número 1, março-julho de 2002
Importância da Volume
Senhores, a revista volume é importante por que disserta sobre assuntos importantes. Este texto serve para provar a importância da volume.
Devemos pensar não o que queremos ou o que não queremos, mas o que é importante, e agora, meus queridos, vou expor a vocês meu pensamento sobre uma coisa muito importante, a coisa mais importante de todas, mais importante do que qualquer coisa. Sinto que essa coisa é mais importante que a coisa mesma, mas sobrevém daí um problema. Se essa coisa é mais importante do que a própria existência da coisa mesma, então ela não pode ser uma coisa. Será que a importância absoluta não permite ser ela mesma coisa? Ou será que as coisas não se permitem ser muito importantes?
Será que todas essas questões são realmente importantes? Eu não deveria ignorá-las, já que elas não me levam a coisa nenhuma? Mas se eu não encontro coisa nenhuma, então será que estou encontrando a essência da importância mesma, que independe de qualquer coisa?
Eu disse que exporia meu pensamento sobre a coisa mais importante. Essas questões são pensamentos meus, é a própria dinâmica de meu pensamento, seu movimento desejante. Mas elas colocam justamente o problema de como é possível achar a coisa mais importante e daí pensar sobre ela. Estes pensamentos são então um meio para chegar ao pensamento mais importante. Mas será o pensamento sobre a coisa mais importante o pensamento mais importante? Se a importância mesma não é uma coisa, o pensamento sobre a coisa mais importante não deve ser também o pensamento mais importante. O pensamento mais importante é provavelmente o pensamento sobre o pensamento, assim como a importância mesma é a importância que se importa somente com si mesma, e a coisa mais importante só pode ser a coisa que coisifica a si mesma. Mas se todos esses elementos estão isolados em seu movimento interno, seu movimento mesmo, o pensamento não chegará a importância de nada, só a de si mesmo. Mas se ele está assim tão isolado de tudo, então ele não é importante, para começar, porque ele não é importante para a própria importância, muito menos para as coisas mais importantes. Logo, o pensamento mais importante não é importante. Logo, não vale a pena pensar. Logo, vou terminar por aqui.
Podemos chamar essa impossibilidade do pensamento de dúvida hiperbólica da importância. Mas se eu terminar com essa dúvida, não conseguirei provar o que pretendia desde o início, a saber, provar que a Volume é uma revista importante, além do que, diga-se de passagem, não poderei escrever nunca mais na minha vida, nem coisas importantes, nem o contrário.
Na verdade, posso dizer que a Volume é a revista mais importante de todas as que existem na internet, ou ainda, mais que todas as existentes na história das revistas da humanidade, e principalmente, na história da importância das revistas para o mundo, na história da importância dos assuntos importantes abordados nas revistas, na história da importância que as revistas tiveram para tais assuntos importantes, na história do conflito entre a importância dos assuntos com a importância das revistas que se servem da importância dos assuntos, e até, na importância de toda a história da importância de todas as revistas importantes que se importaram com assuntos importantes.
Na verdade, no fundo de tudo isso, precisamos constatar um fator básico, simples e direto, embora não evidente: a noção de "importância" não está fora de um acontecimento importante que surgiu num determinado momento da história, ela não é já dada, e não independe de um condicionamento prévio do que seja ou não "importante". Assim, a "importância" só passou a existir quando algumas pessoas, num determinado contexto sócio-econômico-existencial, tiveram a necessidade de atribuir importância a alguma coisa. Se fizermos a genealogia da noção de "importância", poderemos descobrir qual foi o momento da história em que não só a "importância" apareceu, mas também poderemos afirmar, obviamente, que esse momento foi o mais importante, foi ele que permitiu à história se tornar importante, foi ele que tornou importante o estudo da importância da história, foi ele que iniciou uma onda de "revistas importantes" sobre assuntos importantes da história. É a partir dessa importância originária que poderemos provar como e por que a revista Volume é a revista mais importante.
O leitor pode estar desconfiando da pretensão deste editor, mas podemos provar, aqui e agora, neste texto mesmo, nesta introdução à nossa genealogia, porque podemos provar que a revista Volume (escrevi erradamente "Vomule", adiante analisarei a importância desse lapso) é a prova concreta de ser a revista mais importante da história. Elementar: nunca nenhuma outra revista (temos provas disso, em nossa pesquisa genealógica) escreveu sobre a importância originária. Só esta revista, só este texto, pela primeira vez na história, abordam esse assunto, que é, evidentemente, (isso não precisa de prova) o assunto mais importante a ser abordado em uma revista. Logo, a revista Volume é a revista originária, ela é a única que não esqueceu o Ser da importância que se deu (geben, de es gibt), ocorreu, existiu no momento originário do advento da importância.
No fundo do fundo, no fundamento infundado do fundo do fundo, constatamos, aqui e agora, que esse momento originário não se deu num passado distante, pois a noção de história aqui não é cronológica (que é uma idéia de história que retira a importância da mesma), e sim a importantológica, que é a noção mais importante possível que possa haver sobre a história. Logo, o momento originário é agora, só agora adveio o Ser da importância porque só agora uma revista se deu (geben) conta da importância originária, portanto, só agora adveio uma revista verdadeiramente importante, que é essa, a Volume. Esse dar-se conta do ser da importância é a ocorrência mesma da importância ontológica enquanto tal. Se a importância originária é agora, e se o tempo importante não é cronológico, então é o momento do dar-se conta que influencia a importância de todo o passado da história, toda a importância do passado, toda a importância de todas as revistas importantes. Logo, nem vale a pena fazer a anunciada genealogia, muito menos analisar o lapso que ocorreu, pois é o passado (ou o futuro, o que é mais fácil) que deve fazer a genealogia do nosso dar-se conta, e não o contrário. Logo, todo o problema do pensamento importante não ser importante – a dúvida hiperbólica da importância – que discutimos anteriormente, deixou de ser importante, porque só agora encarnamos a importância mesma do pensamento e da própria importância neste instante, aqui, na Volume, e essa encarnação tornou qualquer dúvida a respeito da importância de nosso pensamento desimportante, já que ele é – não há dúvida – o que há de mais digno de ser pensado, o pensamento mais importante na revista mais importante do momento mais importante.
Logo, você não pode deixar de ler a revista mais importante da história, da internet, do universo, do ser e, de quebra, do Brasil.
Eduardo Guerreiro