Antero de Quental

 

Antero de Quental

 

 

A JOÃO DE DEUS

Se é lei, que rege o escuro pensamento,
Ser vã toda a pesquisa da verdade,
Em vez da luz achar a escuridade,
Ser uma queda nova cada invento;

É lei também, embora cru tormento,
Buscar, sempre buscar a claridade,
E só ter como certa realidade
O que nos mostra claro o entendimento.

O que há de a alma escolher, em tanto engano?
Se uma hora crê de fé, logo duvida;
Se procura, só acha... o desatino!

Só Deus pode acudir em tanto dano:
Esperemos a luz duma outra vida,
Seja a terra degredo, o céu destino.


ASPIRAÇÃO

Meus dias vão correndo vagarosos,
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.

É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.

Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...

Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!


A UM POETA

Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!


BEATRICE

Nem visão, nem real: amor! amor somente!...
Pois quem sabe o que diz esta palavra - amor - ?
Quando deixa cair no peito esta semente,
Diz o que há-de brotar, acaso, o Deus-Senhor

Somente amor... Somente?! e pouco esta palavra? Duas silabas 
só - em pouco um mundo esta - 
Loucos! mas, quando o amor se expande, e cresce, e lavra, 
Bem como incêndio a arder, tão pouco inda será?

Gota, que alaga o mundo! átomo, e após, colosso! 
Mas este nada ou mundo, a mim quem mo aqui pôs! 
Foi Deus! de Deus me vem... e a Deus medir não posso: 
E imenso o que vem dele... os nadas somos nos.

E o nada, que me abriu no peito e, feito imenso, 
O encheu, bem como um vaso, abrindo, encheu a flor, 
Há-de alagar teu peito e ser do templo incenso... 
Mulher! hás-de escutar, que eu vou falar d'amor!

Falar d'amor?!... se ele e como uma essência, 
Que nos perfuma, sem se ver de donde... 
Se ele e como o sorriso da inocência, 
Que inda se ignora e, p'ra sorrir, se esconde... 

Se e o sonho das noites vaporoso, 
Que anda no ar, sem que possamos vê-lo... 
Se e a concha no oceano caprichoso, 
Se e das ondas do mar ligeiro velo... 

Se e suspiro, que oculto se descerra, 
Se escuta, mas se ignora de que banda... 
Se e estrela, que manda a luz a terra, 
Sem se ver de que paramos a manda... 

Se e sonho, que sonhamos acordado... 
Suspiro, que soltamos sem senti-lo... 
Sopro que vai dum lado a outro lado... 
Sopro ou sonho, quem pode repeti-lo? 

Falar do amor... do amor! o sempre-mudo! 
Se e segredo entre dois, como dize-lo, 
Sem divulga-lo, sem que o ouça tudo? 
Se e mistério encoberto, como vê-lo?... 


INTIMIDADE

Quando, sorrindo, vais passando, e toda 
Essa gente te mira cobiçosa, 
Es bela - e se te não comparo a rosa, 
E que a rosa, bem vês, passou de moda... 

Anda-me as vezes a cabeça a roda, 
Atras de ti também, flor caprichosa! 
Nem pode haver, na multidão ruidosa, 
Coisa mais linda, mais absurda e doida. 

Mas e na intimidade e no segredo, 
Quando tu coras e sorris a medo, 
Que me apraz ver-te e que te adoro, flor! 

E não te quero nunca tanto (ouve isto) 
Como quando por ti, por mim, por Cristo, Juras
- mentindo - que me tens amor... 


MARIA

Tenho cantado esperanças... 
Tenho falado d'amores... 
Das saudades e dos sonhos 
Com que embalo as minhas dores... 

Entre os ventos suspirando 
Vagas, ténues harmonias, 
Tendes visto como correm 
Minhas doidas fantasias. 

E eu cuidei que era poesia 
Todo esse louco sonhar... 
Cuidei saber o que e vida 
Sé porque sei delirar... 

Só porque a noite, dormindo 
Ao seio duma visão, 
Encontrava algum alivio, 
Meu dorido coração,

Cuidei ser amor aquilo
E ser aquilo viver...
Oh! que sonhos que se abraçam
Quando se quer esquecer !

Eram fantasmas que a noite
Trouxe, e o dia já levou...
A luz de estranha alvorada
Hoje minha alma acordou !

Esquecei aqueles cantos...
Só agora sei falar !
Perdoa-me esses delírios...
Só agora soube amar !


MORS - AMOR

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce, 
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas, 

Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente, 
Formidável, mas plácido, no porte, 
Vestido de armadura reluzente, 

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!"
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"


NA MÃO DE DEUS

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!


NOCTURNO

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!


NO TURBILHÃO

No meu sonho desfilam as visões,
Espectros dos meus próprios pensamentos,
Como um bando levado pelos ventos,
arrebatado em vastos turbilhões...

Num espiral, de estranhas contorções,
E donde saem gritos e lamentos,
Vejo-os passar, em grupos nevoentos,
Distingo-lhes, a espaços, as feições...

- Fantasmas de mim mesmo e da minha alma,
Que me fitais com formidável calma,
Levados na onda turva do escarcéu,

Quem sois vós, meus irmãos e meus algozes?
Quem sois, visões misérrimas e atrozes?
Ai de mim! ai de mim! e quem sou eu?!...


OCEANO NOX

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o voo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que ideia gravitais?

Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...


O PALÁCIO DA VENTURA

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busca anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão -- e nada mais!


O QUE DIZ A MORTE

Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...

Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem. -

Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das cousas invisíveis, muda e fria,

É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.


PEPA

Dá-me pois olhos e lábios; 
Dá-me os seios, dá-me os braços; 
Dá-me a garganta de lírio; 
Dá-me beijos, dá-me abraços! 

Empresta-me a voz ingénua 
Para eu com ela orar 
A oração de meus cantos 
De teu seio no altar! 

Empresta-me os pés, gazela, 
Para que eu possa correr 
O vasto mundo que se abre 
Num teu rir, num teu dizer! 

Presta-me a tua inocência, 
Para eu ir ao céu voar... 
Mas acende cá teus olhos 
Para que eu possa voltar! 

Por Deus to peço, senhora, 
Que tu mo queiras fazer; 
Dá-me os cílios de teus olhos 
Para eu adormecer; 

Por que, enquanto os tens abertos, 
Sempre para aqui a olhar, 
Não posso fechar os meus, 
E sempre estou a acordar! 

Pela Santa-Virgem peço 
Que tu me queiras sorrir; 
Por que eu tenho um lírio d'ouro 
Há três anos por abrir, 

E, se lhe deres um riso, 
Há-de cuidar que e a aurora... 
E talvez que o lírio se abra, 
Talvez que se abra nessa hora! 

Por Alá, minha palmeira! 
Quando ao sol me for deitar, 
Faze sombra do meu lado... 
Por que eu quero-te abraçar! 

D'amor te requeiro, ondina, 
Quando te fores a erguer, 
Ver-te no espelho das fontes... 
Por que eu quero-te beber!


PRIMEIROS CONSELHOS DO OUTONO

Ouve tu, meu cansado coração, 
O que te diz a voz da Natureza: 
- Mais te valera, nu e sem defesa, 
Ter nascido em aspérrima solidão, 

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão 
Frio e cruel da mais cruel devesa, 
Do que embalar-te a Fada da Beleza, 
Como embalou, no berço da ilusão! 

Mais valera a tua alma visionaria, 
Silenciosa e triste ter passado 
Por entre o mundo hostil e a turba varia, 

(Sem ver uma só flor das mil, que amaste,) 
Com ódio e raiva e dor - que ter sonhado 
Os sonhos ideais que tu sonhaste!> - 


UMA AMIGA

Aqueles que eu amei, não sei que vento 
Os dispersou no mundo, que os não vejo... 
Estendo os braços e nas trevas beijo 
Visões que a noite evoca o sentimento... 

Outros me causam mais cruel tormento 
Que a saudade dos mortos... que eu invejo... 
Passam por mim... mas como que tem pejo 
Da minha soledade e abatimento! 

Daquela primavera venturosa 
Não resta uma flor só, uma só rosa... 
Tudo o vento varreu, queimou o gelo! 

Tu só foste fiel - tu, como dantes, 
Inda volves teus olhos radiantes... 
Para ver o meu mal... e escarnece-lo!

 


Voltar atrás

Hosted by www.Geocities.ws

1