Ah, tempos....
mdagraça ferraz


Ah, amargos tempos!
Tão pétreos! Da beleza
desgraçada e cinérea
de chaminés magras
e negras - tais velhos
dedos escravos de polé,
fletidos para as alturas,
em agonia , retorcidos...
Dedos iguais aracnídeos;
que arrastam-se fracos,
duros e reumáticos,
junto à bocas caladas
e à corpos estáticos-
iludidos pelos sentidos.
Ando nestas paisagens,
como vadia ensandecida,
a pisar  ossos e carniça
de cadáveres de versos
insepultos e sorridentes.
Ah,Tempos dementes!
E meus dedos vivos
e lúcidos e feridos,
suportam o estandarte-
belo e triste e ridículo-
do Amor e do Lírico...
Aceitam o escárnio,
a maldade e a ironia
com a honra do calvário
Ah, tempos inconscientes!
Meus dedos rogam a Deus
piedade e clemência,
e fecham-se como páginas,
feitas de dez lágrimas,

trigo e água benta, como     
duas fatias do pão ázimo.

 

 

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