É outra coisa (,) ainda que só isso!
Já é passado um bom tempo desde que escrevi à espera de sua resposta. Volume,
afinal, se acumula na própria eliminação mútua: eu e você, brincando de nos
situarmos na mimese da negação do outro. Volume é, ironicamente, um
nada que se expurga. Parece mera bobagem retórica – e é, de fato, embora se
atente para que boa parte da reconstrução histórica do Ocidente não passa de
erro e fantasia: a reconstrução da ópera no barroco (“segundo” a tradição
grega), a teologia trinitária (especulações do IV século, que nada têm em
comum com o passado no qual diz deitar suas raízes), a teoria do flogisto etc.
etc. etc. O que então me leva a retornar a este assunto já fastidioso? Em
primeiro lugar, você me conta sobre os novos entusiastas de Volume –
sob um orgulho prosélito que me causa um estranhamento imediato. Além disso,
vem-me incontinenti um certo incômodo pela sua linguagem, ressentida aqui e ali
de uma sexualidade muito pouco abscôndita para ser legível duma hermenêutica.
Creio, porém, que uma coisa implique em outra.
Todo texto é uma potência que exige um ato, isto que é o leitor. A prática, pois, da enunciação do desejo não está em correspondência com a realidade, não é imediata. A diferença exige que o desejo se faça na discursividade, a não ser que se ponha em seu lugar o silêncio absoluto – em última análise, a eliminação do próprio desejo produtor. A guerra discursiva de que você fala – ou diz falar [Isso não é o não!, Volume nº 0, editorial do dia 18/06/2000] – não é evidentemente a minha. Há mais idiossincrasia na verdade dos seus pressupostos do que distanciamento objetivante e comunitário. Além ou aquém da teoria, esses pressupostos, seus, estão claramente correlacionados com uma retórica sexual, no caso aqui, homossexual – o que não deixa de ser estranho. Não digo, porém, que seja o caso de denunciá-lo(?!!), apenas que a retórica em uso deixa espelhar tal juízo:
“fantástica simultaneidade de papéis” para completar com “guerra discursiva”, “guerra não-física” que traria tão somente o “benefício da discussão”;
“dedicação ao próximo”, “companhia do companheiro” que leva ao “trabalho de nos situar ao nos atingir [grifo meu]”;
"continuarei
afirmando nós, sem deixar de me afastar da ilusão de unidade do
outro”, o que leva a “fazer de nossa intenção uma
moralidade”;
“eu
só preciso do meu nós para multiplicar minha falsa unidade”;
“expor a fantasia ao outro é realizá-la no olhar do companheiro” tese que, em se desenrolando, vai “realizar sua exposição e introduzi-la no horizonte de desejo do outro”;
Após
tantas evidências, tomo pois as afirmações posteriores com nuances
diferentes do que você mesmo desejaria deixar supor: qualidades e
“fantasias narcísicas”, por um lado; “alguém como eu [você], que
assume uma posição, sem poder ser atingido”, por outro.
Evidentemente, o quarto ponto de sua resposta [“Moral da História”] não ignora uma órbita complementar dessa mesma retórica nauseabunda:
a
metáfora do nome (Eduardo Guerreiro) mancomunada à moral subversiva
do artista: “atitude de escritura mais próxima dos artistas
subversivos”, passo que leva conscientemente à confusão entre guerreiro
e professor [“é minha intenção confundir a posição de
professor e de guerreiro” – grifo meu], em última análise, a imediata
coincidência desses papéis (professor, guerreiro e artista) na composição
do quadro do artífice polemista de Volume. Acrescente-se porém a
virtualidade gay como happening metodicamente elaborado para durar em
presença do tempo.
É inevitável que se pense, pois, observando mais de perto seu texto, na trajetória conscientemente arbitrada de uma sexualidade que habita os jogos da polêmica, bem como os jogos da guerra e da vida professoral – penso poder contribuir com uma breve análise, refiro-me somente à guerra, em meu pequeno texto sobre os corpos batalhadores. Por outro lado, você também se refere ao problema da nossa intenção moral, melhor dizendo, a intenção moral de Volume: “sem fazer de nossa intenção uma moralidade”. Há obviamente aqui um mal-entendido. Moral já é o que se coloca como realidade, no caso, já é da ordem mesmo da fala: impossível não realizar escolhas sem moral, embora a reflexividade sobre a escolha não caiba aos comuns mas ao exercício de poder que os comuns oferecem aos sábios e aos doutos. Com toda essa absurda verborragia pseudo-conteudística nós já estamos fora do domínio dos doutos. Resta, não-éticos, continuarmos morais. É ainda mais curioso que, por trás de toda esta contextualidade, não haja o sinal do bastidor, da nossa composição – para usar um termo cinematográfico que nos é caro – fora do campo, quer dizer, durante o limite da fala, das discussões ab origine, de tudo aquilo que circula (e que se perde) a respeito de Volume e que não se pode dizer que os textos aqui presentes sejam verdadeiros resumos desse debate. Eis porque, contrariamente ao que você pensa, esta discussão está no Editorial in progress de Volume, justamente no nº 0, e não na seção Disputatio – inútil. Os bastidores são obras – na medida em que as reflexões se multiplicam. Torna-se curioso, justamente, o fato do bastidor não aparecer nunca e sim os enunciados idiossincráticos à revelia dessa intencionalidade inicial. Volume, portanto, apesar de não se querer naufragar nas águas rasas da mesmice editorial, se resguarda no puro domínio da m-oral, e não da ética – do código escrito, lei, e de sua hermenêutica.
Sejamos francos, pois. Isto é um exercício e não uma constatação da natureza.
Rafael
Viegas
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