Friedrich Nietzsche

 

Friedrich Nietzsche

 

 

AMIGOS, NÃO HÁ AMIGOS

«Amigos, não há amigos!» exclamou o sábio moribundo;

«Inimigos, não há inimigos!» exclamo eu, o louco vivo.


AO IDEAL

A quem como a ti amei eu, ó sombra amada!
Atraí-te a mim, para dentro de mim - e desde então
quase me fiz eu sombra, e corpo tu.
Todavia os meus olhos não aprendem,
afeitos a ver as coisas fora de si:
para eles és sempre o eterno «fora-de-mim».
Ah, estes olhos põem-me fora de mim!


A PALAVRA

À palavra viva é que eu tenho amor:
Salta tão jovial ao nosso encontro,
Saúda com gesto gracioso,
É bela mesmo sem jeito,
Tem sangue, é capaz de esbravejar com brio,
E então entra até nas orelhas de um surdo,
Encaracola-se e põe-se a voar,
E em tudo o que faz - a palavra encanta.

Mas a palavra é um ser delicado,
Ora doente, ora outra vez sadia.
Se lhe queres poupar a pequenina vida,
Tens de lhe pegar com leveza e graça,
Sem a apalpares nem a apertares à bruta,
Que ela morre por vezes já de um mau olhar -
E aí fica ela, tão desfigurada,
Tão sem alma, tão pobre e fria,
O seu corpinho a tal ponto transformado,
Da morte e da agonia mal-tratado.

Uma palavra morta - feia coisa,
Um chocalhante e seco cling-ling-ling.
Fora esses ofícios hediondos
Que fazem morrer as palavrinhas!


DO ALTO DOS MONTES

Oh! Meio dia da vida! Época solene!
Oh! Jardim de estio!
Beatitude inquieta da ansiedade na espera:
espero meus amigos, noite e dia,
onde estais, amigos meus?
Vinde! É tempo, é tempo!

Não é por vós que o gelo cinzento
hoje se adorna com rosas?
A vós procura o rio,
Suspensos nos céus ventos e nuvens se levantam
para observar vossa chegada
competindo com o mais sublime voo dos pássaros.

No meu santuário coloquei a mesa:
Quem vive mais próximo das estrelas
e das horríveis profundezas do abismo?
Que reino mais extenso que o meu?
E do mel, daquele que é meu, que sentiu seu fino aroma?

Aqui estais, finalmente, meus amigos!
Ai! não é a mim que procurais?
Hesitais, mostrais surpresa?
Insultai-me é melhor! Eu não sou mais eu?
Mudei de mão, de rosto, de andar?
O que eu era, amigos, acaso não mais sou?

Tornei-me, talvez, outro?
Estranho a mim mesmo? De mim mesmo, fugido?
Lutador que muitas vezes venceu a si mesmo?
Que muitas vezes lutou contra a própria força,
ferido, paralisado pelas vitórias contra si mesmo?

Porventura não procurei os mais ásperos ventos
e aprendi a viver onde ninguém habita,
nos desertos onde impera o urso polar?
Não esqueci a Deus e ao homem, blasfémias e orações?
Tornei-me um fantasma das geleiras.

Oh! Meus velhos amigos, vossos rostos
empalidecem de imediato,
transtornados de ternura e espanto!
Andai, sem rancor! Não podeis demorar aqui!
Não é para vós este país de geleiras e rochas!
Aqui é preciso ser caçador e antílope!

Converti-me em caçador cruel. Vede meu arco:
a tensão de sua corda!
Apenas o mais forte poderá arremessar tal dardo.
Mas não há nenhuma seta mortal como esta.
Afastai-vos, se tendes amor à vossa vida!

Fugis de mim!? Oh, coração, quanto sofreste!
E entretanto, tua esperança ainda se mantém firme!
Abre tuas portas a novos amigos,
renuncia aos antigos e às lembranças!
Fostes jovem? - Pois agora és mais e com mais brio.

Quem pode decifrar os signos apagados,
do laço que une com uma mesma esperança?
Signos que em outros tempos escreveu o amor,
que luzem como velho pergaminho queimado
que se teme tocar, como ele. Queimado e enegrecido!

Basta de amigos! Como chamá-los?
Fantasmas de amigos! Que de noite,
tentam ainda meu coração e minha janela
e me olham sussurrando:
Somos nós!
Oh! Ressequidas palavras, um dia fragrantes como rosas!

Sonhos juvenis tão cheios de ilusão,
aos quais buscava no impulso de minh’alma,
agora os vejo envelhecidos!
Apenas os que sabem mudar são os de minha linhagem.

Oh! Meio dia da vida! Oh! Segunda juventude!
Oh! Jardim de estio!
Beatitude inquieta na ansiedade da espera!
Os amigos esperam, dia e noite, os novos amigos.
Vinde! É tempo! É tempo!

O hino antigo cessou de soar,
O doce grito do desejo expira em meus lábios.
Na hora fatídica apareceu um encantador,
o amigo do pleno meio-dia.
Não, não me pergunteis quem é;
ao meio-dia, o que era um,
dividiu-se em dois.

Celebremos, seguros de uma mesma vitória,
a festa das festas!
Zaratustra está ali, o amigo,
o hóspede dos hóspedes!
O mundo ri, o odioso véu cai,
E eis que a Luz se casa com a misteriosa,
subjugadora Noite.


ENTRE AMIGOS

1
Belo é - calar em comum,
Inda mais belo - rir em comum, -
Sob o lençol de seda do céu,
Debruçado para o musgo ou para um livro,
Rir alto com os amigos
E mostrar uns aos outros dentes alvos.

Se é bom o que fiz - então calemo-nos;
Mas se é mau - vamos então rir
E fazer ainda pior,
Fazer pior, rir pior,
Até tombarmos na cova.

Amigos! Sim! Quereis assim?
Ámen! E até à vista!

2
Nada de desculpa! Nada de perdão!
Se, alegres e livres de coração,
Dais ouvidos, coração e abrigo
A este livro sem razão,
Crede, Amigos, não foi maldição
Esta minha sem-razão.

O que eu encontro, o que eu procuro -,
Esteve jamais em livro algum?
Honrai em mim o grémio dos loucos!
E aprendei deste livro de louco
Como a razão chega - «à razão»!

Ora pois, Amigos, quereis assim?
Ámen! E até à vista!


PARA OS AMIGOS FALSOS

Roubaste, diz-mo o teu olhar impuro -
E não foi, como dizes, apenas uma ideia.
Quem teria de modéstia um tal descaro?
Toma lá ainda mais esta mão cheia -
Toma tudo o que me é caro -
Nisso te ceva, porco, até que fiques puro!


REGRAS DE BEM-VIVER

Para bem viveres a vida,
deves estar acima dela!
Aprende, pois, a elevar-te!
Aprende a olhar para baixo!

O mais nobre dos instintos
enobrece-o com prudência:
para cada quilo de amor,
um grão de desprezo-próprio.


SÓ LOUCO! SÓ POETA!

Em ar diáfano,
quando já o consolo do orvalho
ressuma sobre a terra,
invisível e também sem se ouvir
- pois o consolador orvalho traz,
como todos os suavizadores, calçado leve -
lembras-te então, lembras-te, ardente coração,
da tua sede de outrora,
sede de lágrimas celestes e de orvalhos,
tu crestado e cansado,
enquanto sobre atalhos de erva seca
maldosos olhares do sol da tarde
em torno de ti corriam por entre arvores negras,
olhares de sol em brasa, cegantes e cínicos.

«Pretendentes da Verdade - tu?» assim eles te escarneciam -
«Não! Só um poeta!
um bicho manhoso, de rapina, rastejante,
que tem de mentir,
ávido de presa,
isso - pretendente da Verdade?...

Só Louco! Só Poeta!
dizendo só coisas multicores,
falando multicor por máscara de louco,
trepando sobre pontes mentirosas de palavras,
sobre arcos-íris de mentiras
entre falsos céus
vagueando, rastejando -
só Louco! Só Poeta!...

Isso - Pretendentes da Verdade?...
Não calmo, hirto, liso, frio,
feito imagem,
pilar de Deus,
não erguido em frente aos templos,
guarda-portão de um Deus:
não! Hostil a tais estátuas de virtude,
em qualquer ermo mais em casa do que em templos,
cheio de maldade de felino
a saltar por qualquer janela
zás! pra qualquer acaso,
Fariscando cada floresta virgem,
que tu em florestas virgens
entre feras de jubas variegadas
pecaminosamente são e belo e variegado corresses,
de beiçarra lúbrica,
feliz-escarninho, feliz-infernal, feliz-sanguinolento,
corresses rapinando, rastejando, mentindo -

Ou igual à águia que longa,
Longamente olha hirta para os abismos,
Para os seus abismos -
- Oh! Como eles se encaracolam
lá pra baixo, pra dentro,
em profundas cada vez mais fundas! -

Então,
de repente,
em voo directo,
mergulho de um golpe,
cair a fundo sobre cordeiros
veloz, voraz,
ávida de cordeiros,
hostil a todas as almas de cordeiros,
com raiva feroz a tudo quanto olha
com olhos virtuosos, de carneiro, de lã crespa,
a toda a estupidez da benquerença-de-leite-de-cordeiro.

Assim
aquilinas, de pantera,
são as nostalgias do poeta,
são as tuas nostalgias sob milhentas máscaras,
ó Louco! Ó Poeta!

Tu, que olhaste o homem
tanto deus como carneiro -,
rasgar o deus no homem
como o carneiro no homem
e rir ao rasgar -

isso, isso é que é a tua ventura,
ventura de pantera e de águia,
ventura dum Poeta e dum Louco!» -

Em ar diáfano,
quando já a foice da lua
verde entre rubores purpúreos
e invejosa rasteja,
- hostil ao dia,
a cada passo secretamente
ceifando ao longo de leitos pendentes
de rosas, até elas caírem,
até caírem pálidas noite abaixo:
assim caí eu mesmo um dia
da minha Loucura-da-Verdade,
das minhas Nostalgias-do-Dia,
cansado do dia, doente da luz,
- caí, pra baixo, para a noite, para a sombra,
queimado e sedento
de Uma Verdade
- lembras-te ainda, lembras-te, ardente coração,
da sede que então tinhas? -
Oh! fosse eu banido
de toda a Verdade!
Só Louco! Só Poeta!...

 

 

ÚLTIMA VONTADE

Morrer assim,
como eu o vi morrer então -,
o Amigo que atirou divinamente
relâmpagos e olhares à minha escura juventude:
arrogante e profundo,
um bailador na batalha -,

entre guerreiros o mais jovial,
entre vencedores o mais difícil,
erguendo-se, um destino sobre o seu destino,
duro, reflectindo o passado e o futuro -:

tremendo porque venceu,
exultando porque venceu morrendo -,

mandando porquanto morria
- e mandou que aniquilassem -

Morrer assim,
como eu o vi morrer então:
vencendo, aniquilando -
 

 

VOCAÇÃO DE POETA

Ainda outro dia, na sonolência
De escuras árvores, eu, sozinho,
Ouvi batendo, como em cadência,
Um tique, um taque, bem de mansinho...
Fiquei zangado, fechei a cara -
Mas afinal me deixei levar
E igual a um poeta, que nem repara,
Em tique-taque me ouvi falar

E vendo o verso cair, cadente,
Sílabas, upa, saltando fora,
Tive que rir, rir, de repente,
E ri por um bom quarto de hora.
Tu, um poeta? Tu, um poeta?
Tua cabeça está assim tão mal?
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Por quem espero aqui nesta moita?
A quem espreito como um ladrão?
Um dito? Imagem? Mas, psiu! Afoita
Salta à garupa rima, e refrão.
Algo rasteja? Ou pula? Já o espeta
Em verso o poeta, justo e por igual.
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Rimas, penso eu, serão como dardos?
Que rebuliços, saltos e sustos
Se o dardo agudo vai acertar dos
Pobres lagartos os pontos justos.
Ai, que ele morre à ponta da seta
Ou cambaleia, o ébrio animal!
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Vesgo versinho, tão apressado,
Bêbada corre cada palavrinha!
Até que tudo, tiquetaqueado,
Cai na corrente, linha após linha.
Existe laia tão cruel e abjecta
Que isto ainda - alegra? O poeta - é mau?
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Tu zombas, ave? Queres brincar?
Se está tão mal minha cabeça
Meu coração pior há de estar?
Ai de ti, que minha raiva cresça!
Mas trança rimas, sempre - o poeta,
Na raiva mesmo sempre certo e mau.
- Sim, meu senhor sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

 


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