Isso não é o não!
1 - Introdução
Volume é a revolução e a contra-revolução, a reforma e a contra-reforma, o fim da história e a história do fim, o fim da universidade e seu início, e o fim de seu início. Volume, ao contrário do que Rafael pensa, já é, seu Dasein não é só imaginário, é virtual, seu Ser já nasceu, já se avolumou, e neste instante ritualístico da leitura, neste preciso instante em que uma palavra destacada do todo será pronunciada mentalmente no leitor, neste momento fixo, a Volume
Morrerá.
Eis um nascimento. Fantasiar a morte de algo que nem existe é o próprio ato de parturição.
Mas o que nasce agora aqui? O que é isso que aparece quando os dois editores de uma revista que não existe e já nasceu debatem o já nascido e o ainda não existente?
O próprio debate. De-bate que já implica em com-bate: bater o outro na companhia do outro. Vem de combatuo, is, ere: combater, lutar com. Lutar com: aqui a idéia de companhia nem sempre é acentuada como merece.
Vou colocar em arena dois aspectos do combate: a pessoa e o futuro da revista.
2- Primeiro apontamento
O primeiro leva em conta um dos desejos que giram em torno do nascimento da Volume: fazer dela um campo de combate, onde cada guerreiro verbal pode despejar seu prazer de atirar no outro em companhia do outro: uma fantástica simultaneidade de papéis que só pode existir numa guerra discursiva, não-física. Deixar ser atingido, nesse caso, não é mais do que agradecer a atenção da companhia do companheiro, que ainda se dá o trabalho de nos situar ao nos atingir. Não há prova maior de dedicação com o próximo do que dar a seu discurso um lugar.
E aqui estamos, habitando esse lugar: o alvo, o ponto da mira. A partir dessa posição podemos fazer do olhar do companheiro nosso alvo, nossa mirada, e destruir, no ato do ataque, o que nos atinge.
Quando digo na primeira pessoa do plural, posso estar querendo representar um outro, tomar o lugar do outro: isso é o indesejável. Essa é a natureza do discurso moralista: a enunciação em plural daquilo que sempre é plural, o eu, mas que nunca pode ser enunciado como tal, sob o risco de se confundir com o outro. Enfim, o eu é um plural que se enuncia no singular. Sempre uma pluralidade interna se confunde com a multiplicidade externa, e isso deveria ser o que mais se pode aceitar de nossa profunda impessoalidade, e o que mais se pode recusar se for usado para a posse de uma autoralidade que se confunde com a posse da palavra moral, a autoridade.
Mas é esse eu singular, que supõe que o eu do outro também o seja, ele (enunciar a terceira pessoa é um ato de afastamento da enunciação que aqui opero) lê no outro uma unidade quando ataca, porque mira em um só lugar. Se ele se supõe uno para atirar e crê ser uno seu alvo, logo ele só atinge o que é o uno do múltiplo, o meu eu.
Por isso continuarei afirmando nós, sem deixar de me afastar da ilusão de unidade do outro, e sem fazer de nossa intenção uma moralidade. Digo os outros dele mesmo, os outros de mim mesmo. Rafael precisa de um pseudônimo para afirmar sua multiplicidade. Mas eu só preciso do meu nós para multiplicar minha falsa unidade.
3- Segundo apontamento
Por que enunciar o desejo do que não existe (e nunca vai existir tal como se fantasiou ao se desejar)? Porque expor a fantasia ao outro é realizá-la no olhar do companheiro, seja ele alguém que a partilha, seja alguém que a parte em pedaços na sua linguagem. Não nos interessa a realização impossível da fantasia: o que se torna interessante é realizar sua exposição e introduzi-la no horizonte de desejo do outro.
Nada do que se fantasia se realiza, mas tudo o que o homem realiza vem do imaginário, vem do que se imaginou, claro que vem transformado, e transforma-se incessantemente na sua vida em devir. Trabalhar um plano imaginário, portanto, não é um erro, é examinar as condições de realização de cada ato.
Volume não é uma utopia. Nem está se fundando sobre uma. Nem pode ser caracterizada por ninguém. Ela se caracteriza no seu ser difuso (já estou lhe impondo adjetivações sem o devido cuidado) que a partir daqui nasce. Mas dizer que ela não é o que se diz dela, dizer o não logo ao se lançar uma atividade de escrita é também um moralismo da negatividade, é apoiar-se no ato de negação como garantia contra erros e problemas, pois se de-limita toda a extensão de ação do pensamento ao ato de denegação de tudo o que se pode realizar pelo planejamento, pois planejar é uma atividade inevitável. Dizia Ford: "planejar é prever". Pode-se odiar o quanto quiser esse horrível personagem histórico capitalista, mas eu retiro dessa máxima o veneno que, até agora, não foi convertido em vacina: prever (sem imposições, moralismos nem utopias) é efetuar as condições de realização.
Esse não é, no fundo, um embuste para impor uma norma cujo postulado sagrado é ‘não se afirmar coisa alguma’ e que, por incrível que pareça, é regida por uma extrema afirmação de autoridade prescrevendo a grandiosa metodologia de como se deve não dizer, ou como se deve dizer a partir do não. Isso é um autoritarismo de erigir uma retórica ideal contra defeitos de fabricação das idéias. Pode ter sua utilidade desconstrutiva contra as tão exorcizadas metafísicas, não nego, até aprendi a praticar suas rasteiras relativistas e suas seguras incertezas para despistar as ilusões e crendices intelectuais que volta e meia nos importunam com orações implorantes e discursos inflamados. Todavia, é um fármakon viciante, e se for acionado a cada antecipação temporal estratégica que proponha um habitat de elaboração de nossos agenciamentos, de suporte para o desenvolvimento de nossas qualidades, então ele será, sem dúvida, um lamentável obstáculo para nossos propósitos, mesmo que sejam bem diferentes um do outro.
Talvez tanta confiança minha suponha que nós realmente estejamos impregnados de qualidades e de condições de ação. Nisso não vejo problema. Mesmo que as ditas "qualidades" sejam fantasias narcísicas, todo sujeito só se estabelece a partir de um período narcísico - o estádio do narcisismo é o fundador da função do eu, seja ele uno em sua multiplicidade ou vice-versa. Portanto, para que nossa produção adquira alguma relevância, temos direito a uma dimensão narcísica tanto quanto Herbert Vianna, Caetano ou Leandro e Leonardo.
Não somos nada, ou muito pouco, mas esse mínimo de posses simbólicas merece ser apostado, posto em jogo, manifestado com todo o incômodo e a impertinência de sua potência.
Por isso escrevi em tom de manifesto. Não porque eu seja um modernista, mas porque, como diria meu amigo Chico Bosco, ainda não superamos grande parte dos problemas modernistas, e muito cedo depomos seus instrumentos de luta por acharmos que eles estavam ou obsoletos, ou contaminados de idealismos. Posso responder, diante disso, com a seguinte frase do poeta André Luis Pinto: "copio porque não inventaram coisa melhor". Copio, ou melhor, adoto um tom de manifesto para dar força ao meu desejo e produzir entusiasmo às ressonâncias que meu desejo pode produzir no desejo do leitor e, de preferência, faça ele manifestar também sua singularidade.
Bem mais problemático é copiar uma retórica da negatividade desconstrucionista para se eximir das responsabilidades e cumplicidades que qualquer afirmação exige. Considero esse tipo de depreciação a tudo o que é de fora e isenção de posicionamento próprio o que há de pior no estilo pós-estruturalista apropriado pelos niilistas atuais. A desconstrução derridiana é mais posicionada e menos viciada nas falsas neutralidades, mesmo que se perceba ainda lacunas, e muito o que se desconstruir dela mesma.
3- Professor e o guerreiro
Não nos interessa esse grande nome no momento. Interessa o que outro grande nome, Adorno, coloca sobre o claro distanciamento opositivo entre o guerreiro (hoje poderíamos dizer que é o mocinho dos filmes de ação) e o professor na formação do sistema de valores de uma criança:
"pode-se definir o menosprezo pelos professores como ressentimento do guerreiro, menosprezo que, logo, mediante um interminável mecanismo de identificação, penetra no povo. As crianças em geral têm uma forte inclinação a identificar-se com o soldadesco, como hoje tão bem se diz; lembro aqui com que prazer se vestem de ‘cowboys’, que alegria lhes causa correr de um lado para o outro com seus fuzis ... o complexo total da força física, ambivalente em grau máximo e carregado de afetividade num mundo em que é exercida diretamente apenas nas situações-limite que fartamente conhecemos, desempenha aqui um papel decisivo ... O ressentimento [Rancune] faz com que alguns analfabetos tenham por inferiores as pessoas instruídas assim que estas os enfrentem com alguma autoridade, sem ocupar uma elevada posição social - como a do alto clero, por exemplo -, nem exercer poder social algum. O professor é herdeiro do monge; o ódio ou a ambivalência que despertava a profissão deste passam a ele depois que o monge perdeu em grande medida a sua função."
Este texto, "Tabus que pairam sobre a profissão de ensinar", do livro Palavras e sinais, coloca em pauta a dimensão concreta da condição universitária. Tudo o que é escrito em papers e nos estudos monográficos em geral sempre se colocou acima, de forma completamente imaginária, da luta política concreta, física, bélica, que é própria dos poderes sociais em vigor. Mas a superioridade dessa realidade militar não só possui eficácia absoluta em seu domínio concreto como também influencia o imaginário infantil (portanto primordial) de forma preponderante. Por contraponto, não existe personagem intelectual nas novelas nem nos filmes americanos, e quando há, são sempre ridicularizados como tais, ou , no máximo, dignos de piedade enquanto professores mal pagos.
Toda a labuta mental exercida por um professor universitário é reduzida a nada se a instituição não der a isso um valor e uma posição estatutária. Mas é exatamente isso que o poder físico do estado está tirando da instituição: abaixando os salários e perdendo as condições mínimas de vida, o professor brasileiro, desatualizado da pesquisa internacional e desvalorizado em sua sociedade, ainda é vítima da inveja de um poder que ele nem tem mais, como nos ensina Adorno. Mendigando o estatuto pós-monástico que ainda sobra, o professor ainda estará sendo alvo de desprezo dos analfabetos.
Diante disso, adotar a postura niilista na França e na Alemanha não deixa de ser um luxo de intelectual ainda reconhecido. A partir desse descrédito, pode-se esboçar outra tipologia aqui nos trópicos: a neutralidade. Já que o professor universitário, e menos ainda o mestrando e doutorando, não tem nenhum poder de opinião, já que ele só é aceito na exata medida em que repete o discurso do poder só acrescentando seu rigor superelaborado, suntuoso e no fundo dispensável, ou que repete a oposição já prevista na retórica moralizante, resta aos mais cuidadosos repetir o tão usado refrão jurídico: "nada a declarar". Frase que impressiona perto do que lemos no site de protestos que representa milhões de brasileiros como esse: http://guestbooks.netservices.gr/readgb.cgi?name=euclidesdacunha.
Lá podemos retirar declarações como essa, que são a maioria:
"O POVO CADA DIA MAIS SUBMISSO, FÚTIL, INCULTO E ALIENADO LEVA-NOS À UMA SITUAÇÃO AMEDRONTADORA!!! NÃO HÁ LEITURA, NÃO HÁ CRITICA, NÃO HÁ MELHORA! O GOVERNO NÃO NOS DÁ OPORTUNIDADE DE REIVINDICAR NOSSOS DIREITOS TIRANDO-NOS NOSSA ÚNICA ARMA: EDUCAÇÃO E CULTURA! ASSIM CADA DIA MAIS SEREMOS EXPLORADOS, SUBORDINADOS E FEITOS DE IDIOTAS! PARA A FELICIDADE DOS QUE CADA DIA MAIS ENRIQUECEM SUAS CONTAS NA SUÍÇA! VAMOS BRASILEIROS! FORÇA E CORAGEM!"
Diante do protesto desse cidadão, o que um universitário pode fazer? Diagnosticar essa indignação como legítima por suas posições morais, ou, através de uma minuciosa análise do discurso, ler nele um uso viciado de linguagem esquerdista, que não tem condições de criticar o que pretende por ser uma reação já prevista na mecânica ideológica? Sem contar com um erro ortográfico visível até no corretor do word?
Não ignoro a provocação deste cidadão, nem repito suas palavras. Produzo, como ação provisória, uma espécie de manifesto. Assim mantenho o pathos indignado, a força de vocalização provocativa, mas introduzo também a construção reflexiva, minha pretensa singularidade de pensamento.
4- Moral da história
É mais viável para o universitário que pretende um discurso franco ("Sejamos francos") assumir uma atitude de escritura mais próxima dos artistas subversivos que sabiam como se manifestar sem a dependência de estatutos ascéticos em decadência do que não se arriscar em nada para ter a comodidade de postular que a Volume "Está aberto(a) a todos", "Está realmente aberto(a) a todo mundo. O que vier é o que interessa, e não nossa posição pré-estabelecida do que quer seja uma revista, uma discussão, uma produção, uma publicação".
Na verdade, já se tem uma posição pré-estabelecida do que seja esta revista, mas dizer o contrário é uma forma de apontar as deficiências de alguém como eu, que assume uma posição, sem poder ser atingido.
Assim, esse inimigo tão amigável, afinal é meu companheiro de edição, acaba de ser muito bem atingido. E no momento já planeja uma continuação de nosso querido com-bate.
Assim, ele está me acompanhando sem saber: é de minha intenção confundir a posição de professor com a de guerreiro (o que é próprio do meu nome) , confundindo o distanciamento diagnosticado por Adorno. Aqui, eu e ele estamos nos combatendo para retirar do professor essa aura monástica e procurar desenvolver um aparato retórico que combata e ao mesmo tempo processe pensamento ao medir sua posição com um outro. Essa é a intenção de um manifesto e de uma polêmica logo no início da Volume. Afirmo a guerra textual, que o texto seja um canhão de violência enunciativa.
Não se trata de fazer do teórico um orador público, nem da polêmica um meio de fenecer a criação conceitual por colocar os combatentes numa posição defensiva, motivo pelo qual Foucault dizia que detestava polêmicas (embora tenha alcançado o reconhecimento através de uma contra Sartre). A polêmica produtiva é aquela que incita o desenvolvimento da posição de cada combatente, e que instiga o surgimento de intensidades de sentido. Enfim, que não seja um exercício de defesa, nem propriamente de ataque, mas de provocação de complexidades no próprio texto e no do companheiro.
Eduardo Guerreiro
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