Eugénio de Andrade

 

Eugénio de Andrade

 

 

ABRIL

Brinca a manhã feliz e descuidada, 
como só a manhã pode brincar, 
nas curvas longas desta estrada 
onde os ciganos passam a cantar. 
Abril anda à solta nos pinhais 
coroado de rosas e de cio, 
e num salto brusco, sem deixar sinais, 
rasga o céu azul num assobio. 
Surge uma criança de olhos vegetais, 
carregados de espanto e de alegria, 
e atira pedras às curvas mais distantes 
- onde a voz dos ciganos se perdia. 


ADEUS

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.


AS AMORAS

O meu país sabe as amoras bravas
no verão. 
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


AS MÃOS E OS FRUTOS

Passamos pelas coisas sem as ver, 
gastos, como animais envelhecidos: 
se alguém chama por nós não respondemos, 
se alguém nos pede amor não estremecemos, 
como frutos de sombra sem sabor, 
vamos caindo ao chão, apodrecidos. 


AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


AS PALAVRAS INTERDITAS

Os navios existem e existe o teu rosto 
encostado ao rosto dos navios. 
Sem nenhum destino flutuam nas cidades, 
partem no vento, regressam nos rios. 
Na areia branca, onde o tempo começa, 
uma criança passa de costas para o mar. 
Anoitece. Não há dúvida, anoitece. 
É preciso partir, é preciso ficar. 
Os hospitais cobrem-se de cinza. 
Ondas de sombra quebram nas esquinas. 
Amo-te... E abrem-se janelas 
mostrando a brancura das cortinas. 
As palavras que te envio são interditas 
até, meu amor, pelo halo das searas; 
se alguma regressasse, nem já reconhecia 
o teu nome nas minhas curvas claras. 
Dói-me esta água, este ar que se respira, 
dói-me esta solidão de pedra escura, 
e estas mãos nocturnas onde aperto 
os meus dias quebrados na cintura. 
E a noite cresce apaixonadamente. 
Nas suas margens vivas, desenhadas, 
cada homem tem apenas para dar 
um horizonte de cidades bombardeadas. 


CANÇÃO

Tu eras neve. 
Branca neve acariciada. 
Lágrima e jasmim 
no limiar da madrugada. 
Tu eras água. 
Água do mar se te beijava. 
Alta torre, alma, navio, 
adeus que não começa nem acaba. 
Eras o fruto 
nos meus dedos a tremer. 
Podíamos cantar 
ou voar, podíamos morrer. 
Mas do nome que maio decorou,
nem a cor 
nem o gosto me ficou. 


EROS

Nunca o verão se demorara 
assim nos lábios 
e na água 
- como podíamos morrer, 
tão próximos 
e nus e inocentes? 


ESPELHO

Que rompam as águas:
é dum corpo que falo.
Nunca tive outra pátria,
nem outro espelho,
nem outra casa.

É dum rio que falo,
desta margem onde soam ainda,
leves, 
umas sandálias de oiro e de ternura.

Aqui moram as palavras;
as mais antigas,
as mais recentes:
mãe, árvore,
adro, amigo.

Aqui conheci o desejo
mais sombrio,
mais luminoso,
a boca
onde nasce o sol,
onde nasce a lua.

E sempre um corpo,
sempre um rio;
corpos ou ecos de colunas,
rios ou súbitas janelas
sobre dunas;
corpos:
dóceis, doirados montes de feno;
rios:
frágeis, frias flores de cristal.

E tudo era água,
água,
desejo só
dum pequeno charco de luz.

De luz?
Que sabemos nós
dessas nuvens altas,
dessas agulhas
nuas
onde o silêncio se esconde?
Desses olhos redondos,
agudos de verão,
e tão azuis
como se fossem beijos?

Um corpo amei,
um corpo, um rio,
um pequeno tigre de inocência,
com lágrimas
esquecidas nos ombros,
gritos
adormecidos nas pernas,
com extensas,
arrefecidas
primaveras nas mãos.

Quem não amou
assim? Quem não amou?
Quem?
Quem não amou
está morto.

Piedade,
também eu sou mortal.
Piedade
por um lenço de linho
debruado de feroz melancolia,
por uma haste de espinheiro
atirada contra o muro,
por uma voz que tropeça
e não alcança os ramos.

Dum corpo falei:
que rompam as águas.


ESSA MULHER, A DOCE MELANCOLIA

Essa mulher, a doce melancolia 
dos seus ombros, canta. 
O rumor 
da sua voz entra-me pelo sono, 
é muito antigo. 
Traz o cheiro acidulado 
da minha infância chapinhada ao sol. 
O corpo leve quase de vidro. 


FRENTE A FRENTE

Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!


MAR DE SETEMBRO

Tudo era claro: 
céu, lábios, areias. 
O mar estava perto, 
Fremente de espumas. 
Corpos ou ondas: 
iam, vinham, iam, 
dóceis, leves, só 
alma e brancura. 
Felizes, cantam; 
serenos, dormem; 
despertos, amam, 
exaltam o silêncio. 
Tudo era claro, 
jovem, alado. 
O mar estava perto, 
puríssimo, doirado. 


NEM SEMPRE O CORPO SE PARECE

Nem sempre o corpo se parece com
um bosque, nem sempre o sol 
atravessa o vidro, 
ou um melro cante na neve. 
Há um modo de olhar vindo 
do deserto, 
mirrado sopro de folhas, 
de lábios, digo. 


OS AMANTES SEM DINHEIRO

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.
Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.
Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.


O SILÊNCIO

Quando a ternura 
parece já do seu ofício fatigada, 
e o sono, a mais incerta barca, 
inda demora, 
quando azuis irrompem 
os teus olhos 
e procuram 
nos meus navegação segura, 
é que eu te falo das palavras 
desamparadas e desertas, 
pelo silêncio fascinadas. 


PEQUENA ELEGIA DE SETEMBRO

Não sei como vieste, 
mas deve haver um caminho 
para regressar da morte. 
Estás sentada no jardim, 
as mãos no regaço cheias de doçura, 
os olhos pousados nas últimas rosas 
dos grandes e calmos dias de setembro. 
Que música escutas tão atentamente 
que não dás por mim? 
Que bosque, ou rio, ou mar? 
Ou é dentro de ti 
que tudo canta ainda? 
Queria falar contigo, 
dizer-te apenas que estou aqui, 
mas tenho medo, 
medo que toda a música cesse 
e tu não possas mais olhar as rosas. 
Medo de quebrar o fio 
com que teces os dias sem memória. 
Com que palavras 
ou beijos ou lágrimas 
se acordam os mortos sem os ferir, 
sem os trazer a esta espuma negra 
onde corpos e corpos se repetem, 
parcimoniosamente, no meio de sombras? 
Deixa-te estar assim, 
ó cheia de doçura, 
sentada, olhando as rosas, 
e tão alheia 
que nem dás por mim. 


POEMA XVIII

Impetuoso, o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.
Se escuto, só oiço o teu rumor.
De mim, nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.
Por isso, rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.


PROCURO-TE

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferença,
mas não quando se ama,
não quando se aperta contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - procuro-te.


RESPIRO O TEU CORPO

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.


RETRATO ARDENTE

No teu peito 
é que o pólen do fogo 
se junta à nascente, 
alastra na sombra. 
Nos teus flancos 
é que a fonte começa 
a ser rio de abelhas, 
rumor de tigre. 
Da cintura aos joelhos 
é que a areia queima, 
o sol é secreto, 
cego o silêncio. 
Deita-te comigo. 
Ilumina meus vidros. 
Entre lábios e lábios 
toda a música é minha


SURDO, SUBTERRÂNEO RIO

Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?


URGENTEMENTE

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor, 
É urgente permanecer.

 


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