janeiro-julho 2003

vol(2)me

 

Máquina 

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Fome de Gol

 

 

Falta de inspiração. Quase todos os monumentos artísticos do mundo tiveram como causa a falta de inspiração ou a necessidade de lucro - ou somente o desespero de que, se alguma coisa tinha de acontecer, então foda-se. Nós não estamos encaixados em qualquer destas situações. É tão somente a moda que dita os preconceitos gerados por Volume, diabolicamente em sobrevida neste seu segundo número. Em sobrevida mesmo, porque agora já não existe aquele entusiasmo juvenil em que os articulistas se encontravam para definir os rumos de sua maioridade intelectual. Bernardo Bolinha continua teimando em não participar da nossa revista, convencido de que seu projeto próprio, DBeatz, uma revista de artigos musicais, do samba e do pop até o contemporâneo, vai dar certo. Certo pra quem, cara pálida? O mundo muda muito rápido, os interesses gerais e específicos, como a Terra no espaço sideral, estão sempre há centenas de quilômetros daquilo que era o seu ponto inicial. 

 

Só a moda e o desejo de fama permanecem. Isso explicaria uma tão malfadada escolha por parte dos editores de Volume quanto esse "Máquina e..." proposto aos articulistas. Por que "máquina"? Uma decisão difícil, uma derrocada anterior ao tempo? Uma destruição dos conceitos de vida e humanidade? Nãããããão. Volume está agora direcionando suas baterias e cargas de repetição para o que é moda: "- O mundo não gira? -Gira! -Então esperamos que Portugal passe por aqui". Sebastianismo de última hora, imposição das leis do marketing. Afinal, bioética, informática, valores tecnológicos, clonagem, soam tão essenciais hoje como a camisa branca da Hering - ela pode estar embaixo do blazer do Cônsul Geral da França ou tão-somente vestir a pele do paciente em coma profundo e irreversível. Em ambos os casos, ela não significa muito - apenas o essencial.

 

Na verdade, o tema "Máquina e..." foi sugerido a partir de um curso de Ana Alencar, numa disciplina eletiva de pós-graduação no departamento de Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da UFRJ: "O Conceito de Máquina na Literatura". A máfia que controla Volume acreditou espertamente, com esse tema, que pudesse já ter um número certo de textos pra publicar usando os que foram escritos para os seminários, dados pelos alunos do curso. Uma jogada que não é das mais estúpidas, levando-se em conta a quase inexistência de autênticos articulistas neste número (Guerreiro, Viegas e Estevão Freixo, aquela mesma merda de sempre, não contam). Com essa estratégia, os textos cairiam do céu, como as bicicletas montadas por anjos dos velhos surradalistas - mole, fácil e seguro. Mas não é necessário procurar muito para perceber que esses textos não existem, que o número de artigos diminuiu drasticamente, que Volume dá sinais de colapso interno. Eu escrevo este editorial confiante de que tudo dará errado, que ninguém terá tempo para considerar as propostas defendidas pelos editores, que finalmente poderei tirar minhas férias em novembro, como tinha prometido à minha mãe.

 

Deixando de lado esses problemas absolutamente sem sentido, eu tenho um bem mais sério. Estou seriamente incapacitado de seduzir mulheres. Eu não sei porquê, talvez esteja suando na hora errada, talvez eu faça uma cara inevitável de mim-mesmo - o espelho me inverte e não consigo perceber o real alcance da minha feiúra, ainda que passe horas diante dele procurando defeitos em todos os meus sulcos e tecidos. Talvez eu devesse escovar meus dentes com criolina, talvez eu tenha falado merda demais na hora em que se deve ficar sério para enganar. O fato é que não consigo comer ninguém há muito tempo. Medito sobre este assunto diariamente. Pode parecer ridículo, mas eu acho que estudar grego antigo me facilitava as coisas. Não que eu aplicasse as regras de gramática grega ao relacionamento humano, nem que dissesse nos salões pequeno-burgueses que eu estudava grego, só pra brilhar e tirar uma onda com a cara dos semi-analfabetos artistas plásticos e músicos que tocam por cifra as músicas da Bossa Nova, do Tropicalismo e, agora é moda, Samba de Raiz. Samba de Raiz é o caralho. Não, eu estudava grego porque eu estava de bem comigo mesmo. Aquilo emanava uma força aniquiladora, que regurgitava em meu peito e tornava meus nervos mais próprios aos movimentos da sedução e do amor. Com o grego, vieram também o jazz e a poesia de Tristan Tzara. Do jazz partiram duas vertentes psíquicas: uma veio descambar no gosto pela arquitetura contemporânea de igrejas; a outra, promoveu um fascínio por estantes fixadas na parede sem cantoneiras. Da poesia de Tristan Tzara vieram as séries de números transfinitos, um gravador de ondas curtas. Com esses elementos, somados à minha capacidade de cozinhar miojo com elementos reconsiderados, eu me dei bem. 

 

Meu reinado durou pouco. Quer dizer, pouco em relação ao que foi meu tempo de escravidão total. Agora, com Volume, estou recuperando parte dessas energias que ficaram à deriva. Minha concepção antropológica, creio eu, está essencialmente ligada aos elos psíquicos que unem as mulheres aos livros, uma coisa que ainda não havia percebido... Viu só, é sinistro isso, eu me debato, me contorço todo e, mais uma vez, de alguma forma, legitimo minha perda de tempo escrevendo aqui. Como Donne, que via na Igreja uma fêmea isolada no abismo da doença que corrói o prepúcio do ator desengonçado pela placa de silício do megacomputador, eu retorno confiante ao meu trabalho e me estrepo todo pensando no que vou fazer depois de amanhã, pra poder almoçar outra coisa.

 

Eu fui contra esse tema por causa disso. "Máquina e..." não dá conta do que pretendíamos, enquanto revista minimamente revolucionária. Volume era pra conter elementos mais políticos, que atuassem no meio da sociedade e gerassem nela elementos de crítica e mobilização. Não há como negar que esse tema é burguês demais, peraí! Na verdade, Volume diminui minhas energias sexuais porque não fornece elementos que revigorem os laços simbólicos unindo o intelectual e seu mestrado ou seu doutorado, ou mesmo o acadêmico e sua jazida de periódicos, seu clube de fotografias pedófilas, sei lá o que mais poderia conter o cérebro de um desgraçado pago pelo governo. Volume está me sufocando. Tem de sair esse maldito editorial sobre "Máquina e...", preciso escrever esta porcaria antes que atestem minha letargia e meu fracasso, mas não adianta. Eu estou sexualmente morto, acabado, fim. Vejo essa roda girando em cima do tamborete e sei que não vou chegar a lugar nenhum. Pra falar a verdade... deixa pra lá.

 

 

Há mais de três meses sem comer ninguém, me ajudem!

 

Izesuq Kilistoq

 

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