a espera é tão longa que Psiquê logo adormece. E até ela chega a suave brisa de
Zéfiro, que a transporta para uma planície coberta de flores. Perto correm as
águas claras de um regato e mais adiante ergue-se um magnífico castelo. Ao despertar,
Psiquê ouve uma voz que a convida a entrar no castelo, banhar-se e depois
jantar.
No interior do castelo, não encontra ninguém, mas sente-se como se estivesse
sendo observada. E no jantar doce música a envolve, mas continua só. No íntimo,
porém, pressente que, à noite, chegará o esposo que lhe fora prometido, a
terrível serpente alada.
Realmente, ao anoitecer, chega até ela Eros, protegido pela escuridão. Psiquê
não pode ver-lhe o rosto; mas não sente medo, porque seu temor é banido pelas
palavras apaixonadas e pelas ardentes carícias do deus.
Durante algum tempo Psiquê entregou-se ao amante velado e mesmo sem ver sua
face , dedicava-lhe intenso amor. Numa de sua visitas noturnas, Eros lhe faz
uma advertência: que se precavesse contra uma desgraça que lhe poderia advir
por intermédio das irmãs, que pranteavam-na onde fora deixada e do mesmo modo
acrescentou, para evitar a desgraça, não deveria ela jamais tentar ver o rosto
do amado.
A princesa embora prometesse ambas as coisas, deixou-se arrastar pela tristeza
e pela saudade. E tanto chorou e pediu, que Eros consentiu na visita das
jovens. Todavia, esclareceu: reaproximando-se delas, Psiquê estava reatando
laços terrenos e constituindo seu próprio sofrimento. Depois, mais uma vez,
fê-la prometer o que era de tudo o mais importante: jamais tentaria ver-lhe o
rosto.
No dia seguinte, Zéfiro levou as irmãs de Psiquê ao palácio. De início foram só
as alegrias do reencontro. Às perguntas das jovens sobre o marido, porém, a
princesa respondeu com evasivas. Aos poucos, o sentimento das irmãs em relação
a Psiquê foi mudando. Antes choravam supondo-a infeliz; depois, partiram
invejosas de sua felicidade. E resolveram vingar-se. Retornando ao castelo por
permissão de Eros, dessa vez movidas pela inveja, elas ardilosamente fizeram
com que a desconfiança surgisse no coração de Psiquê.
Percebendo por suas contradições que ela não sabia realmente quem era seu
marido, como então poderia estar segura de que não era o monstro descrito pelo
oráculo de Apolo? E, se era realmente belo o jovem, por que se ocultava nas
sombras da noite? Invadida pela dúvida e temor, Psiquê acabou aceitando o
conselho maldosamente planejado pelas irmãs: deveria preparar uma lâmpada e uma
faca afiada: com a primeira, explicaram as moças, poderia ver o rosto do
esposo; com a segunda, matá-lo se fosse o monstro.
À noite, retorna Eros, ardente e apaixonado como sempre. Enquanto se entrega ao
amor, Psiquê esquece o próprio medo e a dúvida, mas depois, quando Eros
adormece, a incerteza volta a invadir-lhe o coração. Silenciosa, apanha a
lâmpada e ilumina o rosto do esposo. E detém-se deslumbrada: não é um monstro,
pelo contrário, é o mais belo ser que jamais poderia ter existido. Arrependida
e em êxtase, derruba sem querer uma gota do óleo quente da lâmpada no ombro do
amado. Ele desperta, sobressaltado, e percebe o acontecido. Com profunda
tristeza, Eros vai embora. E tentando alcançá-lo Psiquê apenas ouve-lhe ao
longe na escuridão: "O amor não pode viver com desconfiança."
Eros volta para junto da mãe, pedindo-lhe que cure seu ferimento no ombro. Mas
ao contar o que ocorreu, Afrodite percebe que foi enganada e passa a alimentar
apenas um pensamento: encontrar a rival e vingar-se.
Abandonada e em desespero, Psiquê põe-se a percorrer o mundo em busca do amor perdido
e de templo em templo pede ajuda dos deuses. Sem conseguir auxílio, Psiquê vai
à presença da própria Afrodite, na esperança de encontrar com ela seu amado
Eros. Mas junto à deusa, encontrou apenas zombaria, e a imposição de uma série
de provas humilhantes.
A primeira tarefa consistia em separar, até a noite, imensa quantidade de grãos
miúdos de diversas espécies. Parecia ser impossível cumpri-la no prazo
estabelecido. Mas tão grande era o sofrimento de Psiquê, e tão angustiado seu
pranto, que despertou a compaixão de formigas que passavam no local. Elas
rapidamente separaram os grãos por espécies, juntando-os em vários montículos.
A primeira tarefa estava cumprida, o que deixou Afrodite ainda mais irritada.
Ordenou-lhe que dormisse doravante no chão, alimentando-se apenas de alguns
pães secos. Esperava assim acabar com a beleza que lhe arruinara os cultos.
A segunda tarefa veio no dia seguinte: deveria ir a um vale cortado por um
regato e lá tosquiar os terríveis carneiros do sol que pastavam. A lã desses
carneiros era de ouro, e um pouco dela a caprichosa Afrodite desejava para si.
Quando já estava exausta de tanto andar e a ponto de suicidar-se, nesse
instante de hesitação entre a procura e a morte, Psiquê ouviu uma voz vinda dos
caniços à beira do regato: "Não era necessário enfrentar os terríveis
carneiros para tentar tosquiá-los, disse a voz; bastava esperar que eles
saíssem das touceiras de arbustos espinhosos, quando fosse beber água: nos
espinhos ficariam presos alguns fios de lã que poderiam ser facilmente
apanhados."
Não satisfeita por mais uma tarefa cumprida, Afrodite incumbiu-a de uma
terceira tarefa e ainda mais complicada: teria de subir a cascata que provinha
da nascente do rio Estige e trazer à deusa um frasco contendo um pouco daquela
água escura. As pedras que davam acesso à cascata eram íngremes e
escorregadias, e a queda da água era extremamente violenta. Impossível
satisfazer a exigência de Afrodite. Só se pudesse voar Psiquê realizaria a
tarefa. Estava já disposta a desistir, quando surgiu uma águia, que lhe tirou o
frasco da mão, voou até a fonte e apanhou uma porção do líquido negro.
A água do Estige, porém, não saciou em Afrodite a sede de vingança. Psiquê
deveria ainda executar uma Quarta e difícil tarefa: ir ao Hades, persuadir Perséfone
a colocar numa caixa um pouco de sua beleza. Como pretexto, diria à rainha dos
Infernos que Afrodite precisava dessa beleza para recuperar-se das longas
vigílias à cabeceira do filho doente.
Psiquê partiu, procurando o caminho dos Infernos. Já havia andado muito e
sentia-se perdida, quando uma torre , apiedada de sua aflição, ofereceu-se para
ajudá-la. Minuciosamente descreveu-lhe todo o itinerário que levava ao reino de
Perséfone, mas lhe fez um alerta: "você encontrará pessoas patéticas que
lhe pedirão ajuda, e por três vezes terá que escurecer seu coração à compaixão,
ignorar seus apelos e continuar. Se não o fizer, permanecerá para sempre no
mundo das trevas.
Psiquê fez tudo o que lhe indicou a torre, e assim conseguiu chegar à presença
de Perséfone. Solícita, a rainha dos mortos atendeu ao pedido da jovem e
entregou-lhe a caixa solicitada por Afrodite.
Sendo instruída quanto ao caminho de volta, o retorno ficara mais fácil para
Psiquê, mas estava longe ainda a hora de recuperar o amor. A próxima prova por
que passaria Psiquê não lhe foi imposta pelo ciúme de Afrodite, mas por sua
própria vaidade. Temendo que tantas atribulações a tivessem tornado feia, não
queria perder o amor de Eros. A tentação foi grande. E Psiquê não resistiu: no
meio do caminho, abriu a caixa. Para sua surpresa nada encontrou. Mas tamanho
sono a tomou, que ali mesmo caiu, adormecida, como se estivesse banhada pela
beleza da morte.
Enquanto dormia, Eros, curado de sua ferida, abandonava a mansão materna em
busca da amada. Vagou por toda a parte, até que finalmente a encontrou deitada
ao relento.
Aprisionou o sono que pesadamente lhe cerrava os olhos e recolocou-o na caixa.
Em seguida despertou-a docilmente com a ponta de uma de suas flechas. Com
grande meiguice chamou sua atenção pela curiosidade que a fizera abrir a caixa.
Depois mandou-a entregar a encomenda a Afrodite, como se nada tivesse
acontecido.
Terminadas as provações de Psiquê, que recuperara o amor. Para que nada mais
acontecesse à amada, Eros dirigiu-se ao Olimpo para pedir a Zeus que o unisse
em casamento à bela jovem. Mas para atendê-lo era necessário que a princesa
recebesse o dom da imortalidade. Hermes foi buscar Psiquê e levou-a à presença
dos deuses. O próprio Zeus deu-lhe de beber a ambrosia, que lhe conferiu a
imortalidade. Depois declarou-a oficialmente esposa de Eros.
Impotente tornara-se o ciúme de Afrodite. Psiquê agora era imortal e estava
unida para sempre a Eros. Nada mais podia separá-los. Dessa união nasceu
Volúpia.
Cila
Glauco; um deus marinho de barba verde-acinzentada, largos ombros, braços
azulados, pernas curvadas com nadadeiras na extremidade; apaixona-se pela bela
Cila, que apavorada pela súbita presença de Glauco, põe-se a fugir, pelas
águas, pelas rochas, pelas cavernas submarinas.
Mas o amor do pobre deus era definitivo. Desesperado, ele se lança à
perseguição da ninfa, implorando, com gritos e prantos convulsos, que lhe
conceda um pouco de atenção.
Impassível às súplicas, Cila continua sua fuga. Tem por objetivo esconder-se
num lugar tão secreto e inacessível que jamais o feio Glauco conseguiria
encontrá-la.
Depois de inúteis buscas, o deus é obrigado a reconhecer sua derrota. Apenas
algum poder superior lhe facultaria conquistar o afeto da formosa ninfa. Um
poder como o de Circe , a feiticeira.
Abatido, torturado, Glauco dirige-se para a ilha de Ea, onde morava a maga, e,
entre suspiros e lágrimas, roga-lhe que o ajude a conquistar a tão amada ninfa.
Circe promete atendê-lo. Entretanto, acaba enamorando-se do feio deus. Não lhe
importa o aspecto horrendo de Glauco: sua riqueza de sentimentos facina-a.
A mesma dolorosa peregrinação reinicia-se. Ao encalço do amado, Circe põe-se a
percorrer os mares, sem descanso.
Quando por fim seus encantos de mulher se revelam insuficientes, ela recorre a
seus poderes de feiticeira. À sua habilidade de transformar pessoas em
monstros.
E decide fazer de Cila uma criatura tão horrenda e repulsiva que todo o amor de
Glauco haveria de mudar-se em aversão.
Sem ser vista, a maga derrama veneno nas águas de uma fonte onde a ninfa
costumava banhar-se. Depois retorna para Ea e, ansiosa, aguarda pelos
resultados.
Cila mergulha na água enfeitiçada. O belo corpo esguio começa lentamente a
transformar-se. Monstros horrendos surgem à sua volta, com ensurdecedor
alarido. A ninfa, amedrontada, procura fugir-lhes. Mas eles estão sempre a seu
lado. Então Cila descobre: são parte de si mesma, nascem de seu corpo.
Desesperada corre ao encontro de Glauco e em seus braços chora longamente. Ele
também lamenta a beleza perdida, mas recusa-se a permanecer com a antiga ninfa.
O grande amor não existe mais.
Cila retira-se para longe. Vai viver no estreito da Sicília, aterrorizando os
mortais que antes a cortejavam, deslumbrados com sua extraordinária beleza.
Na ilha de Ea, Circe inutilmente espera o retorno de Glauco. Revoltado com sua
traição e crueldade, o pobre deus jamais quis visitá-la. E passou toda a
existência cultivando a lembrança de uma ninfa bela e doce, que um dia se
perdeu nos feitiços do ciúme.
Hércules
Ouviu-se um enorme alarido, gritos altíssimos, um veloz tropel de passos
apressados, baques de portas batidas, tudo quebrando subitamente o sossego e o
silêncio que reinavam no Palácio Real de Tebas. Rostos ansiosos surgiram às
janelas e aias acorriam, aflitas, com os olhos esbugalhados de pavor.
- Que aconteceu ? Os inimigos penetraraam na cidade? O Paço pegou fogo?
O tumulto prorrompera justamente nos aposentos da rainha Alcmena, onde dormia o
pequeno Hércules, o filho que nascera poucos dias antes. Célere, a notícia
correu por toda a Corte. A ama, ao entrar no quarto do menino, para
amamentá-lo, encontra-o sentado no berço, com punhos fechados em redor do
pescoço de duas cobras enormes, que ele estrangulara silenciosamente. Que
aconteceria com aquele menino, quando crescesse, pois já era capaz de tais
proezas ? Um herói, certamente, e um herói bem temível, se sua força crescesse
na proporção da idade. Realmente, depois dessa sua formidável estréia, Hércules
continuou a assombrar amigos e preceptores: comia por vinte homens, bebia feito
um odre, arrancava árvores somente para brincar, lutava vitoriosamente com
touros e leões. O sábio centauro Quiron ensinou-lhe a arte da caça e a manejar
a lança e o arco; Lino, um velho filósofo, tornava-o ao mesmo tempo hábil na
retórica, na poesia e na música. Todavia, quanto mais Quiron se orgulhava de
seu aluno, tanto mais Lino o considerava fraco e apático, de maneira que
censuras e punições choviam sobre o discípulo. O rapaz, já dera mostras bem
cedo, era de temperamento impulsivo. Aconteceu, então, que, um dia, após a
milésima repreensão do mestre, ele sentiu o sangue ferve-lhe nas veias, apanhou
a cítara e deu com ela na cabeça do desventurado filósofo. Sob o tremendo
golpe, Lino tombou ao chão, sem um gemido, morto.
A mágoa de Hércules foi imensa. Não sabendo como expiar seu crime involuntário,
foi a Delfos, consultar o oráculo de Apolo. Este, porém, foi explícito.
Hércules devia ir servir seu irmão Euristeu, rei de Micenas, e obedecer-lhe
cegamente. Euristeu era, ao contrário de Hércules, débil, medroso, maligno.
Quando se encontrou diante do gigantesco irmão, tremeu de pavor, supondo-o um
provável concorrente ao trono.
Resolveu, portanto, desembaraçar-se dele, confiando-lhe tarefas tão difíceis
que exporiam a morte certa. Tais tarefas ficaram sendo denominadas "Os 12
Trabalhos de Hércules". A primeira coisa que lhe ordenou foi trazer-lhe a
pele do "Leão de Neméia", uma fera que assolava as montanhas da
Argólida. Hércules ouviu as ordens e retirou-se. Dois dias depois, reapareceu,
sujo de sangue e poeira, e atirou aos pés do rei a enorme juba dourada. Mas
Euristeu já planejara outra tarefa: matar a Hidra de Lerna, um monstro de sete
cabeças, que vomitava veneno. Hércules descobriu-o nos pântanos em que vivia,
conseguiu decepar-lhe as cabeças, que tornavam a crescer assim que eram
cortadas e abateu-o definitivamente. Antes de retirar-se, porém, embebeu suas
flechas no sangue da Hidra, tornando-as assim, venenosíssimas. Regressando a
Micenas, o herói precisou partir quase logo para o país das Amazonas, as
terríveis mulheres guerreiras. Competia-lhe arrancar o cinto de ouro da rainha
Hipólita e entregá-lo a Euristeu. Desta vez, a empresa foi muito mais dura,
porque a resistência oposta pelas Amazonas foi tenacíssima, mas, finalmente, a
clava de Hércules derrubou todos os obstáculos. Depois deste trabalho, o filho
de Alcmena teve que capturar o gigantesco javali Erimanto e, a seguir, matar um
touro selvagem, que devastava as montanhas de Creta, e, também alcançar, na
corrida, a "corça de pés de ouro", Cerinítica; liquidar com os
pássaros do lago Estinfale, de bicos de aço, e apoderar-se dos bois do gigante
Gerionte. Euristeu já estava perdendo a esperança de desembaraçar-se do
incômodo servidor, mas impôs-lhe, ainda, a obrigação de limpar as estrebarias
de Áugias, rei da Élida que estavam transbordando de estrume. Hércules desviou
o curso do rio Alfeu, que corria nas proximidades, fazendo com que as águas
levassem consigo todo o esterco. O rei ordenou-lhe, outrossim, a captura das
éguas antropófagas de Diómedes, rei da Trácia, e Hércules conseguiu-o,
dando-lhe, antes, como alimento o próprio Diómedes, e levando-as à presença do
irmão, completamente domadas. Em seguida, Euristeu mandou-o ao Jardim das
Hespérides, em busca dos pomos de ouro que ali cresciam. Nessa tarefa, Hércules
somente triunfou após enganar o gigante Atlas, que desejava ludibriá-lo.
Finalmente, farto de vê-lo regressar sempre vitorioso, Euristeu impôs ao herói,
como último trabalho, que lhe trouxesse Cérbero, o medonho cão de três cabeças,
que guardava a entrada do Inferno. Algumas semanas depois, o filho de Alcmena
reapareceu em Micenas, arrastando consigo o monstro, preso à corrente e uivando
de raiva. O prazo imposto pelo oráculo estava terminado. Além desses "12
trabalhos", Hércules praticou outras façanhas. Estrangulou, nos braços, o
gigante Anteu, filho da Terra; exterminou o bandido Caco: livrou Hesíone do
monstro que a ia devorar; separou os montes Calpe e Abila (chamados, depois,
"colunas de Hércules"); libertou Prometeu, acorrentado no Cáucaso;
venceu o rio Aquelos, além de outras aventuras.
Já senhor de si, Hércules passou a correr mundo, punindo os prepotentes e os
malvados. Suas numerosas proezas lhe haviam granjeado uma enorme fama, tanto na
terra como no Olimpo, mansão dos Deuses. Quando resolveu casar-se, escolheu a
mais bela e a mais bondosa das princesas: Dejanira, filha de Eneu, rei de
Calidon. Celebradas as núpcias, os noivos seguiram para Tebas. Após alguns dias
de viagem, pararam junto às margens do rio Eveno, que transbordara devido às
fortes chuvas recentes, e pediram o auxílio do centauro Nesso, que ali
desempenhava as funções de atravessador. Em primeiro lugar, passou Dejanira,
que se agarrou às largas costas do centauro, mas este, improvisadamente
apaixonado por ela, ao chegar à outra margem, sacudiu a água de cima de si e
partiu a galope. Mas Hércules velava: seu arco funcionou fulmíneo, com um
tremendo silvo, e o raptor tombou num lago de sangue, varado por uma flecha.
Antes de morrer, porém, Nesso murmurou a Dejanira: "Banha tua túnica em
meu sangue, princesa; e se algum dia duvidares da fidelidade de teu marido,
faze com que ele a vista, pois te amará novamente." Dejanira, sem
refletir, obedeceu, e escondeu a túnica embebida de sangue do moribundo centauro.
Passaram-se muitos anos. Um dia, a profecia de Nesso se concretizou e Dejanira,
louca de ciúmes, ofereceu ao marido a túnica purpúrea, esperando obter o efeito
desejado. Mas, assim que a vestiu, Hércules sentiu que a túnica o queimava qual
uma fogueira: o veneno da Hidra de Lerna, que passara para o sangue do
centauro, abrasava-lhe a pele. Gritando de dor, sentindo a proximidade da
morte, o filho de Alcmena erigiu uma imensa pilha de lenha, subiu ao alto dela
e, dizendo adeus à esposa desesperada e aos amigos, expirou, após ele mesmo ter
ateado fogo à pira. Já as primeiras línguas de chamas lambiam o corpo exânime
do herói e um irresistível fulgor cegou os olhos dos presentes. Era a alma de
Hércules que ascendia ao céu, rumo às glórias do Olimpo, para a companhia dos
deuses.
Pandora
Prometeu criou o homem, dando-lhe forma e inteligência. A única coisa que diferenciava o homem dos deuses era que eles não possuiam o fogo e por isso Zeus o escondeu. Mas Prometeu quebra um pequeno galho seco de uma árvore, voa rapidamente até o céu e o acende no calor o Carro do Sol. Agora que os homens conhecem o segredo do precioso elemento, pouco os difere dos deuses. Os deuses estão em pânico. Discutem como tornar os homens novamente submissos e humildes. Zeus inventa a forma mais rápida de destruir o paraíso dos homens: a mulher. Chama Hefestos, o habilidoso deus artesão, e pede-lhe que confeccione uma imagem feminina em bronze. Ela devia assemelhar-se ao homem, mas em alguma coisa diferir dele, de tal forma que o encantasse e comovesse, atrasando-lhe o trabalho e transtornando-lhe a alma. E cada deus oferece alguma coisa àquela criatura, que já nasce para colocar em desconserto a vida dos mortais. Atena entrega à mulher um lindo vestido bordado, que lhe cobre as harmoniosas formas. Depois coloca-lhe um véu sobre o rosto sereno e enfeita-lhe a delicada cabeça com uma guirlanda de flores coloridas. Quando a virgem está inteiramente vestida, Afrodite oferece-lhe a beleza infinita e os encantos que seriam fatais aos indefesos homens. Hermes presenteia-lhe com a língua. Apolo confere-lhe suavíssima voz. Enfim a bela Pandora está pronta para cumprir sua missão. Mas antes de enviá-la em sua caminhada, Zeus entrega-lhe uma caixa coberta com uma tampa. Nela estão contidas as misérias destinadas a assolar os mortais: reumatismo, gota, dores para enfraquecer o corpo humano. Quando Pandora chega ao mundo, encontra Epimeteu, irmão de Prometeu. Tão logo a vê, ele se encanta, e comovido recebe de suas finas mãos a precisosa caixa que ela lhe oferta. É um presente de Zeus, declara Pandora. E nem por um instante Epimeteu suspeita de que todo o sofrimento humano dali emergiria. Ainda desorientado pelo deslumbramento que lhe causa a bela figura, esquece o juramento feito a seu irmão Prometeu de nunca aceitar um presente de Zeus. Agradecido abre a tampa da caixa fatal. Imediatamente, saltam de dentro dela todas as desgraças do mundo. Entretanto no fundo do recipiente maldito permanesse um tesouro. Um sentimento precioso, que poderia estragar toda a vingança dos deuses e destruir-lhes definitivamente qualquer praga: a esperança. Zeus não quer que os homens esperem mais nada. A um só gesto do deus, Pandora fecha a caixa, deixando a esperança calada no fundo, escondida para sempre. E o homem perde seu paraíso.
Teatro Grego
Representações cênicas na Grécia antiga e clássica. Era
apresentado num espaço circular que continha o
altar de Dionísio, chamado de orquestra, onde o coro cantava e dançava e os
atores representavam.
Os palcos (skene) eram no início muito simples; o público sentava-se em
degraus de pedra em volta da orquestra. As apresentações tinham lugar durante o
dia, ao ar livre. Uma notável tradição teatral cresceu em Atenas, onde tanto
comédias quanto tragédias eram freqüentemente representadas nos ritos
religiosos do festival de Dionísio. Os poetas apresentavam três tragédias
(geralmente sobre temas diferentes) e uma peça satírica, mais leve.
Ofereciam-se prêmios ao melhor poeta e o vitorioso recebia uma coroa de hera.
Os relatos iniciais são obscuros, mas conta-se que o poeta ático Téspis (c.534
a.C.) deu o passo decisivo ao colocar em cena um ator cujo papel era conduzir o
diálogo com o coro. O ateniense Ésquilo teria introduzido o segundo ator e
Sófocles, o terceiro. Na comédia 'antiga' (por volta do século 5 a.C.), que só
pode ser analisada através da obra de Aristófanes, constituída por paródias
políticas, literárias e filosóficas intercaladas com sátiras pessoais, o coro
volta a ter um papel importante. Depois do período de transição da comédia
(c.400-320 a.C.) chega-se à comédia 'nova', que tem início no final do século 4
a.C., já então com características mais definidas graças à peça de Menandro
(c.342-290 a.C.) O Homem Mal-Humorado, descoberta no século 20.

Teatro de Dionísio
theatron: é o auditório propriamente dito
orchestra: local onde o coro cantava e dançava
eisodos: os dois acessos laterais para o coro entrar e
sair de cena
skene: palco onde os atores atuavam
mechané: grua ou guindaste para elevar atores

O teatro de Dionísio hoje

O Núcleo da Tragédia
Os elementos básicos da tragédia eram:
1) Coro: composto por 12 ou 15 elementos, os coreutas. Após entrarem na
orquestra, a área de dança no teatro, cantam e dançam nesse espaço. Estes
dançarinos-cantores eram em geral homens jovens que estavam a ponto de entrar
para o serviço militar após alguns anos de treinamento. Não eram portanto
profissionais do teatro e daí a importância do tragediógrafo também como
ensaiador do coro, muito embora os atenienses desde crianças fossem ensinados a
cantar e dançar.
Cena representando uma parte do coro 
O coro trágico quase não participa da ação, limintando-se apenas a comentá-la e
expressando compaixão ou outros sentimentos pelos personagens. Algumas vezes
também destaca o sentido religioso da ação e a intercá-la com preces. Por outro
lado, simboliza o grupo - cidade ou exército - cuja sorte está ligada aos
personagens.
O movimentos do coro possivelmente eram usados também artisticamente pelo
tragediógrafo, que era ao mesmo tempo coreógrafo, para mostrar ao público as
flutuações de relações de poder e as interações entre os caracteres.
De todos os elementos do teatro grego, o coro é sem dúvida o mais estranho para
o público moderno. Foi na verdade o núcleo inicial do teatro grego, embora
percebamos que sua função se enfraquece aos poucos durante todo o séc. V a.C. e
seguinte, na exata medida em que os atores no palco tornam-se cada vez mais o
centro da ação. Na evolução do teatro ocidental se transfomará posteriormente
em mero interlúdio musical entre os atos e finalmente desaparecerá, sendo
ressuscitado modernamente pela ópera e sua descendente, a comédia
musical.
2) Corifeu: é um membro destacado do coro que pode cantar sozinho. Em
geral tem 3 tipos de funções principais:
a) exortar o coro à ação, a começar o canto;
b) antecipar, ou resumir, as palavras do coro;
c) representar o coro, dialogando com os atores.
3) Atores: representam deuses ou heróis. São em número muito reduzido.
Na verdade, pode-se dizer que o teatro surge quando Téspis cria a figura do
ator e ele passa a dialogar com o coro. Seu número sobe para dois e em seguida
três, mantendo-se nesse patamar, mas podemos observar que a estruturação dos
diálogos nas tragédias tende a se concentrar em dois atores apenas, sendo raras
as cenas que apresentam um verdadeiro diálogo a três. É no diálogo entre atores
que se concentra quase a totalidade da ação dramática.
Os três atores tinham nomes que revelam uma relação hierárquica:
protagonista: primeiro ator
deuteragonista: segundo ator
tritagonista: terceiro ator
Uma questão interessante é o fato de existirem vários personagens infantis nas
tragédias sobreviventes. Na verdade não sabemos com certeza se esses
personagens eram interpretados por adultos ou crianças, mas uma pesquisadora,
Emma Griffiths, da Universidade de Bristol, aponta que os movimentos desses
personagens em geral são orientados por deixas de outros atores, exatamente
como se o autor estivesse procurando meios para evitar as dificuldades
inerentes ao se trabalhar com crianças.
Estrutura Formal da Tragédia grega
Passaremos agora a examinar a tragédia grega do ponto de vista da sua forma,
quer na sua divisão em partes principais, que na ocorrência de cenas típicas,
quer na sua estrutura métrica.
Antes de procedermos à exposição da tragédia enquanto uma estrutura formal,
seria bom ressaltar que essa estrutura surge das peças que chegaram até nós e
portanto a análise se ressente da maioria das tragédias que foram encenadas de
fato em Atenas e das quais temos apenas informações indiretas. Portanto é
extremamente problemática a proposição de uma estrutura geral que desse conta
de todos os fenômenos observáveis. Exatamente por esse motivo é que há
discordâncias entre os especialistas em como analisar formalmente tragédias
concretas.
Por outro lado, essa é uma estrutura puramente abstrata. Nem sempre todos os
seus elementos serão encontráveis em todas as tragédias conhecidas. Trata-se
mais de um repertório de recursos formais que ou já estavam a disposição dos
principais autores trágicos ou eles mesmos os criaram. É extremamente
importante não esquecermos o aspecto criativo e inovador dos autores trágicos.
Diferentemente da idéia que uma leitura equivocada da Poética de Aristóteles
disseminou desde o Renascimento, não havia uma norma que não podia ser
quebrada. O compromisso dos tragediógrafos, como dissemos antes, era vencer a
competição agradando seu público e para isso usavam tanto o recurso da tradição
quanto o da inovação.
I - As Partes Principais da Tragédia:
1. Prólogo:
É a primeira cena antes da entrada do coro ou antes da primeira intervenção do
coro. Trata-se de uma narrativa preliminar que visava introduzir o tema.
Pode estar ou não presente. Os dramas antigos (séc. VI a.C.) e alguns de
Ésquilo começavam sem prólogo. ex: Os Persas, As Suplicantes. No entanto,
depois d'As Suplicantes não temos nenhum outro exemplo de introdução puramente
musical nas
tragédias, como deveria ser em seu princípio.
Tipos de Prólogo:
- com apenas um ator, na forma de solillóquio ou monólogo: ex.: Agamêmnon, onde
o solilóquio do vigia, que durante a noite espera o sinal da vitória em Tróia,
nos antecipa tanto as circunstâncias da como o próprio clima ansioso e
opressivo da tragédia.
- com mais de um ator: cena aberta com diálogo e ação. ex.: Prometeu
Acorrentado, onde a peça abre pelo encadeamento de Prometeu por Hefesto, Poder
e Violêcia e onde situa-se a peça espacialmente e nas suas circunstâncias.
Também em Medéia ocorre esse tipo de prólogo com mais ação, no caso, através do
diálogo entre a ama e o preceptor.
2. Párodo
Inicialmente era a entrada do coro cantando e dançando na orquestra, o espaço
cênico em frente e abaixo do palco, como vimos. ex.: As Coéforas. Pode ser
também a primeira ode do coro, pois este já estaria presente, em silêncio,
desde o início da peça, mas é raro. ex.: As Eumênides
Pode ser executado:
- por todo o coro, o caso mais freqüentte; ex.: Agamêmnon
- por dois semi-coros em sucessão; ex: Suplicantes de Eurípides,
- pelos membros individuais do coro em falas rápidas, ex.: Eumênides.
Em lugar de um párodo cantado exclusivamente pelo coro, podemos encontrar em
vários dramas um "diálogo lírico", isto é, musical, entre coro e
atores. Por exemplo, no Prometeu Acorrentado de Ésquilo. Em outros autores
também observamos esta escolha:
Sófocles: Electra, Filoctetes e Édipo em Colono,
Eurípides: Reso, Medéia, Troianas, Héracles, Helena, Electra, e Ifigênia
emTauris.
Mais a frente veremos com mais detalhes o que era o "diálogo
lírico".
Depois de sua entrada, o coro, em geral, fica presente durante toda a peça. São
poucos os casos de saída de cena. Apenas nas Eumênides, Ájax, Helena, Alceste e
Reso. O canto de retorno a orquestra é chamado epipárodo.
3. Episódios ou Partes
São cenas no palco, entre os cantos corais, sejam estásimos (ver abaixo) ou
diálogos líricos, em que participa no mínimo um ator.
Podiam variar muito de tamanho e importância. Além dos atores podem participar
figurantes também. O figurante distingue-se do ator por não possuir falas.
Podem ocorrer diálogos de tipo ator-corifeu ou ator-ator em que predominam as
narrativas. Os solilóquios, diferentemente do teatro posterior, são pouco
freqüentes, pois o coro em geral está sempre presente depois do párodo. Um
exemplo de solilóquio durante um episódio encontramos no Ájax, de
Sófocles.
Em geral as falas dos atores durante os episódios são recitadas, não
cantadas.
Em certos momentos, porém, as personagens podem ser levadas por suas paixões a
uma performance musical, cantada. As partes cantadas nas tragédias podem ser
percebidas pelas mudanças da métrica do verso em grego, com veremos mais a
frente. Em traduções em geral são imperceptíveis.
A performance musical dos atores podia se dar de duas maneiras:
1.ª) com o coro, esses são os chamados "diálogos líricos ou
musicais", em cenas de profunda emoção.
O "diálogo lírico" pode apresentar uma grande variedade de
estrutura.
quanto ao número de atores:
- 1 ator + coro: são em geral os mais aantigos, em especial em Ésquilo, por
exemplo no 1.º estásimo d'Os Persas, onde ocorre
um diálogo lírico entre o mensageiro e o coro;
- 2 ou 3 atores + coro. ex.: Coéforas, Ájax.
quanto a extensão da parte cantada:
- diálogo lírico-epirremático: o coro ccanta, mas o ator recita. É o mais comum
em Ésquilo;
- diálogo lírico propriamente dito: corro e atores cantam. É o mais comum em
Sófocles e Eurípides.
2ª) sozinhos ("stage lirics"), na forma de solos
("monodias"), duetos, etc.
Com a diminuição do papel do coro aumentou seu espaço no drama, havendo uma
transferência do interesse da "orquestra" para o palco.
quanto ao n.º de atores:
- 1 ator : "monodias" (= soloos). É uma das mais salientes
características nas cenas de violenta paixão de Eurípides;
- 2 ou mais atores: diálogos musicais eentre 2 ("duetos") ou 3 atores.
Também muito freqüentes em Eurípides.
quanto a extensão da parte cantada:
- completamente musicais;
- parcialmente musicais, um ator canta e o outro responde recitando.
O coro pode também fazer uma intervenção musical isolada dentro de um episódio,
mas não temos certeza se o coro inteiro cantava ou apenas uma parte dele. ex.:
Prometeu Acorrentado, 4º episódio. Nestes casos a extensão do coro é pequena
dentro do episódio.
O número dos episódios não era fixo, variava de 4 (ex.: Persas) a 7 (ex.: Édipo
em Colono), mas frequentemente eram 5.
4. Estásimos:
Eram os cantos e danças do coro na "orquestra" que separam os
episódios, marcando pausas na ação. Seu número é variável, de 2 a 5, em geral.
A "dança" podia se restringir a uma gesticulação enfática e era de
caráter grave e trágico.
Às vezes o coro podia apresentar um canto e dança mais vivaz, o hipôrquema, em
geral colocado antes da cena de catástrofe (ver abaixo), para
intensificá-la.
Em lugar do estásimo cantado exclusivamente pelo coro poderiam ocorrer
"diálogos líricos" com atores, como definidos acima no caso do
párodo. No final de um episódio é muito comum a saída de atores para a skene,
de forma a trocar de roupas e máscaras durante o estásimo, aproveitando esta
pausa na ação.
Êxodo:
Inicialmente, como indica o seu nome, era simplesmente a saída do coro cantando
e dançando ao final da peça, como por exemplo n´As Suplicantes e n´As
Eumênides. Posteriormente, com a diminuição gradual do papel do coro, passou a
ser a última cena depois do último estásimo e que termina o drama. ex.:
Agamêmnon.
Esta diminuição do papel do coro no êxodo pode ser de 2 formas: em primeiro
lugar podia terminar o drama em um "diálogo lírico" entre coro e
atores (ex.: Persas), ou em alguns versos finais do corifeu.
Poderia haver nesta última cena uma fala final de um deus que seria o epílogo,
mais comum em Eurípides.
Assim teríamos a seguinte arquitetura geral, mais comum, da tragédias gregas
principalmente no séc. V a.C.:
PRÓLOGO (que faltava nas tragédias mais antigas)
PÁRODO
1º EPISÓDIO
1º ESTÁSIMO
2º EPISÓDIO
2º ESTÁSIMO
3º EPISÓDIO
3º ESTÁSIMO
4º EPISÓDIO
4º ESTÁSIMO
5º EPISÓDIO
ÊXODO
As Cenas Típicas na Tragédia:
Por sua recorrência, algumas cenas se destacam nas tragédias gregas e são tão
típicas do gênero quanto o é uma cena de perseguição em um filme de ação. São
elas:
Catástrofes: cenas de violência, em geral oculta dos olhos da platéia e
narrada posteriormente por um ator, como Os Persas, que narra a destruição da
expedição contra os gregos. Representa a reviravolta para pior no destino de
uma personagem. Na peça Agamêmnon, por exemplo, o seu assassinato por
Clitemnestra. Em Édipo, a cena final, onde o protagonista aparece em cena com
os olhos perfurados e sangrando.
Cenas patéticas: cenas de explicitação de sofrimento, dor, em cena. Por
exemplo, as cenas em que Electra dá vazão a sua dor pela morte do pai e pela
situação humilhante a que a obriga a própria mãe.
agón ou cenas de enfrentamento: cenas onde, por ações ou por palavras
entre personagens, se explicita o conflito trágico no palco. Exemplos seriam o
diálogo entre Clitemnestra e Orestes antes da cena de catástrofe, onde
Clitemnestra é morta pelo
próprio filho n'As Coéforas, ou em Édipo Rei, na cena que Édipo discute
violentamente com o adivinho Tirésias anagnórisis ou cenas de reconhecimento: é
a passagem da ignorância para o conhecimento. Uma personagem descobre-se
parente, amigo ou inimigo de outro. Pode ser também a descoberta de algo que se
fez ou não. O exemplo clássico de cena de reconhecimento é a descoberta de
Édipo como assassino do pai e esposo da mãe em Édipo-Rei. O reconhecimento em
si pode se dar por várias formas, uma muito usada é a através de sinais
exteriores, como quando Electra reconhece seu irmão
Orestes por uma roupa que usa.Observe-se que não se trata de uma cena em que o
público toma conhecimento de algo. É a personagem que toma consciência de algo,
que não é trivial, mas significativo para o seu destino.
Essas diferentes cenas integram a estrutura da tragédia grega, como que
recheando a arquitetura básica das partes.
A seguir veremos como esta estrutura se mostra em um exemplo concreto, a
tragédia Édipo-Rei de Sófocles. As partes cantadas estarão em verde para que se
torne mais visível a dinâmica das recitações e cantos. As cenas típicas estarão
em vermelho.
|
PARTES |
DIÁLOGOS |
CENAS |
|
PRÓLOGO |
diálogo
Édipo-sacerdote |
|
|
PÁRODO
|
entrada
do coro, constituído por anciãos |
|
|
1º EPISÓDIO |
diálogo
Édipo-corifeu |
->
cena de enfrentamento |
|
1º
ESTÁSIMO |
coro
canta |
|
|
2º EPISÓDIO |
diálogo
Creonte-corifeu |
->
cena de enfrentamento
|
|
2º
ESTÁSIMO |
coro
canta |
|
|
3º EPISÓDIO |
diálogo
mensageiro-Jocasta |
|
|
3º
ESTÁSIMO |
hipôrquema |
|
|
4º EPISÓDIO |
diálogo
Édipo-corifeu-pastor |
->
cena de reconhecimento (total) |
|
ÊXODO |
diálogo
criado-corifeu |
->
cena de catástrofe |
II - A Versificação na Tragédia:
As formas métricas nas tragédias gregas são mais numerosas e intrincadas do que
em qualquer outra literatura dramática, o que torna impossível reproduzi-las em
qualquer língua moderna.
Podemos dividir os versos nas tragédias segundo apresentem ou não estrutura
estrófica.
Vejamos em primeiro lugar os versos não-estróficos, o chamado padrão
esticométrico. A esticometria ocorre também em outros gêneros literários, como
por exemplo na poesia épica de Homero e Hesíodo, onde sucede-se de forma
ininterrupta, do início ao fim dos poemas, o mesmo tipo de verso, no caso, o
hexâmetro datílico. Na tragédia o padrão esticométrico se restringe a certas
partes como no diálogo entre personagens. É a versificação mais simples que
aparece. No drama primitivo o tipo de verso nessas passagens era o tetrâmetro
trocaico, um verso livre e rápido que apresenta a seguinte estrutura:
Tetrametro trocaico:
observação quanto à notação utilizada:
_ = sílaba longa
U = sílaba breve
x = sílaba longa ou breve
Em geral, _ = UU
Ou seja, uma sílaba longa equivale a duas breves.
A medida que o tema da tragédia foi ficando mais sério, foi menos empregado.
Nas peças que chegaram até nós ele é utilizado em duas cenas Os Persas, de
Ésquilo, e às vezes nas conclusões. Eurípides em suas últimas peças, procurando
novidades, ressuscita este tipo de verso, especialmente em discussões
violentas. Sófocles, talvez por influência de Eurípides, também o utiliza em
suas últimas peças.
Com o desuso dos tetrâmetros, eles foram substituídos pelos trímetros iâmbicos,
o verso mais usual do diálogo falado. Segundo Aristóteles, o trímetro iâmbico
era o verso que mais se aproximava da fala comum.
Sua estrutura é a seguinte:
Trímetro iâmbico:
![]()
Observamos um uso mais regular desse verso em Ésquilo. Sófocles começa já a
relaxar, evitando a monotonia do ritmo e introduz a divisão do verso entre dois
atores:
Quebra de verso:

Eurípides por sua vez levou a irregularidade quase até a prosa. Em suas peças
os versos são repetidamente quebrados.
Também podemos observar o padrão esticométrico nos recitativos. Neles o tipo de
verso utilizado era o dímetro anapéstico ou anapesto, ritmo de marcha usado
pelos autores mais antigos para a entrada do coro. Sua estrutura é a
seguinte:
Dímetro anapêstico:
obs: o sinal longo sobre 2 sílabas breves indica que poderia ocorrer nesta
posição ou uma sílaba longa ou duas breves.
Eram muito usados nos "diálogos líricos" para contrastar duas
emoções, por exemplo em um diálogo coro-ator em que o coro canta e o ator
recita anapestos. Este tipo de combinação entre parte cantada e parte recitada
pode ser observada na tragédia
Medéia, onde aos cantos dolorosos do coro, Medéia contrapõe um recitativo em
anapestos comentando seus gritos.
Passemos agora a examinar a versificação na porção musical da tragédia. Devido
a íntima conexão entre música e poesia para os antigos, há uma maior variedade
de versos em cenas, que em geral são de intensa emoção. Via de regra, temos a
correspondência entre uma sílaba e uma nota musical.
Na poesia grega, já havia uma grande tradição de música coral, na forma de
hinos, odes de procissões, etc., especialmente entre os dórios e por isso o
dialeto dórico se tornou o dialeto literário por exelência do canto coral. Essa
tradição passou à tragédia grega especialmente nas partes cantadas pelo coro,
mas houve uma adaptação no sentido da redução da extensão dos versos,
simplificação das estrofes e menor correspondência entre estrofe e
antístrofe.
A estrutura estrófica, do grego strophé, "volta", seria o caso em que
determinada combinação de diferentes versos se repete. Assim, por exemplo, se
utilizarmos letras minúsculas para identificar um tipo de verso, a seguinte
sequência de versos
apresentaria um padrão estrófico:
a
b
b
a
b
b
a
b
b
Na estrutura estrófica não só observamos padrões dentro de cada estrofe, mas as
próprias estrofes podem se organizar de diferentes formas. No exemplo acima
poderíamos chamar de estrofe A a sequência de versos abb. Logo teríamos uma
estrutura de tipo A A A.
Na tragédia grega o padrão estrófico mais usual era haver a repetição da
estrofe de um tipo e depois uma sequência de estrofes da mesma forma, como no
esquema abaixo:
AA BB CC ...
Sendo que em cada grupo idêntico, AA por exemplo, o primeiro elemento era
chamado de "estrofe", e o segundo, que a repetia, era chamado de
"antístrofe".
Um exemplo da combinação de versos em estrofes seria:
estrofe A: 2 trímetros iâmbicos
antístrofe A: 2 trímetros iâmbicos
estrofe B: 2 tetrâmetros trocaicos + 1 trímetro iâmbico
antístrofe B: 2 tetrâmetros trocaicos + 1 trímetro iâmbico
Alguns tradutores indicam por símbolos na margem do texto as estrofes e
antístrofes.
Vejamos agora que versos podiam ocorrer nos coros trágicos.
O tipo mais antigo de párodo começava com uma marcha solene cantada em
anapestos. Este párodo anapéstico é encontrado nas tragédias Os Persas, As
Suplicantes e Agamêmnon de Ésquilo, e Ájax de Sófocles. Foi posteriormente
abandonado por uma estrutura mais lírica, mas pode reaparecer incluído, como na
tragédia Antígona, de Sófocles. Como dissemos antes os anapestos podem
também aparecer em diálogos líricos no recitativo do ator. Este caso é observado
em Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, Filoctetes e Édipo em Colono, de Sófocles,
e Medéia de Eurípides.
Os anapestos podiam também começar os estásimos, como ocorre Os Persas, Sete
contra Tebas e Suplicantes, de Ésquilo, e também no Agamêmnon e na Medéia.
Os estásimos entretanto são o lugar previlegiado da forma antistrófica que
apresenta a estrutura :
estrofe - antístrofe - (epodo).
O epodo, que podia ou não ocorrer, era a terceira estrofe em uma tríade ou
grupo de três estrofes, variando em construção métrica das duas primeiras, a
estrofe e a antístrofe, mas sempre mantendo a sua própria forma. Se indicarmos
o epodo por um E teríamos o seguinte exemplo: AAE BBE CCE DDE
No párodo da Médeia, podemos ver como em um diálogo lírico que envolve o Coro,
Medéia e a Ama, Eurípides combina a estrutura estrófica com o recitativo.
Canto Coral na Medéia de Eurípides
Párodo:
1ª estrofe (A): 12 versos cantados pelo coro
recitação de Medéia em 8 anapestos
1ª antístrofe (A): 12 versos cantados pelo coro
recitação da Ama em 8 anapestos
Epodo (E): 9 versos cantados pelo coro
Já no primeiro estásimo temos uma estrutura antistrófica muito mais simples
cantada pelo coro sem epodo:
1ª estrofe (A): 7 versos
1ª antístrofe (A): 7 versos
1ª estrofe (B): 7 versos
1ª antístrofe (B): 7 versos
Mas aqui embora o número de versos seja o mesmo, o tipo de verso utilizado é
diferente.
Além do epodo, outro enriquecimento da estrutura estrófica era o
"efímnio", uma espécie de refrão que seguia estrofes e antístrofes.
Em Ésquilo em suas primeiras odes corais observamos até 10 pares de estrofes,
já nas últimas apenas 3 pares compõe o canto coral, índice formal da diminuição
da sua importância na arquitetura da tragédia.
Nestas estruturas estróficas eram utilizados os mais diferentes tipos de
versos: dáctilos, iambos, troqueus, anapestos líricos, crético-peônio,
docmíaco, eólico, jônico, etc., constituindo um todo ritmicamente complexo e
variado que dava ao autor trágico infinitas possibilidades de combinação de modo
a que o conteúdo de cada uma das partes alcançasse maior expressividade.
Infelizmente, toda essa riqueza formal, que constituia uma das partes mais
importantes da carpintaria trágica é praticamente impossível de ser percebida.
E mesmo que lêssemos as tragédias no original e escandindo os versos, isto é,
obedecendo à métrica, ainda assim nos faltaria um dos elementos mais
importantes da performance dramática, a música, que o tragediógrafo compunha,
pois o coro verdadeiramente canta, não recita apenas, e como vimos os próprios
atores em momentos de grande emoção tem partes cantadas.
O componente musical das tragédias gregas está praticamente todo perdido.
Resta-nos apenas um pequeno fragmento de um estásimo da tragédia Orestes de
Eurípides.
(neste momento houve a apresentação do estásimo de Orestes na interpretação do
Atrium Musicae de Madrid, do CD Musique de la Grèce Antique. Harmonia
Mundi)
Esse conjunto de coro e atores, cantando e recitando, em um teatro com milhares
de pessoas, cidadãos e estrangeiros, à luz do dia e dentro de um grande
festival em honra a Dioniso que durava 6 dias, infelizmente para nós está
completamente perdido. Mas a beleza e profundidade dos textos que chegaram até
nós já nos dão uma idéia do que estas representações teriam sido.
Os grandes poetas trágicos
Ésquilo "O Pai da Tragédia"
1. Um Dramaturgo nas Encruzilhadas
No ano de 525 a C.., Cambises invadiu o Egito e Ésquilo nasceu.
Cada gênio revela um padrão de comportamento. O de Ésquilo foi de estar sempre
colocado entre dois mundos ou princípios.
Dez anos antes que Ésquilo, fizesse sua estréia como dramaturgo encenando, em
490, estava na planície de Maratona com o grupo de atenienses que repeliu as
hostes do maior império do seu tempo. Aos trinta e cinco anos era herói nacional.
Dez anos mais tarde a população de Atenas foi obrigada a abandonar a cidade que
foi completamente destruída pelo invasor.
A civilização helênica foi salva pela momentosa batalha naval de Salamina.
Ésquilo celebrou a vitória sobre os persas escrevendo, oito anos depois, Os
Persas.
O sopro épico de suas peças, seu diálogo exaltado, e suas situações, de
titânica paixão, pertencem a uma idade heróica.
Há, em sua obra, um sentido de resoluto otimismo: o princípio certo sempre
vence em seus conflitos filosóficos e éticos.
No entanto, tão logo os persas haviam sido derrotados, a Grécia começou a se
encaminhar para uma nova crise. Sua cidade-Estado torna-se um império e a luta
pela hegemonia começa a ocupar o poeta que escreve o seu primeiro drama
preservado, As suplicantes.
Ésquilo, filho de uma antiga família estava ao lado da nobreza não deixou de
externar sua oposição à nova ordem, sabemos que falou desdenhosamente de jovem
poder e governantes adventícios em Prometeu Acorrentado, e acreditava-se que o
fato de ter perdido o prêmio de um concurso para seu rival mais jovem,
Sófocles, em 468, entrava na esfera de uma repercussão política.
A instauração da nova ordem atingiu até o Areópago (O supremo tribunal de
Atenas) despojando-o de muitas das suas prerrogativas mais importantes. Ésquilo
usou a tragédia de Orestes, em As Eumênides, para apoiar a instituição
vacilante.
Mas é na sua abordagem à religião e à ética que mais afetou a qualidade e
significado de suas tragédias. E novamente o encontramos postado entre dois
mundos, pois Ésquilo é ao mesmo tempo um místico oriental ou profeta hebreu e
um filósofo helênico
Embora apresente marcadas semelhanças com os últimos profetas de Israel, sua
concepção de divindade é composta pelo racionalismo helênico. Ésquilo dispensou
o politeísmo de seu tempo em favor do monoteísmo.
Investigando o problema do sofrimento humano em sua última trilogia, Ésquilo
chega à conclusão de que é o mal no homem e não a inveja dos deuses que destrói
a felicidade. A razão correta e a boa vontade são os pilares do primeiro
sistema moral que encontra expressão no teatro.
Foi na feição profundamente religiosa de seu pensamento que diferiu dos
contemporâneos mais jovens. Uma ponte lançada entre a religião primitiva e a
filosofia posterior.
2. Ésquilo e o teatro grego
Ésquilo sustentava corretamente que suas tragédias eram apenas fatias do
banquete de Homero. Com efeito a maioria das tragédias possui as qualidades
homéricas no ímpeto de suas passagens narrativas e na estatura heróica dos
caracteres.
Mesmo com os processos introduzidos por Téspis, as peças ainda não eram mais
que oratórios animados, fortemente influenciados pela poesia mélica que exigia
acompanhamento instrumental e pela poesia coral suplementada por expressivos
movimentos de dança.
O teatro físico também se apresentava rudimentar e o palco tal como o
conhecemos era praticamente inexistente.
Novamente no ponto em que os caminhos se dividem Ésquilo precisava escolher
entre o quase ritual e o teatro, entre o coro e o drama. Mesmo tendo acentuada
predileção pelo coro e pelas danças, Ésquilo trabalhou para aumentar as partes
representadas: os "episódios" que, originariamente mereceram partes
do drama mas simplesmente apêndices do mesmo. Um outro grande passo na evolução
da tragédia foi a introdução do segundo ator.
É útil lembrar que as atores "multiplicavam-se" com o uso de máscaras
além que efeitos de multidões podiam ser criados com o uso de participantes
"mudos" ou do coro.
Ésquilo cuidava das danças, treinava os próprios coros, utilizava-se de
recursos como as pausas demostrando se excelente diretor e encenador, fazendo
amplo uso de efeitos que atingiram um nível extremamente elevado
considerando-se os escassos recursos técnicos da época.
Destaque merece o fato de Ésquilo criar os figurinos estabelecendo, para eles,
caracteres fundamentais. Fiz de seus atores figuras mais impressionantes
utilizando máscaras expressivamente pintadas e aperfeiçoando o uso do sapato de
altas solas o coturno.
Chegar a introdução, mesmo que rudimental, de uma cenografia foi um passo que
um gênio tão versátil deu com facilidade. A decoração do palco, ou seja a
construção cênica tornou-se permanente junto a utilização de máquinas que
conseguiram obtendo bons efeitos cênicos.
3. O festival de Teatro de Atenas e suas Convenções.
Tudo começou quando Pisístrato transferiu o antigo e rústico festival
dionisíaco dos frutos para Atenas criando as Dionisias Urbanas. Outro festival
mais antigo (Lenianas) também começou a incluir tanto concursos trágicos quanto
cômicos.
As Dionisias Urbanas Começavam com vários rituais religiosos (Procissões cultos
) até entrar na fase mais ligada propriamente ao teatro e ao concursos.
Dois dias eram reservados para as provas ditirâmbicas, um dia ás comédias, com
cincos dramaturgos na competição; e três dias à tragédia . Seis dias eram
devotados ao grande festival; cinco após 431 a.C. – com cincos apresentações
diárias durante os últimos três dias – três tragédias e um "drama
satírico" fálico pela manhã uma ou duas comédias à tarde. Três dramaturgos
competiam pelo prêmio de tragédia, cada um com três tragédias e um drama
satírico, sendo que as peças eram mais ou menos correlatas.
As peças eram cuidadosamente selecionadas por um funcionário público ou arconte
que também escolhia o intérprete principal ou "protagonista"
Imediatamente antes do concurso, a ordem dos concorrentes era determinada por
sorteio e ao seu término, os vencedores, julgados por uma comissão também
escolhida por sorteio, eram coroados com guirlandas de hera.
Pesadamente paramentados, os movimentos dos atores trágicos, eram
necessariamente lentos e seus gestos amplos.
Na verdade, devido as dimensões dos teatros, ao atores eram escolhidos por suas
vozes. Os bons atores eram tão procurados que logo começaram exigir salários
enormes e, quando o talento dramatúrgico se tornara escasso, a interpretação
assumiu importância ainda maior que o próprio drama.
Tal como os atores, o coro apresentava-se com variados figurinos e usava
máscaras apropriadas á idade, sexo e personalidade das personagens
representadas. O coro também não cantava durante todo o tempo, pois algumas
vezes usava a fala recitativa e até mesmo coloquial ao dirigir-se aos atores.
O uso do coro no teatro grego tinha por certo suas desvantagens, pois ralentava
e interrompia as partes dramáticas da peça. Mas enriquecia as qualidades
espetaculares do palco grego o que levou escritores a comparar a tragédia
clássica com a ópera
moderna.
4. As primeiras Tragédias e a Arte Dramática de Ésquilo
As verdadeiras encenações do teatro ateniense estão irremediavelmente perdidas.
Do trabalho de todos os dramaturgos que ganharam os prêmios anuais sobreviveram
apenas as peças de Ésquilo, Sófocles, Éuripides e Aristófanes, e mesmo assim
por apenas uma fração das suas obras.
Contudo, no caso de Ésquilo, as tragédias remanescentes estão bem distribuídas
ao longo de toda a carreira e lançam luz suficiente sobre a evolução de seu
estilo e pensamento.
Ésquilo é um mestre do pinturesco. Suas personagens são criaturas coloridas,
muitas delas sobrenaturais, orientais ou bárbaras, e suas falas são abundantes
em metáforas.
Sue progresso na arte deve Ter sido extraordinariamente gradual, uma vez que as
primeiras peças revelam grande preponderância de intervenções corais e apenas
os últimos trabalhos mostram-se bem aquinhoados em ação dramática.
Seu primeiro trabalho remanescente, As Suplicantes, provavelmente a primeira
peça de uma trilogia, ainda o mostra lutando com o drama coral.
Há maior interesse quanto ao segundo drama remanescente: Os Persas, escrito em
472 a. C. trata de um fato prático contemporâneo, e foi obviamente cunhada para
despertar o fervor patriótico.
5. Uma Divina Comédia: A Trilogia de Prometeu
O tema do Prometeu Acorrentado e das peças perdidas que o acompanhavam era Deus
em pessoa. Trabalho inesquecível, transbordante de beleza e reflexão e
transfigurado por essa personalidade supremamente inspiradora, Prometeu,
rebelde contra Deus e amigo do homem. Sua tragédia é o protótipo de uma longa
série de dramas sobre o liberalismo.
O tema da trilogia parece ser a evolução de Deus em cumprimento da lei da
necessidade. De um tirano jovem e voluntarioso Zeus converte-se em governante
maduro e clemente, tão diverso do Zeus da Ilíada quanto o Jeová de Isaías.
6. Tragédia Humana - Édipo e Agamemnon
Após estabelecer uma providência moral no universo, só restava a Ésquilo fazer
com que a vontade desta prevalecesse entre os homens. Na primeira delas, uma
tragédia de Édipo, Ésquilo recusou as explicações pré-fabricadas e foi além da
convencional teoria grega da maldição familiar.
Nos Os Sete Contra Tebas deixa perfeitamente claro que a hereditariedade é
pouco mais que uma predisposição. Os crimes cometidos pelos descendentes do
corrupto Laio são resultado da ambição, rivalidade e insuficiente predomínio da
lei moral durante a idade legendária.
Ésquilo estava galgando novas intensidades em Os Sete Contra Tebas ao voltar-se
para a tragédia humana e individual. Chegou ao ápice desta escalada nove anos
depois, em sua última e maior trilogia.
A Oréstia, apresentada em 458 a C. , dois anos antes da morte do autor, é
novamente a tragédia da uma casa real.. Trata mais uma vez de uma maldição
hereditária, que teve início na vago mundo da lenda. Esta trilogia é formada
por: o Agamemnon que será vítima de Clitemnestra (Sua esposa) que assim vinga a
morte arbitrária da própria filha.
Nas Coéforas, segunda tragédia da trilogia, o filho de Agamemnon, Orestes
encontra-se em curioso dilema: em obediência à primitiva lei da vendeta deveria
matar os assassinos de seu pai mas a conseqüência deste ato o tornaria um
matricida. Depois do assassínio as Fúrias enlouquecem Orestes.
Em As Coéforas, Ésquilo reduz a lie da vendeta um absurdo, posto que, seguida
logicamente, leva a um ato ainda mais intolerável do que o assassinato
original.
Na parte final da trilogia, As Eumênides, a vendeta é finalmente anulada.
Após diversos anos, Orestes finalmente expiou seu feito através do sofrimento e
agora está pronto para enfrentar as Fúrias em julgamento aberto, anta o
Areópago. Embora a votação empate este é quebrado em favor de Orestes quando
Atená lança o seu voto pela absolvição. Significativamente é a deusa da razão
que põe fim à cega e autoperpetuadora lei da retribuição.
Dois anos após a promulgação desse credo, Ésquilo estava morto.
Ésquilo transformara o ritual em drama, trouxera a personalidade humana para o
teatro e incluíra a visão espiritual no drama.
Sófocles, O Sereno
1.O Dramaturgo Feliz
Nascido em 495 a C, trinta anos após seu predecessor, desfrutou das comodidades
de filho de um rico mercador e das vantagens de um belo corpo.
Era tão extraordinário por sua graça física que aos dezesseis anos foi
escolhido para liderar o coro de meninos que celebrou a vitória de Salamina.
Após doze anos mais despendidos no estudo e no treinamento, Sófocles estava
pronto para competir com os dramaturgos já em exercício, e não foi outro senão
Ésquilo quem perdeu para ele o primeiro prêmio. Esta primeira peça fio seguida
por outras cem ou mais, dezoito das quais receberam o primeiro prêmio, sendo
que as demais nunca ficaram abaixo do segundo.
Ator consumado, interpretava suas próprias peças. Apenas a relativa fraqueza de
sua voz, levou-o a renunciar a profissão de ator. Foi também sacerdote
ordenado, ligado ao serviço de dois heróis locais, Arconte e Esculápio; o deus
da Medicina.
Em geral não associamos os artistas as altas finanças (Com exceção talvez de
Ronald Reagan) mas Sófocles foi até mesmo diretor do Departamento do Tesouro.
Em suma, Sófocles foi o ídolo querido do povo de Atenas, pertencendo à longa
linhagem de escritores que negam a teoria de que o gênio nunca pode ser
reconhecido enquanto vivo.
Sua vida que durou por noventa anos, não revelou qualquer declínio de seus
poderes.
Sófocles era um poeta com uma pureza de expressão que não encontrou paralelo no
teatro até que Racine começou a escrever peças para a corte francesa, vinte
séculos mais tarde.
Uma narrativa afirma que Sófocles pretendia criar as pessoas tais como deviam
ser, enquanto Eurípides as fazia tais como eram, mas devia referir-se a um
período anterior que não é representado por qualquer das sete peças
remanescentes nas quais nós fornece ampla evidência de possuir tanto a
capacidade quanto o desejo de retratar as
pessoas tais quais são.
Há dois tipos de sofrimento em suas tragédias – aquele que advém de um excesso
de paixão e aquele que brota de um acidente. O mal produzido pelo homem é
formado no molde fixo do caráter humano e o acidente decorre da natureza do
universo. Embora Sófocles aceitasse oficialmente os deuses gregos, estes não
afetavam sua filosofia.
No mundo sofocliano o homem deve esforçar-se para introduzir ordem em seu
próprio espírito.
Entretanto é acima de tudo na elaboração artística de suas tragédias que
Sófocles cria a ordem, gosto e equilíbrio tão raramente encontráveis no mundo
real.
2.A arte da Dramaturgia de Sófocles
Como todo artista competente, é claro que Sófocles não chegou à sua estatura
total repentinamente; experimento, tentou diferentes estilos e lutou
diligentemente pela perfeição.
De início imitou a grandeza de Ésquilo, depois foi para o extremo oposto,
adotando uma forma excessivamente lacônica e abrupta e, finalmente encontrou o
meio-termo entre ao dois estilos, atingindo o método apaixonado e no entanto
contido que caracteriza todas as suas últimas peças; as únicas que chegaram até
a nós.
Seu progresso, porém, não ficou confinado ao estilo. Mesmo sendo verdade que
não podia violar várias normas e/ou interdições como a eliminação do coro,
Sófocles fez a melhor coisa que lhe restava, reduzindo-o ao mínimo e
relegando-o ao segundo plano. Podia tomar estas liberdades e sentiu-se também
livre para aumentar os limites das
complicações dramáticas da peça.
Um primeiro passo dado por ele foi a adição de um terceiro ator interlocutor ao
drama ático. Um segundo passo foi a abolição da forma trilógica.
Seu trabalho apresenta forte semelhança com a arquitetura e a escultura do seu
tempo, que dava preferência a pequenos templos e estátuas de deuses não maiores
que um ser humano bem proporcionado.
Nos detalhes de sua dramaturgia, Sófocles é igualmente um artesão difícil de
contentar que calculava seus efeitos. Emprega ironia trágica ou contraste
patético com grande habilidade e a efetividade do estratagema é mostrada no
poderoso Édipo Rei. Mestre na nascente e difícil arte da caracterização,
Sófocles é mestre consumado no artifício do suspense trágico do qual Édipo Rei
é um exemplo supremo.
3.As Peças de Sófocles
Através de vários léxicos e alusões, conhecemos os nomes de mais ou menos
cem peças perdidas, atribuídas a Sófocles. A sobrevivência de uma legião de
títulos e fragmentos também indicam que Sófocles escreveu algumas peças
satíricas ou cômicas muito populares. A partir dos fragmentos recuperados,
vários dos quais são de extraordinária
beleza, vemos com nitidez absoluta que sua profundidade e lucidez quanto aos
problemas do momento em que viveu não estavam restritos ao simples punhado de
peças que permaneceu intacto.
A extensão dos poderes dramáticos de Sófocles só pode ser medida completamente
nas tragédias integrais de que dispomos. Embora a caracterização das
personagens seja sempre um traço primordial, sua obra remanescente pode ser
convenientemente dividida em: três peças de caracteres – As Traquinianas, Ajax
e Electra; um drama social –
Antígona; um idílio – Filoctetes; duas tragédias do destino – Édipo Rei e Édipo
em Colona.
4.Peças de Caracteres
Uma das peças tardias, As Traquinianas é a mais fraca de todas pela falta de
unidade desde que o interesse é dividido entre Dejanira e seu marido, e a peça
usa mais do recurso narrativo do que costumamos encontrar na obra de Sófocles.
Mas a tragédia comporta um poderoso e comovente estudo da mulher ciumenta. Esta
peça é desprovida de indagações cósmicas e sociais, deve muito de seu interesse
exclusivamente à lúcida analisa das personagens de meia idade.
Mais eficaz é Ajax, uma tragédia anterior, penetrante análise de um soldado
corajoso mas hipersensível, que é destruído pelo excesso de suas melhores
qualidades. Rematando esse drama de caracteres, Sófocles cria outra de suas bem
realizadas mulheres, a escrava Tecmessa. Sófocles revela assim terna visão e
compreensão pela condição feminina.
Mas a maior contribuição de Sófocles ao drama de caracteres está em sua
Electra, na qual trata o tema de As Coéforas de Ésquilo unicamente em termos da
personalidade humana. Para Ésquilo o problema era ético, Sófocles resolve o
problema moral e aceita o assassinato materno colocando-o na distante
antigüidade. Tendo solucionado a questão ética, volta-se inteiro ao problema da
personagem.
A caracterização nessa tragédia á parte de uma trama cuidadosamente elaborada
girando ao redor da forma pela qual Orestes obtém acesso a Clitemnestra e
Egisto. Dor e alegria alternam-se por toda a peça.
5.Um Idílio Grego.
Filoctetes exibe o lado mais ameno de sua mestria artística, é uma tragédia
apenas no sentido grego (devido à exaltada dramáticidade) ; não faz uso de
catástrofe ao final e o espírito da obra é pastoral.
Frases cortantes sublinham os comentários de Sófocles sobre os caminhos do
mundo: "A guerra jamais massacra o homem mau", e "Aos
saqueadores jamais sopra um vento adverso". Mas a atmosfera dominante é de
loucura e luz e o poeta nos assegura que a perversidade do mundo é compensada
algumas vezes pela imaculada humanidade.
Entretanto, é significativo que Sófocles apenas tenha atingido sua plena
estatura quando, ao invés de contentar-se com simples estudos de personagens e
observações mais ou menos fugidas sobre o gênero humano, voltou-se para temas
maiores, bem definidos. Há dois deles em sua obra remanescente: as relações do
homem com a sociedade e os labirintos do destino.
6. Antígona e o Drama Social
Uma das mais grandes tragédias da literatura dramática é Antígona, escrita em
442, antes de qualquer dos textos de caracteres remanescentes. Sófocles
dedica-se aqui a um conflito básico, as pretensões rivais do Estado e da
consciência individual.
A questão fundamental á descobrir como estabelecer um termo médio entre esses
princípios e evitar a catástrofe quer para o grupo quer para o indivíduo. Afora
isso, a oposição ainda mais geral entre amor e ódio lança sua magia sobre toda
a peça.
Sófocles não procura desviar o drama em favor de sua heroína, pois reconhece os
direitos do Estado e do interesse público.
Embora Sófocles não se incline a resolver a disputa entre o Estado e a
consciência individual, contentando-se simplesmente em observar que as
conseqüências do conflito tendam a ser trágicas, o ímpeto de sua piedade e de
sua caracterização de Antígona
lança o peso da simpatia, ao menos quantos aos leitores modernos, para o lado
da nobre moça.
Esta deslumbrante tragédia deixa em suspenso diversos problemas que não
entregam com facilidade seu significado ao leitor casual.
7. A Tragédia do Destino – Édipo
A mesma batalha com um tema importante e difícil distingue as duas grandes
peças que colocam o problema do destino.Usualmente o acidental é considerado um
artifício barato e fácil na literatura dramática. Mas não é barato nem fácil no
Édipo Rei. O acidente ocorre antes do início da peça e amarra as circunstâncias
num nó que só poderá ser desatado após prolongada batalha. Além disso,
felizmente, Sófocles estava à altura da tarefa. Es não podia esperar resolver o
enigma do destino, ao menos conseguiu uma das incontestáveis obras-primas do
mundo. E é novamente seu soberbo Dom para a caracterização que enriquece a
simples mecânica da dramaturgia com vida, agonia e plausibilidade.
Como alguém que viu a vida "equilibradamente", segundo suas luzes
pagãs recusou-se a codificar a existência do acidente na tragédia. Édipo é uma
personagem superlativamente ativa, como se o dramaturgo ático tentasse nos
dizer que o destino trabalha através do caráter da vítima. Com efeito o fado
encontra forte aliado neste homem corajoso, nobre a de ótimas intenções, cuja
única é o temperamento inflamável. Tanto suas virtudes quanto defeitos
conspiram contra ele.
Sem ser moralmente responsável, Édipo é psicologicamente responsável pelos
tormentos. Consequentemente é uma personagem dinâmica e um sofredor ativo; na
verdade, é uma das figuras trágicas da literatura.
A estória de Édipo nos convida a descer às profundezas da antropologia e
psicanálise modernas que foram intuitivamente perscrutadas pelos poetas desde
tempos imemoriais. Somos relembrados dos impulsos anárquicos e incestuosos que
complicam a vida do homem e se exprimiram em tantos tabus primitivos e neuroses
civilizadas. Como toda obra de arte superior, esta tragédia tem uma vida dupla:
aquela que expressa e aquela que provoca.
A seqüência a esta tragédia, o sereno e encantador Édipo em Colona, escrito
muitos anos mais tarde, é o Purgatório e Paraíso do Inferno de Sófocles. O
problema do destino inexplicável colocado pelo Édipo Rei não é respondido no
trabalho posterior. Mas pelo menos uma solução é indicada: O que o homem não
pode controlar, ao menos pode aceitar; o infortúnio pode ser suportado com
fortaleza e enfrentado sem sentimento de culpa. Édipo está purgado e curado. E
com ele, nós que o seguimos aos abismos imergimos liberados e fortificados.
Logo após a apresentação de Édipo em Colona, em 405 Sófocles foi juntar-se à
sombra de Ésquilo. No mesmo ano fatídico falecera também Eurípides e morreria a
glória que era a Grécia, pois Atenas sucumbiria ao poderio militar de Esparta.
Nenhum mestre da alta arte da tragédia floresceu em Atenas após a morte de
Sófocles.
Eurípides, O moderno
O homem barbado que vivia com seus livros numa caverna na ilha de Salamina era
um estranho entre os homens de seu tempo. Dizia-se de Eurípides que passava
dias inteiros sentado, a meditar, desprezava o lugar comum e era melancólico,
reservado e insociável.
Nos cinqüenta anos de teatro, durante os quais escreveu noventa e duas peças,
conquistou apenas cinco prêmios, sendo o quinto concedido após sua morte.
Permanente alvo dos poetas cômicos, especialmente de Aristófanes, tornou-se
objeto das mais desenfreadas calúnias e zombarias.
Julgado por impiedade deixou Atenas totalmente desacreditado. A corte macedônia
do rei Arquelau honrou-o. Mas apenas uns dezoito meses depois veio tragicamente
a falecer. Eurípides é o exemplo clássico do artista incompreendido.
Sócrates colocava-o acima de todos os outros dramaturgos e jamais ia ao teatro
senão quando Eurípides tinha uma de suas peças encenadas. Sófocles respeitava
seu colega-dramaturgo, ainda que não aprovasse seu realismo.
A estória de Eurípides é a de um homem que estava fora de sintonia com a
maioria. Era um livre-pensador, humanitário e pacifista num período que se
tornou cada vez mais intolerante e enlouquecido pela guerra.
Se Eurípides era um acirrado crítico de seu tempo, podia contudo, assinalar com
justiça que não fora ele quem mudara e sim Atenas. Rica, poderosa e cosmopolita
em virtude de seu comércio e imperialismo, a Atenas de sua juventude ofereceu o
solo adequado para a filosofia liberal que mais tarde experimentou dias tão
negros.
Eurípides esteve estreitamente ligado à religião que mais tarde questionaria
com tão ingrata perseverança. Foi um dos muitos livres-pensadores da Europa,
criados numa atmosfera religiosa. Talvez uma certa ligação com religião seja
sempre pré-requisito para o agnosticismo ativo.
Eurípides permaneceu suscetível aos valores estéticos da adoração religiosa até
o fim de seus dias. Seu fascínio como dramaturgo está nesse dualismo entre o
pensamento e a fantasia, entre emoção e a razão.
Os sofistas, que questionavam todas as doutrinas e ensinavam a hábil arte do
raciocínio, o enfeitiçaram para sempre. Vário pensadores não convencionais que
expunham diversas doutrinas racionalistas e humanistas imbuíram Eurípides de um
apaixonado amor pela verdade racional. Foi a partir deles que o primeiro
dramaturgo "moderno" desenvolveu o hábito do sofisma em seu diálogo e
adotou uma perspectiva social que sustentava a igualdade de escravos e
senhores, homens e mulheres, cidadãos e estrangeiros.
Quando Atenas se empenhou na luta de vida ou morte com a Esparta
antiintelectual, provinciana e militarista, acorreu em sua defesa não apenas
como soldado mas também como propagandista que exaltava seus ideais.
Prolongando-se a guerra com Esparta e sofrendo Atenas derrota após derrota, o
povo perdeu a predisposição para a razão e tolerância. Péricles, o estadista
liberal, viu sua influência desaparecer, foi obrigado a permitir o exílio de
Anaxágoras e Fídias e chegou mesmo a sofrer um impeachment. Um a um, Eurípides
viu seus amigos e mestres silenciados ou expulsos da cidade.
Em meio a esses acontecimentos, Eurípides continuou a escrever peças que
mantiam em solução os ensinamentos dos exilados, sendo pessoalmente salvo do
banimento em parte porque suas heresias eram mais expressas por suas
personagens que por ele mesmo e em parte porque o dramaturgo apresentava sua
filosofia num molde tradicional. Em aparência era mais formal que o próprio
Ésquilo.
O ateniense comum era abrandado por um final convencional, as sutilezas da peça
podiam escorregar por suas mãos e seus sentidos exitavam-se com as doces
canções e músicas. Euripides pôde continuar em Atenas por longo tempo mesmo
sendo considerado com suspeita e suas peças recebendo normalmente o segundo ou
terceiro lugar dos vigilantes juizes do festival de teatro.
A estrutura artística desigual e muitas vezes enigmática de seu trabalho prova
que foi grandemente cerceado por essa necessidade de estabelecer um compromisso
com o público inamistoso. Suas peças freqüentemente têm dois finais: um
inconvencional, ditado pela lógica do drama e outro convencional, para o povo,
violando a lógica dramática.
Se algumas vezes Eurípides comprou sua liberdade intelectual às custas da
perfeição, a compra foi uma barganha em termos de evolução dramática. Enquanto
brincava de cabra-cega com seu público, conseguiu criar o mais vigoroso
realismo e a crítica
social da cena clássica. O povo simples começou a aparecer em suas peças e seus
heróis homéricos eram freqüentemente personagens anônimos ou desagradáveis.
Outras personagens homéricas com Electra e Crestes são até hoje casos caros à
clinica psiquiátrica. Eurípides e o primeiro dramaturgo a dramatizar os
conflitos internos do indivíduo sem atribuir a vitória final aos impulsos mais
nobres.
A obra de Eurípides constitui, sem dúvida alguma, o protótipo do moderno drama
realista e psicológico.
Eurípides poderia sem dúvida Ter continuado a criar poderosos dramas pessoais
ad infinitium. Mas a vida tornava-se cada vez mais complicada para um pensador
humanista. Em 431, ano de Medéia, Atenas entrou em sua longa e desastrosa
guerra com Esparta. Não era momento para um homem como Eurípides preocupar-se
com problemas predominantemente pessoais.
Por certo, ao envelhecer, Eurípides pouco fez para granjear a favor de seus
concidadãos. Na verdade, atormentavam-no ainda mais do que ao tempo em que
escrevia seus mais amargos dramas sociais. Foi declarado blasfemo e sofista.
Segundo o poeta cômico Filodemo, Eurípides deixou Atenas porque quase toda a
cidade "divertia-se às suas custas".
A origem e formação da comédia grega

Ruínas de teatro grego da Antiguidade na cidade de Epidauto

A origem da comédia é comum à origem da tragédia. Sua raiz está nas festas
dionisíacas, consagradas ao deus Dioniso, que se realizavam em toda a hélade.
As dionisíacas
eram em número de três.
As Dionisíacas Urbanas eram, de todas, a mais importante. Ela realizava-se na
primavera, em fins de março e durava sete dias. Outra comemoração, as Leneanas,
era realizada no
inverno, aproximadamente nos fins de janeiro, nas montanhas. A terceira
ocorria também no inverno, em fins de dezembro. Eram as Dionisíacas Rurais.
A palavra comédia vem do grego komoidía. Sua origem etimológica é komos
(procissão jocosa) e oidé (canto). A palavra komos tem múltiplos sentidos no
vocabulário grego. Todos no entanto remetem-se ao sentido de procissão. Havia
dois tipos de procissão que tinham a designação komoi. Um deles consistia-se
numa espécie de cordão carnavalesco, na qual participavam os jovens. Estes
saíam às ruas da acrópole batendo de porta em porta, pedindo prendas e
donativos. Nestas komoi era hábito também expor à zombaria os cidadãos da
polis. Estes jovens costumavam desfilar nestas komoi fantasiados de animais. A
tradição pode ser detectada em três das onze peças de Aristófanes que chegaram
até nós e têm nome de animais e insetos: As vespas, As rãs e As aves.Outro tipo
de komoi era de natureza religiosa. Esta segunda era realizada nas festas
dionisíacas. Nesta procissão, era celebrada a fertilidade da natureza.
Escoltava-se nesta komoi uma escultura representando um pênis. Era hábito
também que, durante a procissão, as pessoas trocassem palavras grosseiras entre
si. Estes palavrões tinham conotações religiosas. Era a forma de desejar ao seu
próximo a fertilidade da natureza e fartura, haja vista que a Grécia tinha
grandes problemas com a fertilidade da terra e das mulheres.
Outra possível origem do gênero komoidía está, segundo o filósofo Aristóteles,
nos cantos fálicos. Neles, uma prostituta liderava um cordão em que todos
cantavam obscenidades. Os cantos fálicos eram entoados nas dionisíacas.
A komoidía tem várias complexas e perdidas origens.
Aristófanes, O grande autor do gênero Comédia
Aristófanes
Aristófanes nasceu em Atenas em 457 ac. Quatro anos antes do seu nascimento,
em 461 ac, Péricles havia assumido o poder em Atenas.
Aristófanes viveu toda a sua juventude sob o esplendor do Século de Péricles.
Aristófanes foi testemunha também o início do fim daquela grande Atenas. Ele
viu o início da Guerra do Peloponeso, que arruinou a hélade. Ele, da mesma
forma, viu de perto o papel nocivo dos demagogos na destruição econômica,
militar e cultural de sua cidade-estado. À sua volta, à volta da acrópole de
Atenas, florescia a sofística -a arte da persuasão-, que subvertia os conceitos
religiosos, políticos, sociais e culturais da sua civilização.
O teatro de Aristófanes, principalmente aquele que integra a sua obra no
período da Comédia Antiga, é um contundente e sarcástico manifesto contra os
elementos que ele julgava responsáveis pela decadência de Atenas.
Aristófanes foi um homem contraditório. Crítico violento da democracia,
utilizava-se de uma retórica tão agressiva que somente em um ambiente de
liberdade plena como o democrático permitiria a sua veiculação.
Aristófanes vê com desprezo a forma pela qual os cidadãos gregos deixavam-se
levar pelos demagogos.Ele detestava também o teatro modernizante de Eurípedes,
cheio de sutilezas retóricas, que invocava outros deuses ao invés dos
tradicionais membros do Olimpo. Paradoxalmente, este teatro, que negava as
inovações na retórica, assimilava-as na prática, a ponto de Cratino, um
comediógrafo rival de Aristófanes, qualificar o teatro moderno de sua época
como euripidaristofanizante. Aristófanes, todavia, era considerado o maior
autor de comédias de seu tempo. Quase todas as suas 11 peças que nos restaram
obtiveram sucesso nas Dionísias. Somente As Aves e A Paz obtiveram o segundo
lugar, e As Nuvens o terceiro. Para sublinhar mais esta excelência entre os
gregos, é bom citar que a comédia As Rãs foi tão bem recebida pelo público que
teve a sua reapresentação pedida pela platéia. Na época, a reapresentação de
uma peça era privilégio da tragédia.
A primeira comédia de Aristófanes que se tem notícia foi encenada no ano de 427
ac e se chamava Os Babilônios. Esta perdeu-se no tempo. No entanto, sabemos por
relatos da época que se tratava de um ataque cruel a Cleon. Cleon foi sucessor
de Péricles. De curtidor de couro, uma profissão humilde, ele foi eleito
general de Atenas. Sua política
imperialista obteve algum sucesso no início, mas foi desastrosa para Atenas a
longo prazo, pois colocou a cidade-estado envolvida em conflitos militares
caros que ainda resultaram em derrotas.
Diversamente de Péricles, Cleon foi um dos fomentadores da Guerra do
Peloponeso. Ficou famoso por sua venalidade, por perseguir politicamente e
judicialmente os cidadãos -principalmente os ricos- que ele considerava seus
inimigos.
Cleon é acusado por seus contemporâneos de subornar juízes para obter sentenças
favoráveis a seus interesses. Em seu governo, os aliados de Atenas foram
relegados à condição de colônias, o que provocou descontentamento e deserções.
É contra ele que Aristófanes faz a peça “Os Babilônios”. Ela foi representada
nas Grandes Dionísias Urbanas, diante do General e de seus aliados. É sabido
que ele sentiu-se extremamente ofendido com a representação e acusou
Aristófanes de difamar as instituições atenienses ao mundo grego. O dramaturgo,
entretanto, não se intimidou com esta crítica. Dois anos depois, no ano de 425
ac, nas Leneanas, Aristófanes apresentou a comédia Os Cavaleiros. Esta peça,
felizmente, chegou até nós. Ela representa o mais violento ataque pessoal de
Aristófanes a Cleon. Tão agressiva foi considerada que nenhum ator da época
teve a coragem de representar o papel de Panflagônio (Cleon). Foi o próprio
autor que teve de fazê-lo (desempenho, aliás, considerado medíocre por seus
contemporâneos). Para desespero do general, ele foi o vencedor do
concurso.
Os Cavaleiros
Nesta peça, Aristófanes caracteriza Cleon como escravo de um senhor. O senhor é
o povo. Trata-se de um escravo muito desonesto e desprovido de qualquer
caráter. Uma peculiaridade é importantíssima para podermos situar a peça. Cleon
estava no auge de sua popularidade no tempo da representação por causa de um
sucesso inesperado na Guerra do Peloponeso.
Um porto, o porto de Pilos, que era de fundamental importância econômica e
militar para a cidade-estado de Esparta, havia sido tomado por Atenas por um
general chamado Demóstenes -homônimo do orador famoso-. Os espartanos, visando
retomá-lo, tomaram posição numa ilha perto de Pilos (Esfactéria). A armada
ateniense, no entanto, cercou a ilha. Os espartanos então tentaram assinar a
paz. Cleon desejava, todavia, uma vitória total para humilhar Esparta e ganhar
prestígio como líder em Atenas. O cerco à ilha, se por um lado havia isolado os
espartanos, por outro, não havia decidido a batalha. O cerco continuava e a
indecisão também. Cleon exigia a vitória e acusou os demais generais atenienses
de incompetência. Seu rival, Nícias, é o comandante da frota. Para constranger
o líder, Nícias renuncia em favor de seu rival. Surpreendido, Cleon assume o
comando dos exércitos. Ao encontrar-se com o general Demóstenes, este lhe
apresenta um plano de ataque cuidadosamente elaborado pelo estado-maior de
Nícias. De posse daquele planejamento, Cleon supervisiona o ataque à ilha,
comandado por Demóstenes. Atenas vence e captura vários nobres espartanos.
Cleon foi recebido como herói na cidade.
É neste ano que Aristófanes lhe dedica a peça Os Cavaleiros. O nome da peça
provém de uma divisão militar de origem aristocráticas na qual Aristófanes põe
as esperanças de desmoralizar Cleon. A peça se resume à luta entre Panflagônio
(Cleon) e um salsicheiro que, segundo os oráculos, seria o sucessor do demagogo
no poder de Atenas. No agón entre o salsicheiro e Panflagônio, desenvolve-se
uma corrosiva crítica aos sistema democrático de escolha dos governantes.
Críticas, aliás, à democracia é que não faltam n´Os Cavaleiros. Aristófanes
denuncia o oportunismo de Cleon no episódio
do ataque à ilha e o oportunismo dos políticos em geral. Um exemplo disto é o
diálogo travado entre um escravo -uma caricatura do general Demóstenes- e o
salsicheiro. No diálogo, o escravo tenta convencer o salsicheiro de que este
pode e deve entrar na política para enfrentar Panflagônio .
Salsicheiro
Mas, diga-me uma coisa: como é que eu, um salsicheiro, vou me tornar um
político, um líder?
Primeiro Escravo (general Demóstenes)
Mas é precisamente nisso que está a sua grandeza: em você ser um canalha, um
vagabundo, um ser inferior!
Salsicheiro
Pois eu não me julgo digno de tamanho poder!
Primeiro Escravo (general Demóstenes)
Ai, ai, ai, ai, ai, ai! O que é que te faz dizer que não te achas digno? Está
parecendo para mim que tens alguma coisa de bom a pesar-te na
consciência. Serás tu filho de boa família?
Salsicheiro
Nem de sombra! De patifes, mais nada!
Primeiro Escravo (general Demóstenes)
Homem ditoso! Que sorte a sua! Tens todas as qualidades para a vida pública!
Salsicheiro
Mas, meu caro amigo, instrução não tenho nenhuma. Conheço as primeiras letras
e, mesmo estas, mal e porcamente!
Primeiro Escravo (general Demóstenes)
Isso não é problema! Que as conheças mal e porcamente! A política não é assunto
para gente culta e de bons princípios: é para ignorantes e
velhacos!
É interessante o paroxismo desta peça. Foi eleita pelo povo como a melhor
comédia, o mesmo povo que reelegeu Cleon.
As Nuvens: Contra Sócrates
Trecho da comédia "As nuvens", em reconstituição do grupo Atrion
Musicae
Aristófanes foi um autor essencialmente político. A comédia As Nuvens versa, no
entanto, sobre outro tema. As Nuvens foi encenada no ano de 423 ac. De todas as
peças de Aristófanes que chegaram até nós, esta foi a de pior colocação. Ela
obteve o terceiro lugar, fato que desgostou o autor por muito tempo. A peça
tinha como objetivo atacar o filósofo Sócrates.
Sócrates tinha 47 anos quanto esta comédia foi encenada. Aristófanes retrata-o
na peça como um sofista. Em As Nuvens, Sócrates se mostra um corruptor da
juventude. Ele toma aos seus cuidados Fídipes, filho de um rico fazendeiro, e
ensina-o a ser corrupto. Já na entrada do fronstistério (colégio) de Sócrates,
Fídipes é apresentado a duas formas de raciocínio, o justo e o injusto. Depois
de um agitado agón, o raciocínio injusto vence a contenda e passa a ser o
mestre de Fídipes.
O próprio título da peça é uma ironia. Aristófanes acusa os modernizantes de
sua época de estarem abandonando o culto aos verdadeiros deuses e introduzindo
o ateísmo ou culto de divindades estranhas como o éter, o ar, a persuasão. Isso
pode ser constatado no diálogo entre o pai de fídipes e Sócrates no momento em
que o primeiro invoca o nome
dos deuses.