número 1, março-julho de 2002
Cocô... mas essencial
Rafael (não me venha com essa boiolice de Izesuq Kilistoq que não convence) é um adorador das grandes polêmicas, das discussões sem fim, e sua mística se reduz a ter êxtases de discordância com tudo e com todos. Não vou me colocar de fora disso, compartilho desse gosto de intelectual falido, mas também me entendio com tanto espírito de adolescente. O conselho que ele dá ao Estevão, "Se quiser convencer alguém, vai ter de se esforçar muito mais que isso, amigo." não deixa de ser mais rocambolesco do que meu "humor pós-moderno bastante desgastado". Por isso, ele me faz rir, como uma gracinha de bebê.
Mas vou me deter somente na melhor parte de sua crítica, que considero absolutamente legítima: ele diz que meu texto é "lixo. Cocô puro". Ora, Se existe um cocô puro, de acordo com a Kant, ele seria um cocô a priori, independente da experiência sensível do cocô, seria um cocô transcendental. Sem dúvida, é exatamente isso que eu quis dizer em meu texto, é isso mesmo que meu texto é. A importância da Volume é a fezes da importância mesma, mas, por fazer parte dos restos do "organismo" da internet, podemos dizer que um organismo não existe ele mesmo sem o que expurga para fora. Se o resto é o inessencial, o essencial precisa, para se diferenciar e se sobrepor a alguma coisa, do inessencial. Logo, o inessencial é essencial ao essencial, e o cocô é essencial ao bebê (ao próprio Rafaelzinho). Mas o meu é mais que isso! Ele é puro, independe do espaço e do tempo, é especulativo, teórico, é a condição de possibilidade de qualquer cu que o cague. Assim, ele não tem cheiro, não tem cor, não existe. Se ele só existe no texto, a única coisa que o texto possui é a importância em si e para si mesma de ser resto de si mesmo encarnado em seu momento histórico originário, que adveio como o cocô da imanência em geral advém do cu transcendental, que, por sua vez, só existe para servir de canal à pureza suprema de seu cocô. Esse cocô é a substância inexistente do texto, a "criação" da liberdade do sujeito kantiano (Freud não diz que todo ato criador remete à fase anal? Aliás, se o mundo é criação de Deus, logo - aí está um bom argumento para o niiliismo escatológico contemporâneo -, de acordo com um hipotético Freud teólogo, o mundo é cocô divino, é o resto de Deus, mas essencial a Ele). Meu texto é o resto do pensamento mais importante (divino), essencial ao pensamento mais importante, de modo que é mais importante que o pensamento mais importante, portanto, identifica-se com a importância mesma que advém do fluxo histórico do momento originário. O tempo histórico é a caganeira da humanidade, do dasein, e o cocô puro vem do momento puro, do momento sem tempo ... putz, soltei um peido, vou parar por aqui!
Eduardo Guerreiro