| 03 de Março de 1999. | Feital Home Page |
Há alguns meses atrás, arrumando
a minha gaveta de documentos, uma gaveta do meu guarda-roupa onde
guardo todos eles: contas, diplomas, essas coisas importantes
que se perdermos, teremos algum problema para tirarmos a segunda
via. No fundo da gaveta, encontrei um artigo da Revista Veja de
1991, eu era assinante da revista na época. Lembrei no
mesmo instante do que se tratava, era um artigo que eu tinha achado
tão interessante, que eu não poderia perdê-lo.
O artigo era assinado pelo jornalista Roberto
Pompeu de Toledo, por sinal, da família do meu colega Fábio.
O artigo era entitulado "Todo poder aos fantasmas".
Fazia uma relação tão interessante entre
a inflação e o medo dos fantasmas, que eu o recortei
e guardei por muito tempo. O artigo contava a história
de um fantasma que vivia em um castelo, e ninguém conseguia
morar lá, pois ele assustava a todos. Certo dia, uma família
chegou e não deu bola para o fantasma. O fantasma tentou
de todas as formas assustá-la, mas não conseguiu
e foi-se embora, morrendo de vergonha de seu fracasso. A idéia
do artigo era que devia-se ter medo dos fantasmas naquele castelo,
assim como nós devíamos ter medo da inflação,
coisa que não acontecia com os brasileiros naquela época:
inflação de 5% ao mês, "tranquilo",
diríamos naqueles dias. 10% ao mês, "normal".
50% ao mês "o que podemos fazer, nada !!"
Nesse dia em que encontrei o documento, (como
disse, encontrei-o há alguns meses atrás) achei
que já estava na hora de desfazer-se do mesmo, pois a inflação
era assustadora, mas uma coisa remota, do passado, nunca mais
aconteceria. O artigo continuava brilhante, mas falava de um assunto
que não fazia parte do nosso dia a dia, a inflação.
Porém, uma pergunta inevitável surge: "A História
se repetirá?" Será que após anos de
inflação controlada, estávamos apenas em
um sonho, e nos acordaram sem nossa autorização?.
Alguns produtos foram aumentados absurdamente. O café aumentou
27%. Como pode?. Não somos um dos maiores produtores mundiais
de café?. Não estou aqui querendo ser humilde a
ponto de acreditar que não exista uma relação,
mas precisamos separar custos, cotações internacionais
e variações cambias da pura ganância de alguns.
Acredito que já sofremos demais (nós,
pessoas com mais de 20 anos de idade, diretamente), com esta história
de inflação. Não quero chegar ao ponto de
acreditar que eu não deveria ter-me desfeito daquele artigo,
após anos guardando-o na gaveta, como um símbolo
de uma época conturbada, muito bem retratada em uma única
página. Não foi fácil desfazer-me do artigo,
mas achei que era a coisa certa a fazer. Também não
será fácil aceitar a volta da inflação,
espero que tenhamos medo dela, assim como aquela família
deveria ter tido medo dos fantasmas.
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