Não é isso!

1.

            Sejamos francos. Os veículos de comunicação funcionam dentro de instituições. Logo, participam de graus retóricos dentro de suas estruturas. Volume pertence a uma delas – a questão é saber QUAL. A propriedade dessa colocação fica evidente quando se imagina o lugar de pertinência do nosso discurso: “estruturação sem forma, arquitetura sem paredes, revista sem preço, texto sem papel, interatividade na relatividade”. Volume, claro, não é tudo isso – mas é interessante demarcar o terreno do desejo e da sua possibilidade.

            Nossos graus universitários sintetizam certas promessas, certas escolhas que acabam se sujeitando, como tudo o mais, em sedimentos da vida ordinária, em papéis a serem vividos por nós, em curiosos raciocínios que usam de nossa subjetividade para coroar nosso êxito ou fracasso no meio que escolhemos. Viver um papel na universidade é quase uma redução fenomenológica, uma purgação do mal inerente à flutuação de nossas escolhas pré-universitárias, uma tomada de posição diante da vida absurda que vivíamos fora dela. Viver nela é aposentar-se da vida em desonra, desmarginalizar-se. Ela é um mundo à parte; no entanto, um mundo que nos condensa o resto do mundo. A universidade constitui a nossa vida para o trabalho e, quando é nela mesmo que se vai mendigá-lo, toda a natureza da questão se decuplica. Por que então imaginar que ela não exigiria de nós um comportamento que é o seu próprio, um sacrifício de vida, uma cegueira que participa da sobrevivência de sua espécie? Sair de lá, quer dizer, sobreviver-lhe, significa eliminá-la por completo – em última análise, porém, significa somente eliminá-la do jogo latente da própria existência, e não superá-la dialeticamente como um organismo macabramente enfermo de si mesmo. No jogo desses papéis, ela exerce sua crueldade sobre nós do mesmo modo que qualquer outra força institucional moderna.

            O que se pretende dizer quando se afirma, na verdade ingenuamente, a suposta  independência acadêmica de uma publicação como esta? Na verdade, o público que temos diante de nós é totalmente nutrido na proteína do campus. Gente que passou por lá, mas especialmente gente que lhe devota toda a sua dependência material. A universidade argúi as nossas práticas e, portanto, ela legitima nosso poder. A universidade é um local de praxis de uma espécie de subjetividade, supostamente laica, até mesmo irreligiosa. Volume se pretenderia uma negação desse status quo: seria porque Volume se imagina o lugar de uma prática ascética?

            Parece tolo, pela envergadura de uma tal tarefa, supor essa ambição. Entretanto, trata-se aqui de uma questão relevante. Existe uma escrita própria ao meio acadêmico, um modo de realizar coisas, princípios éticos, políticas de boa-vizinhança, intrigas, estipêndios, financiamentos, burocracias, um mundo retórico evidente em tudo isto e, conseqüentemente, locais de exercício dessa retórica: há o reconhecimento de livros, de periódicos, de grupos de trabalho, centros de excelência, instituições de ensino, nomes, pesquisadores. Os párias legitimam tanto quanto os fiéis. Quem poderia, em tais condições, escrever para Volume? Ninguém.

2.

            Trata-se, portanto, não de saber onde atacar, mas do quê se defender: trata-se de saber se queremos ser salvos. E, se formos salvos, se rogamos a morte de nossos inimigos. Mas, se formos salvos, que importância terão nossos inimigos? Quem são eles? Volume então está só? Evidentemente. Não há nada aqui, Volume ainda não existe. No momento em que escrevemos isto, é apenas uma idéia em nossas cabeças. Uma boa ocasião se apresenta, pois, para refletirmos sobre o que poderá haver, o que poderia haver e o que, efetivamente, haverá: nosso desejo e sua desconstrução prática através da realidade.

            Pensemos nosso detratores. A medida de seu silêncio é o nosso; na medida em que não somos, eles também não. Conhecemos os inimigos que ainda não nos conhecem. Somos traiçoeiros, decerto; queremos atacá-los antes. Mas supomos a máquina de controle que nos oprime e esta é a razão da nossa intransigência moral.

            Por outro lado, pateticamente, Volume neste momento tem apenas dois nomes, o seu (Eduardo Guerreiro) e o meu (Rafael Viegas), não sendo Izesuq Kilistoq senão um pseudônimo para fazer número no corpo editorial. Geralmente, fala-se de um objeto assim - construído como um petardo explosivo, compacto, como órgão de um manifesto político e/ou estético, na tradição das vanguardas - excluindo-lhe toda a impropriedade psicológica, toda desavença teórica entre seus componentes. Volume, então, é o órgão de um manifesto? Como poderia ser um manifesto se nem eu, nem você, nem Izesuq Kilistoq nos entendemos? Se somos díspares, seja por preguiça ou por diferenças inconciliáveis, quem então fala por nós? Nosso desejo, nossos traumas, que psicologia bizarra comum individual e burra - tão mais bizarra quanto interferente num campo refratário à sua presença - está em jogo quando ocultamos o "nós" por trás de um título e, principalmente, por trás de uma retórica de auto-exclusão de um grupo que leva esse nome, Volume?

Rafael Viegas

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