A velha da rodoviária

mdagraça ferraz

 

Eu a vi

Juro! Eu vi

Atrás da pilastra,

prostrada na entrada

da rodoviária

Trajes ordinárias

Mãos morenas

de dedos retorcidos

no gesto de eterno

aceno para

o desconhecido.

As pessoas passavam

através dela

Viajantes,turistas,

passageiros - gente

que anda, pula ,move

e conta dinheiro

Gente que sobrevivia

mas não existia

no formigueiro

do meu olhar.

Gente que chegava.

Gente que partia.

Esse tipo de gente

envelheceria

ou, para sempre,

seria

gente que anda, pula,

move e conta augrúrias?

A única coisa viva-

cruel e involutiva-

era a velha

a expor a decrepitude

e o desamor sem pudor

Todos iam

A velha vinha

E mesmo que ela

fosse, também viria, eu

a veria - tão

sozinha!

Extasiei-me

diante da magnitude

daquela sordidez

em meio a

brutalidade

e a estupidez

que se conduz.

Fiz reverência

à autêntica

decadência

cheia de luz.

Pela primeira vez,

sentindo-se observada

o olho de catarata

se moveu.

A velha me olhou

Eu olhei a velha

de esguelha

Ela olhou para mim

Eu olhei para ela

Nossos olhares-

 transeuntes

do  presente fugaz-

captaram-se

no instantâneo

 da paz.

Abandonados!

Tão cúmplices!

Tão amigos!

Desesperados!

Eu olhei a velha

Ela me olhou

Ela era a janela

Eu - a moça -

debruçada

sobre ela-

na espera

do amor chegar

 

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