Pato Donald faz 70 anos
E aí, hein seu pato? 70 anos!! Que maravilha!
Eu estava quase dizendo: "70 anos de rock'n'roll", quando lembrei que suas
nuances e mudanças englobariam jazz, samba, pop, choro, swing e tudo mais. Você
não é só rock, pato, tem uma estrada muito mais completa.
E calha que para comemorar esses 70 anos a Editora Abril mandou essa pedrada:
Pato Donald 70 Anos, uma edição especialíssima, formato americano, 208
páginas, coisa linda. À altura do seu talento e de sua história. Antes de
escrever esse texto, antes mesmo da revista chegar nas bancas, eu já estava me
preparando para reclamar da tradução dos balões, que foi calamitosa na série
O Melhor da Disney, lançada esse ano também para celebrar seu aniversário.
Mas a (justificada) ranhetice não foi necessária: o diálogo foi vertido para o
português com categoria e respeito. Nem precisei ficar esperneando de punhos em
riste, como você sempre faz.
É, Pato, as histórias dessa edição especial estão cheias de momentos como esse e
de tantos outros que o celebrizaram. Começa quando você era um pato meio
esquisito, mais pato que homem, mesmo, habitando as páginas das Silly
Symphonies, aquelas fábulas moralistas da década de 30. Depois, lá pelos
idos de 1937, é que você começou a virar esse xaropão mal-humorado. Culpa do Al
Taliaferro, veja só. Mas o velho Al também deu uma bela trabalhada no seu "shape",
te deixou mais magro, mais simpático e menos primípede. E conforme ele foi
introduzindo outros elementos para contracenar contigo (Margarida, aqueles três
sobrinhos pentelhos, a Vovó Donalda), nós pudemos ver que você não era só um
chato mal-humorado, mas um cara bacana, sujeito a oscilações de humor, como nós.

A grande virada aconteceu por causa do tio Carl, lembra? Como você, eu ou
qualquer um de seus admiradores poderia esquecer?! O velho Carl Barks... ele
mostrou a todos nós que você, Pato, era como nós. Não era só um cara com
flutuações de humor. Um ser complexo, cheio de vontade de vencer, mas que às
vezes se via vitimado pelo derrotismo, fosse por causa daquele seu primo sortudo
e arrogante, ou por causa dos insondáveis desígnios de forças superiores (o
destino? os deuses? o argumentista? Quem? Quem?). Um cara amabilíssimo, mas que
poderia se tornar um patife, um pilantra, um crápula até, só para vencer - ou
para provar que não era tão perdedor assim. Você já começava a tentar superar
seus empertigados sobrinhos... e invariavelmente levava na cabeça! Haha!
Aliás, só graças ao tio Carl que você percebeu que seus sobrinhos podiam até ser
arteiros, mas também eram inteligentes, nobres e tão sedentos de vencer como
você. OK, talvez você não seja tão inteligente - ei, calma! Nada de estrilar,
pato doido! É só que eles são mais centrados, sabe como é. Você só não admite
isso facilmente...
O tio Carl também te apresentou ao seu inesquecível Tio Patinhas, te colocou no
caminho daquele inventor piradaço e de bom coração, o Pardal; deixou você ficar
mais perto da Margarida, te pôs num monte de aventuras e até de perigos - até os
grotescos irmãos Metralha entraram na tua vida. Certo, mais na do seu tio do que
na sua. Porém, sempre sobrava para você a linha de frente na defesa daquele
monumento ao capitalismo que é a Caixa-Forte. E aí, já viu, né?
É, Pato, o lance é que graças ao Barks ficamos conhecendo você. É incrível como
você realiza todos os nossos sonhos, vinga as nossas frustrações, se solidariza
conosco em nossos fracassos. E daí, mais um monte de gente bacana veio fazer
brilhar cada lado que o Homem dos Patos mostrou. Os italianos investiram pesado
no seu talento de ator. Lembra aquela vez que você e o Gastão disputaram o papel
de cavaleiro numa montagem teatral? Pois é, bacanas como Giorgio Cavazzano e
Romano Scarpa te deram um monte de papéis nos quais você brilhou como nunca
antes. Marco Polo, o príncipe "Patonov" de Guerra e Paz, Otelo... fora os
encontros com extraterrestres, habitantes do centro das folhas, sua
transformação no Superpato e outros. Os brasileiros (e fizeram justiça ao mestre
Carlos Herrero nesse especial - êba!) deixaram você muito doidão, às voltas com
o ainda mais doido Peninha. Aquele canadense, o William Van Horn - Pato, ele te
jogou no mais puro surrealismo! Gênio, o cara, não? O Don Rosa ficou fuçando na
história da sua família e exagerando no teu azar...
É, amostras do trabalho de todo esse pessoal está aqui nesta edição especial. Eu
quase choro toda vez que eu a leio, e olha que ela está recém-lançada nas
bancas. Quase choro porque você é um amigo que me acompanha desde a infância.
Não sabe quem eu sou, e se soubesse, provavelmente ia tretar comigo por ciúmes
da Margarida (ela não faz meu tipo, é muito fresca), para tentar me vencer ou
por ranzinzice pura. Mas e daí? É esse lado de assumir quem você é e dane-se o
resto que faz de você esse sujeito tão especial. Por isso que eu sei que estou
fazendo coro com uma multidão de milhões quando digo:
MEUS PARABÉNS, PATO DONALD! MUITAS FELICIDADES E MUITOS ANOS DE VIDA!!!