Bernardo Soares
Livro do Desassossego (extractos)
Mais que uma vez, ao passear lentamente pelas ruas da tarde, me tem batido na
alma, com uma violência súbita e estonteante, a estranhíssima presença da
organização das coisas. Não são bem as coisas naturais que tanto me afetam, que
tão poderosamente me trazem esta sensação: são antes os arruamentos, os
letreiros, as pessoas vestidas e falando, os empregos, os jornais, a
inteligência de tudo. Ou, antes, é o fato de que existem arruamentos, letreiros,
empregos, homens, sociedade, tudo a entender-se e a seguir e a abrir caminhos.
Reparo no homem diretamente, e vejo que é tão inconsciente como um cão ou um
gato; fala por uma inconsciência de outra ordem; organiza-se em sociedade por
uma inconsciência de outra ordem, absolutamente inferior à que empregam as
formigas e as abelhas na sua vida social. E então, tanto ou mais que da
existência de organismos, tanto ou mais que da existência de leis físicas
rígidas e intelectuais, se me revela por uma luz evidente a inteligência que
cria e impregna o mundo.
Bate-me então, sempre que assim sinto, a velha frase de não sei que escolástico:
Deus est anima brutorum, Deus é a alma dos brutos. Assim entendeu o autor da
frase, que é maravilhosa, explicar a certeza com que o instinto guia os animais
inferiores, em que se não divisa inteligência, ou mais que um esboço dela. Mas
todos somos animais inferiores - falar e pensar são apenas novos instintos,
menos seguros que os outros porque novos. E a frase do escolástico, tão justa em
sua beleza, alarga-se, e digo, Deus é a alma de tudo.
Nunca compreendi que quem uma vez considerou este grande fato da relojoaria
universal pudesse negar o relojoeiro em que o mesmo Voltaire não descreu.
Compreendo que, atendendo a certos fatos aparentemente desviados de um plano (e
era preciso saber o plano para saber se são desviados), se atribua a essa
inteligência suprema algum elemento de imperfeição. Isso compreendo, se bem que
o não aceite. Compreendo ainda que, atendendo ao mal que há no mundo, se não
possa aceitar a bondade infinita dessa inteligência criadora. Isso compreendo,
se bem que o não aceite também. Mas que se negue a existência dessa
inteligência, ou seja de Deus, é coisa que me parece uma daquelas estupidezas
que tantas vezes afligem, num ponto da inteligência, homens que, em todos os
outros pontos dela, podem ser superiores; como os que erram sempre as somas, ou,
ainda, e pondo já no jogo a inteligência da sensibilidade, os que não sentem a
música, ou a pintura, ou a poesia.
Não aceito, disse, nem o critério do relojoeiro imperfeito, nem o do relojoeiro
sem benevolência. Não aceito o critério do relojoeiro imperfeito porque aqueles
pormenores do governo e ajustamento do mundo, que nos parecem lapsos ou
sem-razões, não podem como tal, ser verdadeiramente dados sem que saibamos o
plano. Vemos claramente um plano em tudo; vemos certas coisas que nos parecem
sem razão, mas é de ponderar que se há em tudo uma razão, haverá nisso também a
mesma razão que há em tudo. Vemos a razão, porém não o plano; como diremos,
então, que certas coisas estão fora do plano que não sabemos o que é? Assim como
um poeta de ritmos sutis pode intercalar um verso arrítmico para fins rítmicos,
isto é, para o próprio fim de que parece afastar-se, e um crítico mais purista
do retilíneo que do rítmo chamará errado esse verso, assim o Criador pode
intercalar o que nossa estreita razão considera arritmias no decurso majestoso
do seu ritmo metafísico.
Nem aceito, disse, o critério do relojoeiro sem benevolência. Concordo que é um
argumento de mais difícil resposta, mas é-o só aparentemente. Podemos dizer que
não sabemos bem o que é o mal, não podendo por isso afirmar se uma coisa é má ou
boa. O certo, porém, é que uma dor, ainda que para nosso bem, é em si mesma um
mal, e basta isso para que haja mal no mundo. Basta uma dor de dentes para fazer
descrer na bondade do Criador. Ora, o erro essencial deste argumento parece
residir no nosso completo desconhecimento do plano de Deus, e nosso igual
desconhecimento do que possa ser, como pessoa inteligente, o Infinito
Intelectual. Uma coisa é a existência do mal, outra a razão dessa existência. A
distinção é talvez sutil ao ponto de parecer sofística, mas o certo é que é
justa. A existência do mal não pode ser negada, mas a maldade da existência do
mal pode não ser aceite. Confesso que o problema subsiste, mas subsiste porque
subsiste a nossa imperfeição.
Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu:
sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir - é lembrar hoje o que se sentiu
ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho.
Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não
tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje -
tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir
da minha vida de amanhã, senão que será o que não presumo, o que não quero, o
que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu
passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um
vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser.
É esta a minha crença, esta tarde. Amanhã de manhã não será esta, porque amanhã
de manhã serei já outro. Que crente serei amanhã? Não o sei, porque era preciso
estar já lá para o saber. Nem o Deus eterno em que hoje creio o saberá amanhã
nem hoje, porque hoje sou eu e amanhã ele talvez já não tenha nunca existido.
Tudo é vão, como mexer em cinzas, vago como o momento em que ainda não é
antemanhã.
E a luz brota tão serenamente e perfeitamente nas cousas, doura-as tão de
realidade sorridente e triste! Todo o mistério do mundo desce até ante meus
olhos se esculpir em banalidade e rua.
Ah, como as cousas quotidianas roçam mistérios por nós! Como à superfície, que a
luz toca, desta vida complexa de humana, a Hora, sorriso incerto, sobe aos
lábios do Mistério! Que moderno que tudo isto soa! E, no fundo tão antigo, tão
oculto, tão tendo outro sentido que aquele que luz em tudo isto!
Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuvas contra um raio.
Sou tão inerte, tão pobrezinho, tão falho de gestos e de actos.
Por mais que por mim me embrenhe todos os atalhos do meu sonho vão dar a
clareiras de angústia.
Se eu fora outro, penso, este seria para mim um dia feliz, pois o sentiria sem
pensar n' ele. Concluiria com uma alegria de antecipação o meu trabalho normal
aquele que me é monotonamente anormal todos os dias. Tomaria o carro para
Benfica, com amigos combinados. Jantaríamos em pleno fim de sol, entre hortas. A
alegria em que estaríamos seria parte da paisagem, e por todos, quantos nos
vissem, reconhecida como de ali.
Como, porém, sou eu, gozo um pouco o pouco que é imaginar-me esse outro.
Para se ser feliz é preciso saber-se que se é feliz. Não há felicidade em dormir
sem sonhos, senão somente em se despertar sabendo que se dormiu sem sonhos. A
felicidade está fora da felicidade.
Não há felicidade senão com conhecimento. Mas o conhecimento da felicidade é
infeliz; porque conhecer-se feliz é conhecer-se passando pela felicidade, e
tendo, logo já, que deixá-la atrás. Saber é matar, na felicidade como em tudo.
Não saber, porém, é não existir.
Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as
coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas
visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o
conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam por a alma
dentro.
A minha vida é como se me batessem com ela.
Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa. Reparei, num relâmpago
íntimo, que não sou ninguém. Ninguém, absolutamente ninguém. Quando brilhou o
relâmpago, aquilo onde supus uma cidade era um plano deserto; e a luz sinistra
que me mostrou a mim não revelou céu acima dele. Roubaram-me o poder ser antes
que o mundo fosse. Se tive que reincarnar, reincarnei sem mim, sem Ter eu
reincarnado. Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um
livro que se não escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei
pensar, não sei querer. Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea,
e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem me não soube completar.
Há dias em que sobe em mim, como que da terra alheia à cabeça própria, um tédio,
uma mágoa, uma angústia de viver que só me não parece insuportável porque de
facto a suporto. É um estrangulamento da vida em mim mesmo, um desejo de ser
outra pessoa em todos os poros, uma breve notícia do fim.
O que tenho sobretudo é cansaço, e aquele desassossego que é gémeo do cansaço
quando este não tem outra razão de ser senão o estar sendo. Tenho um receio
íntimo dos gestos a esboçar, uma timidez intelectual das palavras a dizer. Tudo
me parece antecipadamente fruste.
Quem me dera, neste momento o sinto, ser alguém que pudesse ver isto como se não
tivesse com ele mais relação que o vê-lo - contemplar tudo como se fora o
viajante adulto chegado hoje à superfície da vida! Não ter aprendido, da
nascença em diante, a dar sentidos dados a estas coisas todas, poder vê-las na
expressão que têm separadamente da expressão que lhes foi imposta. Poder
conhecer na varina a sua realidade humana independente de se lhe chamar varina,
e de se saber que existe e que vende. Ver o polícia como Deus o vê. Reparar em
tudo pela primeira vez, não apocalipticamente, como revelações do Mistério, mas
directamente, como florações da Realidade.
Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e
compreenda a vida, eu não Ihe posso tocar.
(...) Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha
imaginação e o que contém, a minha personalidade, tudo se me evapora.
Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo a
que assisto é um espectáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu.
Talvez porque eu pense de mais ou sonhe de mais, o certo é que não distingo
entre a realidade que existe e o sonho, que é a realidade que não existe. E
assim intercalo nas minhas meditações do céu e da terra coisas que não brilham
de sol ou se pisam com pés - maravilhas fluidas da imaginação.
(...) Não há problema senão o da realidade, e esse é insolúvel e vivo. Que sei
eu da diferença entre uma árvore e um sonho? Posso tocar na árvore; sei que
tenho o sonho. Que é isto, na sua verdade?
Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é este
intervalo que há entre mim e mim?
Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca prestei
atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser.
Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca
amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar.
Em todos os teus actos da vida real, desde o nascer até ao de morrer, tu não
ages: és agido; tu não vives: és vivido apenas. Torna-te para os outros uma
esfinge absurda. Fecha-te, mas sem bater com a porta, na tua torre de marfim. E
a tua torre de marfim és tu próprio. E se alguém te disser que isto é falso e
absurdo não o acredites. Mas não acredites também no que eu digo, porque não se
deve acreditar em nada