número 1, março-julho de 2002
Sobre as invaginações de Monsieur Izesuq Kilistoq
Izesuq Kilistoq é um pedante. Não é nem mesmo um sofista fracassado - na medida em que não mantém relações com qualquer forma existente ou inexistente de sophia, boa ou má. É, como disse Eduardo Guerreiro, um bebezão falador. Conseguiu espaço em Volume graças à intervenção de Bernardo Bolinha - que nem é mais membro do corpo editorial. Foi expulso da revista de cinema Contracampo por Ruy Gardnier - num dos raros momentos de lucidez do ffamoso ensaísta - onde publicou um único texto (um Idiotorial, em setembro de 1999). Causa, na verdade, tanta pena que adoece os olhos. É certo que tem lá sua virulência - nos tempos que correm, uma virtude -, mas é tão fracassado como crítico quanto qualquer jornalista, com a diferença de que, em Volume, não existe censura prévia nem cortes estilísticos ou tamanhos obrigatórios de parágrafos, típicos da grande mídia, para sugerir sua defesa.
Venho observando a maneira como ele tem tratado os escritores de Volume. É certo que esta revista passa por todos os problemas inerentes à produção de um zine. A contribuição é voluntária, totalmente espontânea. Não existe financiamento de nenhuma espécie. Como os articulistas não são pagos, também não existe obrigatoriedade de cumprimento de qualquer compromisso deles em relação ao corpo editorial. Textos prometidos nunca são enviados e, quando esse milagre acontece, um único editor domina razoavelmente a linguagem html necessária à formatação das páginas - tornando extremamente lento o processo de editoração. Etc. etc. etc. Izesuq Kilistoq parece um dinamarquês. Suas contas estão pagas, não tem mulher nem filhos, mora num apartamento herdado da família, aplica na bolsa, é advogado e funcionário público. Sei que tudo isto não é suficiente, mas basta para explicar um pouco sua revolta: uma inveja paradoxal pelo fato de sermos, todos nós, ou pobres ou filhos de uma classe média falida - e, ele, não. Todos conhecem esse tipo de idiota rico, que se denega até cair duro de histeria. Um palhaço contaminado pela sombra de uma vergonha que nós, fodidos e indiferentes, sempre nos esquecemos de cobrar.
Sinceramente, eu não entendo onde ele deseja instalar sua casamata - e, mesmo depois de instalá-la, que diabos ele pretende fazer com ela. Se é contra todos esses infelizes condenados, porque está ele mesmo fazendo parte do purgatório? Se é apenas displicência, por que não empregá-la no terreno da verdadeira arte, da alquimia, da psicanálise? Tenho recebido queixas de algumas pessoas que consideram suas críticas como ofensas pessoais. Isso já seria suficiente para excluí-lo do corpo editorial. É bom, antes de mais nada, deixar claro que é apenas o sentimento democrático desses mesmos editores, sistematicamente massacrados, que ainda o mantém na posição que conseguiu, como sempre sem muito esforço. Não quero comentar o que disse a meu respeito - igualmente ofensivo, igualmente gratuito. Apelo quase solenemente para que o corpo editorial não permita mais esse tipo de comportamento, que compromete o espírito democrático que tentamos estabelecer em nossas discussões e que queremos mostrar aos nossos leitores.
Abraços,
Rafael Viegas