número 2, janeiro-julho 2003
O
mecanismo suíço do relógio biológico de Immanuel Kant em Königsberg, sua
cidade natal e onde ele morreu também, sinistro, em 1804
Poucas pessoas conhecem o verdadeiro Kant. Não
obstante, mesmo sanguinolentos ignorantes podem encontrar refúgio para essa
abominável incoerência vendo (e de preferência revendo várias vezes) About
Schmidt (EUA, 2002) de Alexander Payne. Mas não desenvolverei este
ponto, não farei associações, sou um merda, foda-se. Por uma razão qualquer,
me interessa pensar quantas vezes o jovem Kant (pois temos a tendência de
imaginar que só existiu um único velho e ranzinza Kant durante toda a sua vida
mesmo sabendo que isso foi insuficiente para torná-lo um único e velho e acima
de tudo ranzinza Kant para todo o sempre), na medida em que envelhecia em seus
passeios junto às aléias e aos cogumelos psicodélicos, pode ter se
confundido consigo mesmo, pode ter amado e agradecido seu reflexo impresso
tediosamente na poeira e nas flores, acomodando-se à sua própria imagem e
semelhança como um herege, erguendo sua estátua da mesquinharia para com o
mundo ou - o que é infinitamente mais grave e importante que o mundo - para
consigo mesmo.
Isso não importa. Não, importa sim, na medida em que esse jovem Kant, esquecido na bruma, corroído pelo silêncio, pela ascese e pela profissionalização de filósofo, é definitivamente soterrado aos 57 anos, definitivamente morto para a história, absolutamente ressurgido e transmutado no homem que põe o último ponto parágrafo na Kritik der reinen Vernunft, em 1781. Ó Deus, ó Vaidade nas Trevas, quanto tempo um miserável pode olhar um espelho sem fazer o mea culpa que o livraria da história, rasgaria seus manuscritos, comeria a cabeça de seu cachorro, engomaria seu criado-mudo?
Há muitas espécies de glória. Max Weber [Die Protestantischen Sekten und der Geist des Kapitalismus, 1907] nos ofereceu um panorama horrível da existência num futuro distante, um mundo habitado por congregações, fanáticos religiosos decidindo a sorte de comerciantes inocentes, desenvolvendo sabatinas surreais e minuciosas, sectarismos, chantagens, clãs, grandes concentrações de capital, todos vivendo e conspirando nos Estados Unidos, numa América intolerante, auto-excludente e má. Mas a ficção-científica, ainda que descreva um mundo razoavelmente possível no futuro catastrófico, não é capaz de informar uma ética para o presente, nem de criar argumentos suficientemente seguros para mudar suas estruturas. Incapazes de sentirmos medo com isso, imaginemos então o jovem Kant suicidando-se ao ser obrigado a contemplar eternamente as flores e os cogumelos. A vida de um jovem funcionário do estado prussiano não pertence ao mundo mas a um breve exercício de memória coletiva - "quando aqueles que me conheceram e sobreviveram estiverem mortos, minha vida não terá existido, nem mesmo para mim". É como se sua vida não tivesse sido necessária, Kant, você morreu antes do que era esperado - o que também não faz diferença - mas quem foi que disse que se você sobrevivesse, se tivesse escrito sua principal obra aos 57 anos, você teria alguma importância? Este primeiro ponto é o primeiro que fornece uma base segura para nos proteger de toda a violência, de todo sectarismo, de toda sociedade, de todos os malefícios das grandes potências, de todos os impostos injustos, de toda manipulação política, de toda reflexão ordinária, de toda lei absurda, de todas as pessoas que querem nos esquecer, de toda mais-valia, de toda pobreza e riqueza, de toda ascese, de toda confissão, de toda loucura, de todo empreendimento, de toda força, de toda margem, assim como o seu relógio interno funciona para o mundo vivo enquanto você não está mais nele, nem no espaço da memória dos outros, apenas uma impressão deixada para trás, só recuperada quando o homem não lamenta a perda daquilo que ele não conhece não pode nunca conhecer e não conhecerá jamais.
Rafael Viegas