número 1, março-julho de 2002

 

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Estado de Greve
(memórias interrompidas por tempo indeterminado)

Desde quando o meu irmão foi morar na casa dele, estou sem computador, e por isso já faz séculos que não escrevi mais nada. Como agora, eu bem poderia ter anteriormente escrito em qualquer lugar, mas gosto mesmo é de ficar catando milho com o meu dedo indicador direito, somente ele, para que quando estiver cansado, eu possa continuar com o dedo esquerdo.


O problema aqui é a mão, - pelo fato de que não tenho a habilidade de escrever com a mão esquerda. Só me resta uma opção. Só a metade pode escrever, e talvez por essa lógica eu acabe escrevendo bem menos que o normal. Talvez também fosse interessante eu fazer um curso de escrita canhota para não canhotos. Não, não, acho que não...


O que é o desperdício de tempo, é ainda agora mais jogado fora do que nunca. Justamente quando estou há trinta dias sem ir na minha querida UERJ, em que tudo poderia ser mais que maravilhoso, é que não tenho o objeto do meu passatempo predileto. É, e o que acabo de me dar conta, é que essa falta de computador vai se tornar um inferno! Depois, vou querer um dia colocar o que estou escrevendo à mão no computador, e poderá ser bem chato eu não conseguir entender a minha própria letra. Não digo nem o sentido das coisas, pois isso eu não entendo em grande parte, e já me acostumei há muito tempo.


Escrevo coisas, muitas para mim ininteligíveis em termo de conteúdo (isso foi um bom exemplo). Em relação à forma, sou completamente analfabeta. Há um tempo atrás eu bem que pedia para o Rafael dar uma "acertada". Ele só fez isso nos três ou quatro primeiros textos das minhas memórias, depois, ele passou a dar a desculpa falando que tem muita coisa para fazer para o André, o seu querido orientador.


Fingi que acreditei. Às vezes sou tão perversa que consigo fazer que as pessoas acreditem que um favor que peço é obrigação. Pelo menos o Rafael finge que acredita nisso, para talvez me deixar mais feliz ou com sentimento de culpa.


Quem sabe, por pura maldade vou qualquer dia desses pedir-lhe que corrija esse texto manuscrito. Ele vai dar um ataque. Talvez por puro cansaço de tanto eu aborrecê-lo, ele acabe cedendo... me sinto diabólica.


Um elemento do mal sairá agora para tomar banho e ir no mercado às compras. Memórias interrompidas por tempo indeterminado.

 

Cristina de Pádula

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