SIM, SOU TUA

 

mdagraça ferraz

 
 

 

Sim, sou tua

como uma rua que conheço e jamais esqueço

Onde há quem fica e quem passa

Onde há quem mora e quem atravessa

Sou tua como o obscuro ambulante que

fixa com olhar duro a calçada

Sou tua como o pedinte embriagado

passos enviezados - Aparição súbita

Sou tua como os refugiados e como os banidos

de todas as esquinas da vida

Sou tua como os marginalizados e foragidos

de todas as grandes avenidas

Sou tua como a multidão promíscua e inculta

que nasce ,cresce e amadurece na rua

Sou tua na sofreguidão do destino anônimo

de tantos josés, marias, fulanos e antônios

sem identidade e sem registro no cartório

que servem para ser isto: a massa de pancada

O povo- o bode expiatório

a ter a data do velório marcada na encruzilhada

 

Sou tua - Como uma certa rua

Onde há os que vivem, e os que se despedem

Onde há os que permanecem, e os que morrem

Sou tua como o turista, apressado, em viagem

Sou tua como o forasteiro de olhar alheio

para as vitrines da cidade

Sou tua nos palanques agitados, nas marchas

de protesto, no coração do andarilho,

nas procissões modestas, nas armadilhas da noite

Sou tua no cortejo fúnebre, nos despachos,

no tumulto de corpos suados em agito,

no séquito dos oprimidos do grito,

no sofrimento de milhões

de escravos arrastando seus grilhões

 

Sim, sou tua

Como tua é também a rua

que conheço e jamais esqueço

Onde muitos apenas passam...

Onde a carestia varreu a gente

inadimplente que nela habitava

Rua agora vazia de permanência

casarios abandonados e velhos

da beleza triste da decadência

 

Sim, sou tua

Como  parte dessa rua

Como os que partiram dessa rua

Como os que partem

a solidão dos desiguais em partes iguais 

 

 

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