Jorge de Sena

 

Jorge de Sena

 

 

A PORTUGAL

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cú pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.


CANTIGA DE ABRIL

(Às Forças Armadas e ao povo de Portugal
"Não hei-de morrer sem saber qual a cor da liberdade")

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.
Quase, quase cinquenta anos
reinaram neste país,
e conta de tantos danos,
de tantos crimes e enganos,
chegava até à raiz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Tantos morreram sem ver
o dia do despertar!
Tantos sem poder saber
com que letras escrever,
com que palavras gritar!

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essa paz de cemitério
toda prisão ou censura.
e o poder feito galdério,
sem limite e sem cautério,
todo embófia e sinecura.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esses ricos sem vergonha,
esses pobres sem futuro,
essa emigração medonha,
e a tristeza uma peçonha
envenenando o ar puro.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Essas guerra de além-mar
gastando as armas e a gente,
esse morrer e matar
sem sinal de se acabar
por política demente.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Esse perder-se no mundo
o nome de Portugal,
essa amargura sem fundo,
só miséria sem segundo,
só desespero fatal.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Quase, quase cinquenta anos
durou esta eternidade,
numa sombra de gusanos
e em negócios de ciganos,
entre mentira e maldade.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.

Saem tanques para a rua,
sai o povo logo atrás:
estala enfim, altiva e nua,
com força que não recua,
a verdade mais veraz.

Qual a cor da liberdade?
É verde, verde e vermelha.


COMO QUEIRAS, AMOR...

Como queiras, Amor, como tu queiras. 
Entregue a ti, a tudo me abandono, 
seguro e certo, num terror tranquilo. 
A tudo quanto espero e quanto temo, 
entregue a ti, Amor, eu me dedico.

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba 
e nada, não, ainda há por que eu não espere 
como de quem ser vida é ter destino.

As pequeninas coisas da maldade, a fria 
tão tenebrosa divisão do medo 
em que os homens se mordem com rosnidos 
de mal contente crueldade imunda, 
eu sei quanto me aguarda, me deseja, 
e sei até quanto ela a mim me atrai.

Como queiras, Amor, como tu queiras.
De frágil que és, não poderás salvar-me. 
Tua nobreza, essa ternura tépida 
quais olhos marejados, carne entreaberta, 
será só escárnio, ou, pior, um vão sorriso 
em lábios que se fecham como olhares de raiva. 
Não poderás salvar-me, nem salvar-te. 
Apenas como queiras ficaremos vivos.

Será mais duro que morrer, talvez. 
Entregue a ti, porém, eu me dedico 
àquele amor por qual fui homem, posse 
e uma tão extrema sujeição de tudo.

Como tu queiras, Amor, como tu queiras.


DECLARAÇÃO

Sinto que vou voltar-me para Ti,
Para Ti - como te descrevem e não há que fugir, 
não como te penso.
Mesmo o que eu sinto
é que, mais tarde ou mais cedo, cairei rendido.
Contudo sei que vou acreditar
e esquecer o resto porque é lógico, tão lógico!,
tão claro que enraivece e cansa e desconsola...
Ah eu bem conheço que não somos racionais,
mas sempre somos nós e sermo-nos
é o haver mistérios na alma e no mundo
e o não haver necessidade de mistérios em Ti.
Contudo sei que um dia cairei rendido
e hei de acreditar nos dogmas
e nessa crença encontrarei a alegria
de quem contempla paredes verdadeiras
só do seu lado, encontrarei uma alegria de sedução poética ...
Sei também que hei de acabar por ter
piedade dos que não acreditarem
e que hei de deixar de compreender o mundo
uma maneira de sentir de cada um,
para primeiro sinceramente o considerar maneira vaga de
Tu seres, 
de Tu te revelares,
e depois me esquecer de tudo
e ir ajoelhar diante dos teus altares
com crepitações mansas de felicidade
e achando poucas todas as velas e flores
para o trono em que estarás por dentro dos meus olhos.
Sei que hei de repetir inefavelmente as orações
e todos esses requerimentos divinos em que há um espaço 
para o meu nome;
sei que me hei de entregar a quanto dizem a Teu respeito
e que a minha alma passará a ser minha
e de quem a pesquisar e dormirá tranquila;
sei que hei de beijar a mão aos íntimos dos teus símbolos
e que os hei de ouvir como se tivesses bocas terrenas,
ah sei que hei de ter preferência por uma ou outra das formas 
que dão a Tua Mãe, 
sei que hei de olhar enlevado o que não é o Teu retracto,
principalmente aquele de quando eras menino,
e que hei de admitir a Tua presença actual e simultânea 
do Teu corpo em todas as Tuas idades e seus acontecimentos; 
sei que poderei servir a propaganda
- olhem-no!, como se converteu -
e sei que o meu orgulho se revoltará 
e tirarei prazer de Ti nessa revolta; 
sei que hei de distinguir entre Ti e o Teu coração, 
sei que hei de ser sincero em tudo por não dar por isso,
e sei que hei de esperar confiado a hora de ir ter conTigo, 
atribuindo-Te entretanto,
sem querer e sem pensar,
qualidades mesquinhamente humanas e quimericamente divinas,
vendo sinais de Ti em todas as coisas até na minha inércia, 
sinais da Tua justiça no mínimo contratempo,
sinais dos Teus desígnios na maior catástrofe...
E SEI QUE, ENTÃO ME HEI DE RENEGAR E ESTE POEMA 
À FRENTE?
que hei de renegar tudo, 
e por isso Te previno do que sei 
para que toda a gente possa ver que eu sinto o que hás de ser 
- é que eu conheço-me e adivinho os outros 
ou julgo adivinhá-los, tanto faz para o caso.
Talvez que eu me engane e esteja a sustentar-me de erros, 
mas os meus erros também são eu próprio! 
e eu sei que hei de ser eu e Tu 
e os meus erros entre nós dois 
enquanto não fechar os olhos e os não reabrir 
tal como te descrevem e não há que fugir.
Por tudo, por nada, por mim, que eu abandonarei, 
Por Ti, sim, por Ti!... e tudo é tudo, 
eu Te previno e mais Te digo:
não irei para Ti..., Perdoa-me!... 
(Olha, já Te peço perdão!)
não caminharei para Ti por hábito ou por fé,
nem por tradição,
nem por interesse, 
mas porque o Outro, cá dentro, abdicará, não tarda... 
e para onde me voltarei eu, eu!..., senão por Ti 
até acreditar em Ti como te fazem? 
É melhor assim - não procurar.
Tudo está feito, tudo está escrito, 
tudo está murado, e bem, com alicerces nos nossos próprios defeitos
- é só ouvir, 
é só ler, 
é só pasmar sereno, 
é só ficar.


MEU CORPO, QUE MAIS RECEIAS?

- Meu corpo, que mais receias?
- Receio quem não escolhi.

- Na treva que as mãos repelem
os corpos crescem trementes.
Ao toque leve e ligeiro
O corpo torna-se inteiro,
Todos os outros ausentes.

Os olhos no vago
Das luzes brandas e alheias;
Joelhos, dentes e dedos
Se cravam por sobre os medos...
Meu corpo, que mais receias?

- Receio quem não escolhi,
quem pela escolha afastei.
De longe, os corpos que vi
Me lembram quantos perdi
Por este outro que terei.


NO PAÍS DOS SACANAS

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.


ODE AO SURREALISMO POR CONTA ALHEIA

Que levas ao colo,
embrulhado em sarrafaçais transcritos mau olhado 
abomináveis trutas e outros preconceitos? 
Um sacerdote? Um gato? A timidez?

Que transportas silencioso, imóvel, como dormindo, no xaile
pespontado a verde com que limpas o suor, o sémen, as fezes, 
tudo o que abandonas, ofereces, vendes, expulsas, injectas, 
convocas, reprovas, descreves, etc.?
Embalas e não respondes.
Temes a polícia, os tapetes, o capacho, o telefone, as campainhas
de porta, as pessoas paradas pelas esquinas reparando
em por de baixo das roupas das outras que passam?
Temes as palavras?
Temes que saiam versos, lágrimas, casamentos,
satisfações apressadas em campos de arrabalde?
Temes os partidos, os artigos de fundo, os banqueiros, os capelistas, 
a inflação, as úlceras do estômago ou sociais?
Que transportas ao colo
em silêncio e num xaile?
É a vida? Anúncios luminosos? Casas económicas? O mar? Irmãos?
Reivindicações? Um livro? 
Embalas e não respondes.

É a vida? A noite que cai? As luzes distantes? Um gesto? Um olhar?
Um quadro? Uma poesia lírica?

(Oportunamente interrompida pela chegada de uma pessoa conhecida)


OS PARAÍSOS ARTIFICIAIS

Na minha terra, não há terra, há ruas; 
mesmo as colinas são de prédios altos 
com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.
As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,
e a Câmara tem máquinas especialíssimas para desenraizar as árvores.

O cântico das aves - não há cânticos,
mas só canários de 3º andar e papagaios de 5º.
E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros, 
que são todos na Pérsia ou na China, 
ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.
A vida na minha terra é que é inefável.
Inefável é o que não pode ser dito.


PANFLETO

Fere-me esta idolatria mais do que todos os crimes:
Tanto fervor desviado e perdido!
Tanta gente ajoelhando à passagem do tempo
e tão poucos lutando para lhe abrir caminho!

Há uma vida inteira a jogar e gastar 
no pano verde imenso das campinas do mundo. 
Há desertos cativos de uma ausência dos povos. 
Há uma guerra devastando a vida, 
enquanto a supuserem redimida!

E em nós a redenção quase perdida!...
Vamos rasgar, ó poetas, esta mentira da alma, 
vamos gritar aos homens que os enganam, 
que não é a força, que não é a glória, 
que não é o sol nem a lua nem as estrelas, 
nem os lares nem os filhos, nem os mares floridos,
nem o prazer nem a dor nem a amizade, 
nem o indivíduo só compreendendo as causas, 
nem os livros nem os poemas, nem as audácias heróicas, 
- a redenção sou eu, se formos nós sem forma, 
sem liberdade ou corpo, sem programas ou escolas!

Aqui está a redenção. Tomai-a toda. 
E se é verdade a fome, 
se é verdade o abismo, 
se é verdade o pensamento húmido 
que pestaneja ansioso nos cortejos públicos, 
se são verdade as redenções que mentem:

Matem essa gente para salvar a Vida!
E matem-me com elas para que as queime ainda!

 


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