número 1, março-julho de 2002

 

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NEONADA

uma autonecrografia sadico-marxista composta em sinédoque geométrica
por Marlos Salustiano


1 - AP(R)ÓLOGO

"Os Deuses morreram, mas eles morreram de RIR ouvindo um Deus dizer que era o único."
Gilles Deleuze

"Tudo começou quando...". Nada mais gratuito e arbitrário e, no entanto, necessário, afirmativo, imperativo.

Sabe-se lá o que e onde começa, mas precisamos de uma "origem" e só nos resta, forçosamente, a tarefa de inventá-la, recortá-la, "subtraí-la" do devir.
Subtrair que não é outra coisa senão acrescentar, como quis Barthes em suas Mitologias. E não há outro procedimento tão arriscado e ao mesmo tempo tão inevitável quanto esse.

Quando estabelecemos margens à extensão informe do desejo criativo que nos impele, torna-se viável a pavimentação de uma dimensão lúdica, playground onde todo dialeticismo e binarismo pueril será colocado em cheque.
De nada então serviria prender-se a dicotomias e desperdiçar todos os graus de Presença disponíveis a agenciamentos. E um exemplo clássico de desperdício é esse que "compreende" a ação "humana" APENAS como metáfora triunfalista e/ou niilista de sua própria condição existencial. 

Estando em território aberto, não apenas aqui ou ali mas sobretudo infinentesimalmente sob/sobre/aquem/além do bem e do mal, do verdadeiro e do falso, do útil e do inútil, nosso único limite seria a própria inexistência, uma vez que simplesmente existir, estar-aí, já inicia inexoravelmente o jogo cultural.

Por isso mesmo, indo além da simples Presença e reunindo tudo o que foi planejado (e que foi expresso ou não) à tudo o que foi expresso (tendo sido previamente planejado ou não) e estando ainda livre do peso fantasmático que transforma as regras do jogo em Lei Fundadora e Castradora, o desejo/ato de criar estará aparelhado para ritualizar suas ações. 

Sua fantasia tomará forma. 

Seu gozo será possível. 

Nessa radical afirmação do lúdico-arbitrário-falso (não no sentido moral, mas no extra-moral, ou seja: o da convenção enquanto gratuidade arbitrária, jogo de linguagem) ficam consolidadas as condições que impedem que o fazer criativo se deixe sequestrar por noções caducas e fossilizantes (aquelas sempre preocupadas em extrair do que quer que seja uma metáfora moral, reduzindo tudo a mera ilustração de seu discurso edificante, "humanizante", essencializante). 

Pois não se trata de escavar nenhuma espécie de "verdade" oculta sob a vida , mas de afirmar, correndo todos os riscos, os desejos e fantasias que colocam em movimento o viver e o criar, ao mesmo tempo arcando com a imanente responsabilidade política de gerenciar seus ontogramas (rastros do vívido-instante: o vivido, q é a própria moeda corrente da cultura).

A História, quando fetichizada, torna-se mausoléu do grande "Drama" da Existência e museu do "Nome Sacramentado", funcionando como elemento de acomodação e domesticação, que à pretexto de reconhecer e agenciar as forças de criação emergentes, na verdade as captura, seda, lhes extrai o veneno (potencial de mudança), tornando-as reféns de um passado espectral e moldando-as à imagem e semelhança de seus tabus. 

Contrariamente, o que nos interessa é a elaboração de uma estrutura convivial
tão normativizada quanto heterodoxa, algo nas cercanias do que efetivamente é uma orquestra: conjunto de segmentos estratificados que experimentam inúmeras formas de entrosamento prático/estético, conciliando fluidez e rigor formal e estabelecendo com o passado uma relação sincrônica e cúmplice, sem medo de colocar em jogo sua própria "História" e tb os nomes já oficializados e consagrados (portanto reificados e fetichizados) daqueles que a escreveram e continuam a escrever. 

Nos interessa afirmar o ato criativo tal qual o vivenciamos/inventamos: 
um agenciamento radical de estratégias crítico-criativas e construtoras-desconstrutoras, diferendo comprometido com a fundação/transmissão/demolição de todos os mitemas e fantasias que são tão caros não apenas aos imbecis funcionários do "Belo" (viciados em oficialidade) mas sobretudo tb aos funcionários do "Feio" (viciados em marginalidade) e aos funcionários da "INÉRCIA" (viciados em metalinguagem, desconstrutividade, meta-desconstrutividade e aporeses afins). 

As espumas barrocas produzidas pelo transe semântico de uma meta-meta-desconstrutividade não passam de logorréia, embromação, sofismice ou, na melhor das hipóteses, má poesia, justo porque covardemente ocultam sua desorientação e falta de fôlego analítico sob a máscara de um "hermetismo virtuoso" que só engana aos pouco informados (e que infelizmente são muitos). 
Em suma: não passam de um blefe.

Lamentável ofensa à memória de Beethoven.

E olhe que há quem as prefira, dada a incapacidade mental de gerir as aporias éticas/estéticas do princípio de funcionalidade.

Pois eu afirmo que TODOS OS RISCOS ESTÃO "AUTORIZADOS"!

Podemos portanto transformar essa "Missa Solemnis" historicista numa divertida partida de Poker!

Marlos Salustiano

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