número 1, março-julho de 2002
Entrevista1 de Urso Pardo2 a Cristina de Pádula -
Zoológico do Rio de Janeiro, concedida em 1 de maio de 2001
CP: Senhor Urso Pardo gostaria de saber como o senhor vê e considera o fato do seu aprisionamento?
Senhor UP: Antes de qualquer coisa, gostaria de deixar bem claro que não cometi crime algum. Vivemos numa sociedade em que os direitos humanos não ultrapassam os limites, ou melhor, as grades de um cárcere privado. Nós animais selvagens ainda não podemos usufruir dos direitos humanos.
CP: Então o senhor se considera inocente? É engraçado que no nosso país mais de 80% de seres que vivem em cárcere privado se consideram injustiçados. É como o Senhor se vê?
Senhor
UP: Me considero mais ou menos inocente. Sei que sou selvagem e que a nossa
sociedade não abre espaços aos enjaulados pela diferença. Admito já ter
comido uns 3 ou 4 braços de criancinhas, mas isso só aconteceu por estarem
invadindo o meu pequeno espaço. Sou um injustiçado, pois não tive escolha.
Vejo-me como um grande Urso de meia idade, decadente e sem alma, sem esperança
na jaula em que vivemos.
CP: Mas toda essa falta de esperança que o senhor tem, por acaso não terá a ver com os seus problemas de saúde?
Senhor
UP: É possível...
CP: O senhor se incomoda se continuarmos a falar do seu problema de saúde?
Senhor
UP: Não é uma coisa muito fácil para mim. Muitas vezes não consigo ter
uma visão clara da minha situação. Ás vezes fico pensando se o meu problema
não é simplesmente um distúrbio muscular ao invés de neurológico como os
veterinários dizem.
CP: Mas qual é exatamente o seu problema, senhor Urso?
Senhor
UP: Tenho uma tendência a repetir um mesmo movimento. Sempre quando acordo,
começo sem parar até a hora em que as minhas forças acabam, a repetir o mesmo
movimento. Na verdade fico compulsivamente entrando e saindo da minha casa para
o quintal da jaula. Por exemplo, mesmo nessa entrevista, como a senhora pôde
ver, eu não consegui parar um instante se quer.
CP: Mas o que os veterinários dizem a respeito desse seu problema?
Senhor
UP: Dizem muito pouco. Parece que já desistiram do meu caso. Não podemos
esquecer que os veterinários representam e estão trabalhando para uma Instituição,
e não para os ursos de uma maneira geral.
CP: Mas o senhor não acredita no trabalho que os veterinários desenvolvem?
Senhor
UP: É uma questão difícil. De certo modo os veterinários são tão
injustiçados quanto nós ursos. O sistema não disponibiliza os instrumentos
necessários para que um profissional realize seu trabalho eficientemente. Não
consigo me apresentar dignamente ao público visitante do zoológico. Por
exemplo, cheguei a fazer análise por três meses, mas não tiveram como manter
o profissional me atendendo, havia casos mais graves. Nesse ponto, gostaria de
alargar um pouco essa reflexão e que não se pensasse somente no meu caso. É
importante que se veja também o problema dos elefantes e das girafas puídas e
dos pingüins que em setembro de 2000 estavam praticamente morrendo de calor.
CP: É verdade, me lembro bem como eles estavam em setembro. É estranho, realmente hoje eles não estavam mais lá, o que terá acontecido?
Senhor
UP: Prefiro não comentar o caso.
CP: Mas o senhor não acha de isso deveria ser levado à opinião pública?
Senhor UP: Já disse que prefiro e não vou comentar o caso – (ele respondeu rispidamente).
CP: Está certo senhor Urso, me desculpe, mas podemos então continuar com uma outra pergunta?
Senhor
UP: Pois não.
CP: Como venho podendo observar nessa nossa entrevista o senhor parece ser um animal bem doce, e somente nessa última pergunta o senhor se exaltou e se tornou mais selvagem. É possível que eu entre na jaula para nos aproximarmos mais, e quem sabe o senhor me mostrar a sua casa?
Senhor
UP: Sinceramente não acho uma boa idéia. Necessariamente eu teria que devorá-la, e a senhora não poderia assim publicar a entrevista.
CP: O senhor, portanto, devora todos que entram na sua jaula?
Senhor
UP: Geralmente sim. É talvez o único instrumento de afirmação da minha
individualidade enquanto único urso pardo deste zoológico. Preciso me colocar
politicamente. Mesmo numa situação tão precária.
CP: O senhor acha que os visitantes enxergam sua situação? Como o senhor se relaciona com eles?
Senhor
UP: Não consigo perceber muito bem a que nível vai o interesse dos
visitantes na minha pessoa. Por exemplo, nesses anos todos só hoje alguém se
disponibilizou a fazer uma entrevista desse nível comigo.
CP: Então o senhor acha que não há muito espaço, quero dizer um campo de interesse ou ainda melhor, um olhar cuidadoso a respeito dos ursos pardos?
Senhor
UP: Não vejo que exista interesse em alguém que não caiba fora de uma
jaula. Pode parecer redundante, mas não há lugar para aqueles sem lugar.
CP: Mas todos os ursos pardos não poderiam procurar formar grupos? Ou ainda: o próprio espaço Institucional do Zoológico não poderia de algum modo ser aproveitado como um espaço de se criar um lugar?
Senhor
UP: Sem dúvida já pensei nisso muitas vezes. Posso dizer que tenho um
lugar, aqui se tornou o meu lugar. Sei que tenho outros companheiros mesmo que
em jaulas diferentes e de espécies diferentes. Muitas vezes falamos até a
mesma língua. A proximidade nos fez tornarmos irmãos. Mas isso não
necessariamente torna as coisas muito mais fáceis.
CP: E como o senhor vê a saída, uma outra possibilidade de encontrar um novo lugar no mundo?
Senhor
UP: Eu nasci aqui. Tenho esses trinta metros quadrados disponíveis para
viver. Isso me foi dado. O resto tem que ser conquistado. Talvez essa minha doença
seja pela angústia de querer acreditar no que está lá fora. - Veterinários, levem-me por uns poucos instantes para um
outro lado! Contem-me mais como é lá na floresta...
Agora
pensei que talvez eu sempre tivesse sabido a saída: será que nesses meus
movimentos repetidos, a entrada na casa e a saída no quintal - que tem uma
vista para fora -, eu não poderia sempre me surpreender com algo novo?
CP: Obrigada senhor urso. Pretendo voltar para continuar a entrevista.