O GRITO  DA  LOBA
MDAGRAÇA FERRAZ



Cala a boca!
Recebi a mordaça
O açamo feriu a língua
Permaneci calada
Coleira no pescoço
Sou um cão hidrófobo
Cão perigoso



Cala a boca!
Permaneci violino partido
concha quebrada
Engoli palavras
mas como um ruminante
elas retornavam a boca
com igual intensidade
Era esta minha linguagem
Vivia mastigando...



Cala a boca!
Voz capturada
Guardei palavras em minhas costas
pesado fardo nos desertos
Sou um cofre enferrujado
chave do cadeado está nos olhos



Cala a boca!
Não calo
Cala a boca!
Corpo mudo
Calabouço
Espírito não subjugado
não dominado.

 



Existe um silêncio em alerta
no meu peito cansado
Uma palavra aberta
não acabada
Estranha essa forma de resistir
Engolir a voz
Comer vento
Roer a gente mesmo
de fora para dentro





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