número 1, março-julho de 2002
O
Abraço da Baguette
Qualquer cultura civilizada, acredito eu, possui os
mais diversos paradoxos sociais, que tendem por definir sua identidade. Não são
as similitudes, mas as diferenças entre estes paradoxos que tornam cada cultura
atraente e ou repugnante para os olhares exteriores. Entretanto, e
paradoxalmente, pode ocorrer que uma determinada cultura não se dê conta de
seus próprios paradoxos. Exemplificando,
posso citar o paradoxo da baguette na nação francesa. Mais do que um
paradoxo, a baguette francesa simboliza algo próximo do famoso e enigmático
monolito negro evocado no filme 2001, uma Odisséia no Espaço. Nada pode
macular este símbolo austero da independência, soberania e do savoir-faire que
só o povo francês domina : a arte de fazer e transportar uma baguette. São
muitas, de campanha, a l’ancienne, d’epis, de cereais... porém são todas
francesas e deliciosas !!!
Como também representa o corpo de Cristo, o pão tem o
valor religioso e nada pode contaminá-lo. Assim, nada isola o contato do
sagrado pão e a mão de quem o transporta - aquele que esta tocando o
corpo de Cristo. Neste caso, temos a libação máxima entre o
símbolo sagrado do corpo de Cristo e o devoto que irá partilhar este
corpo com seus companheiros. Por isso, a baguette circula imaculada entre
as diversas mãos dos diversos homens, desde sua fabricação até a mesa da
ceia. E quando o assunto é a baguette, tudo toma outra dimensão. Todos
os automóveis param em fila quádrupla bloqueando o trânsito em frente à
padaria para que o homem possa comungar com seus próximos. A moeda que paga a baguette
passa da mão do homem para a mão do sacerdote padeiro que, imediatamente, com
a mesma mão, tende o cetro-cereal ao seu irmão devoto. E digo, não há apenas
o lado religioso presente neste ato. Existe o lado útil de se possuir uma baguette
entre as mãos. Ao estender a baguette, podemos tocar o próximo, num ato
de carinho e amor, quando desejamos criar um espaço, onde não há, ou mesmo
num momento de tristeza ou solidão : temos nossa amiga baguette.
Cito esta tarde fria de janeiro : ao sair do metrô, percebo que há uma
linda jovem apressada que deslocava repetida e nervosamente os demais
transeuntes com o objetivo simultâneo de aquecer suas belas pernas (que
contavam apenas com uma econômica mini-saia) e ganhar a porta da padaria do
outro lado da praça. Ora, o desejo de comungar era evidente em tal jovem
virginal, por isso compreendia seus atos desmedidos. Aquilo atirou minha
curiosidade e lancei marcha em direção à mesma padaria. Uma
vez tendo alcançado o templo do trigo, engajei-me em uma fila e aguardei
minha vez, do que a jovem devota privou-se, uma vez que seu ardor suplantava
aquele dos demais. De posse de três baguettes a jovem não teve escolha,
lançou um grande abraço e apertou a santíssima trindade contra seu corpo
carente do calor e de conforto divinos e ganhou a rua com uma marcha mais tranqüila,
porem extremamente concentrada, como se estivesse atuando como uma verdadeira
guarda-costas, velando sobre a segurança e destino das divinas baguettes.
Ao aproximar-se do ponto de ônibus, percebeu que suas mãos encontravam
ocupadas e que não poderia alcançar a sua pequena bolsa e pegar seu bilhete de
ônibus. Não hesitou : repousou cada uma das três entidades sobre o
assento do abrigo do ponto de ônibus e cuidadosamente pegou seu bilhete na
bolsa. Infelizmente, ao recuperar suas baguettes, uma escapulira de sua mão,
rolara sobre o assento e caíra no chão, passando por cima de uma antiga poça
do que podemos chamar : a cerveja deixada outrora por um notívago solitário.
Num ato semelhante ao de um gato, retirou a baguette do chão e
restabeleceu a santíssima trindade, agora mais do que nunca indissolúvel,
entre seus braços. Perdi de vista a bela jovem no momento em que todos subiram
no ônibus, mas uma vez dentro, pude observar que nos braços da jovem, agora
sentada, uma das baguettes tinha um pedaço a menos e que este já se
encontrava entre seus dentes. E a dúvida!!!!??? Será que foi a que caiu ???
Não sei. Entretanto, gritei dentro de mim : voilà Deus está agora
em si, Amem !
Marcelo de Pádula