número 2, janeiro-julho de 2003

 

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Eixo do Mal

 

Com o sucesso do formato vem necessariamente a diluição. O mundo não muda há milhares de anos, a espécie humana é tão pequena que não infere nele a menor diferença, e, na verdade, George W. Bush ignora as mudanças profundas pelas quais o mundo tem passado nos últimos cinqüenta minutos. The Times, World, Life!  Spinoza recorria a um artifício lógico para recolocar o mundo em órbita. Quando algum europeu escroto se dava ao trabalho de sair de casa e azucrinar perto de seu ouvido, o Polidor, com a calma encanecida dos grandes acusadores dizia assim : "mas, na verdade, fulano, você não está considerando as coisas sub specie aeternitatis, como convém aliás, então foda-se". 

 

Esse modo de encarar o óbvio conserva em si mesmo a vantagem de sua desvantagem. Por um lado, quando começamos a contar as coisas do ponto de vista da eternidade, num dado momento perdemos a noção do que estamos fazendo e a inércia nos obriga a recomeçar todo o processo recomeçar todo o processo recomeçar todo o processo recomeçar todo o processo já que não podemos recuperar o que se dá no tempo, que se torna infinitesimal - para cada segundo de tempo teríamos infinitas subdivisões que tornariam todos os acontecimentos irreconhecíveis uns aos outros. Para entrarmos no domínio da eternidade seria sempre necessário um recomeço contraditório onde estaríamos sempre perdendo alguma coisa, de modo a jamais recobrar inteiramente o que quer que seja e nos perdendo na incompletude generalizada, para todo o sempre. Do ponto de vista da eternidade, não poderíamos vagar nas entrelinhas dessas subdivisões eternas, pois cada momento de tempo seria tão subdividido que não poderíamos mais sair de qualquer fração de tempo onde estivéssemos. Neste caso, não nos restaria nada a fazer senão nos ocuparmos com o nada - com a necessária e infinita estabilidade daquilo que só acontece uma única vez -, o que é impossível, e o paradoxo de Zenão - daquilo que nega a existência do movimento se o movimento precisa ser quantificado e isso é impossível -, acabaria por desmaterializar nossa percepção concreta e relativa das coisas, nos afundar na amargura, no tédio, no abandono. 

 

Por outro lado, do ponto de vista da eternidade, os valores devem ser calculados somente em relação a si próprios. Tudo o que existe existe por si mesmo, sempre irradiado pela perspectiva de um vir a ser estagnado pela presença que se deteriora, mas ela se deteriora somente por uma questão retórica posto que não existe fora de si, posto que nunca se repete, portanto não se deteriora nem recomeça nem começa, simplesmente acontece, sendo o corpo inexistente de sua realidade aquilo que poderíamos chamar de "sua vez". Do ponto de vista da eternidade, as coisas não existem, mesmo os efeitos nefastos de todos os males, de todos os sofrimentos, de todos os sentimentos que possam surgir no mundo e alhures. Essa amplificação retórica, "todos os males, todos os sofrimentos, todos os sentimentos, mundo, alhures...", por exemplo, nada prova. Não se pode afirmar que existam todos os males nem todos os sofrimentos - tampouco que exista alguma coisa &quoot;alhures". É uma redução impossível porque recomeçar todo o processo recomeçar todo o processo recomeçar todo o processo recomeçar todo o processo não é sobre "todos" que recai a suspeita mas sobre "males", "sofrimentos", "sentimentos", "mundo". A unidade é impossível. Se todas as coisas só podem acontecer uma única vez, sendo de si mesmas irrepetíveis, a eternidade transforma o mundo num nada que não permite qualquer sentido, mesmo que se suponham estar nele, andando de um lado a outro, todas as leis, fundamentos e ciências que provem justamente o contrário. A eternidade não unifica o mundo num grande elo místico. A eternidade exclui a ordem. Por isso  a obra semi-anônima de Leonardo Carvalho precisa ser considerada sob o ponto de recomeçar todo o processo recomeçar todo o processo recomeçar todo o processo recomeçar todo o processo recomeçar todo o processo recomeçar todo o processo do ponto de vista da eternidade.

 

Quando fui seu tutor, em meados da década de 1990, acreditava que a literatura universal necessitava de um novo nome. Havia uma nova esperança no ar com a descoberta da obra fundamental de Clive Maia Barbosa [Moral da História], mas quando Leonardo Carvalho começou a apresentar seus textos em nossas aulas, achei que tínhamos resolvido a equação sem qualquer tipo de paliativo pseudo-intelectual : ali estava um tesouro em estado bruto, para ser considerado em forma orgânica e desorientada, como convém aos seres vivos, um baluarte psicológico pleno de incertezas e erros, como convém aos grandes fatos da história. A força de sua poesia me chocara tão imperceptivelmente que pensei estar diante de uma impecável trivialidade da ação mundana. Mas alguma coisa me deixara em pânico. Foi, portanto, esse medo, a contrafactual aventura desse único e grande MEDO, que me levou a elaborar a teoria mais banal quanto fosse possível. Entreguei o texto a Eduardo Guerreiro. Nós o indicamos para o prêmio Nobel, embora somente na quarta vez ele tenha sido aceito e o mundo finalmente tenha mudado.

 

Rafael Viegas

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