Al Berto

 

Al Berto 

 

 

ACORDAR TARDE 

tocas as flores murchas que alguém te ofereceu
quando o rio parou de correr e a noite
foi tão luminosa quanto a mota que falhou
a curva - e o serviço postal não funcionou
no dia seguinte

procuras ávido aquilo que o mar não devorou
e passas a língua na cola dos selos lambidos
por assassinos - e a tua mão segurando a faca
cujo gume possui a fatalidade do sangue contaminado
dos amantes ocasionais - nada a fazer

irás sozinho vida dentro
os braços estendidos como se entrasses na água
o corpo num arco de pedra tenso simulando
a casa
onde me abrigo do mortal brilho do meio-dia


AVIÃO

envolto num lençol de cal duas cintilações
sobre as pálpebras húmidas e um ardor perfura
a noite onde uma ponte atravessa o rio

o voo é demorado
ficaste a saber que nem deus é eterno
desfez-se no erro daquilo que criou perdeu-se
nas suas imperfeições e certezas

agora
pela janela do avião vês como tudo é mínimo
lá em baixo -- quando a oriente da loucura
a mão cinzenta do inverno perdura no rosto
daqueles que sonolentos viajam dentro
deste pequeno túmulo de serenidade


DIZEM QUE A PAIXÃO O CONHECEU

dizem que a paixão o conheceu 
mas hoje vive escondido nuns óculos escuros 
senta-se no estremecer da noite enumera 
o que lhe sobejou do adolescente rosto 
turvo pela ligeira náusea da velhice 

conhece a solidão de quem permanece acordado 
quase sempre estendido ao lado do sono 
pressente o suave esvoaçar da idade 
ergue-se para o espelho 
que lhe devolve um sorriso tamanho do medo 

dizem que vive na transparência do sonho 
à beira-mar envelheceu vagarosamente 
sem que nenhuma ternura nenhuma alegria 
nenhum ofício cantante 
o tenha convencido a permanecer entre os vivos


DOZE MORADAS DE SILÊNCIO 

hoje é dia de coisas simples 
(Ai de mim! Que desgraça! 
O creme de terra não voltará a aparecer!) 
coisas simples como ir contigo ao restaurante 
ler o horóscopo e os pequenos escândalos 
folhear revistas pornográficas e 
demorarmo-nos dentro da banheira 

na ladeia pouco há a fazer 
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das 
chávenas 
inventaremos palavras cruzadas na areia... jogos 
e murmúrios de dedos por baixo da mesa 
beberemos café 
sorriremos à pessoas e às coisas 
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se 
(se estivesses aqui!) 
em silêncio olharíamos a foz do rio 
é o brincar agitado do sol nas mãos das crianças 
descalças 
hoje


ERAS NOVO AINDA 

eras novo ainda
mal sabia reconhecer os teus próprios erros 
e o uso violento que de noite eu fazia deles 

esta cama de minerais acesos 
escrevo para despertar a fera de sol pelo corpo 
escorrem aves de cuspo para a adolescência da boca 
e junto ao mar existe ainda aquele lugar perdido 
onde a memória te imobilizou 

enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis 
surpreendo-te quando me surpreendes 
pela janela espio a paisagem destruída 
e o coração triste dos pássaros treme 

quando escrevo mar 
o mar todo entra pela janela 
onde debruço a noite do rosto tocado... me despeço


EREMITÉRIO 

mais nada se move em cima do papel 
nenhum olho de tinta iridescente pressagia 
o destino deste corpo 

os dedos cintilam no húmus da terra 
e eu 
indiferente à sonolência da língua 
ouço o eco do amor há muito soterrado 

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço 
no interior dessa ânfora alucinada 

desço com a lentidão ruiva das feras 
ao nervo onde a boca procura o sul 
e os lugares dantes povoados 
ah meu amigo 
demoraste tanto a voltar dessa viagem 

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas 
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão 

assim me habituei a morrer sem ti 
com uma esferográfica cravada no coração


HÁ-DE FLUTUAR UMA CIDADE 

Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu…como seriam felizes as mulheres 
à beira-mar debruçadas para luz caída 
remendando o pano das velas espiando o mar 
e a longitude do amor embarcado 

por vezes 
uma gaivota pousava nas águas 
outras era o sol que cegava 
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite 
os dias lentíssimos …sem ninguém 

e nunca me disseram o nome daquele oceano 
esperei sentada à porta …dantes escrevia cartas 
punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua 
assim envelheci…acreditando que algum homem ao passar 
se espantasse com a minha solidão 

(anos mais tarde ,recordo agora, cresceu-me uma pérola no 
coração ,mas estou só ,muito só ,não tenho a quem a deixar.) 

um dia houve 
que nunca mais avistei cidades crepusculares 
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta 
inclino-me de novo para o pano deste século 
recomeço a bordar ou a dormir 
tanto faz 
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade


LISBOA 

por trás dos muros da cidade
no seu coração profundo de alicerces
de argilas e de sísmicos arroios - cresce uma voz
que sobe e fende a brandura das casas

da escrita dos enumeráveis povos quase
nada resta - deitas-te exausto na lâmina da lua
sem saberes que o Tejo te corrói e te suprime
de todas as idades da Europa

mais além - para os lados do corpo - permanece
a tosse dos cacilheiros os olhos revirados
dos mendigos - o tecto onde um navio
nos separa de um vácuo alimentado a soro

plátanos brancos recortam-se luminescentes no olhar
de quem nos olha contra um céu desesperado - jardim
de íris açucenas palmeiras cobertas de rocio e
a ponte que nos leva aos campos do sul - Lisboa

lugar derradeiro do riso
que já não te pode salvar do cemitério dos prazeres

e morres
carregado de tristezas e de mistérios - morres
algures
sentado numa praceta de bairro - o olhar fixo
no inferno marítimo das aves


MUDANÇA DE ESTAÇÃO

para te manteres vivo -- todas as manhãs
arrumas a casa sacodes tapetes limpas o pó e
o mesmo fazes com a alma -- puxas-lhe o brilho
regas o coração e o grande feto verde - granulado

deixas o verão deslizar de mansinho 
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio -- uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento

passa um bando de andorinhões rente à janela
sobrevoam o rosto que surge do mar - crepúsculo
donde se soltaram as abelhas incompreensíveis
da memória

luzeiros marinhos sobre a pele - peixes
que se enforcam com a corda de noctilucos
estendida nesta mudança de estação 


OFÍCIO DE AMAR 

já não necessito de ti 
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste 
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o remorso 

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio 
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração 
não, não preciso mais de mim 
possuo a doença dos espaços incomensuráveis 
e os secretos poços dos nómadas 

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto 
deixei de estar disponível, perdoa-me 
se cultivo regularmente a saudade do meu próprio corpo 


RECADO 

ouve-me 
que o dia te seja limpo e 
a cada esquina de luz possas recolher 
alimento suficiente para a tua morte 

vai até onde ninguém te possa falar 
ou reconhecer - vai por esse campo 
de crateras extintas - vai por essa porta 
de água tão vasta quanto a noite 

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te 
a as loucas aveias que o ácido enferrujou 
erguerem-se na vertigem do voo - deixa 
que o outono traga os pássaros e as abelhas 
para pernoitarem na doçura 
do teu breve coração - ouve-me 

que o dia te seja limpo 
e para lá da pele constrói o arco de sal 
a morada eterna- o mar por onde fugirá 
o etéreo visitante desta noite 

não esqueças o navio carregado de lumes 
de desejos em poeira - não esqueças o ouro 
de marfim - os sessenta comprimidos letais 
ao pequeno almoço 


RETRATO DE FUGITIVO

ele caminha pela solidão nocturna dos quartos de hotel
e de fotografia em fotografia chega exausto
ao minucioso poema a preto e branco
mas já não o surpreende a violenta visão do mundo
este lento destroço que um liquido sussurro de prata
revela a partir de iluminada fracção de segundo

e bebe
e ama

e foge de si mesmo
com a leica pronta a ferir como uma bala ecoando
no fundo da memória um néon uma pedra
uma arquitectura de luz e sombra ou um deserto
onde se debruça para retocar os dias com um
lápis
na certeza que sobrevirá a estes perfeitos acidentes
a estes restos de corpos a pouco e pouco turvos
pelo tempo pelo sono ou pela melancolia

mas regressa sempre à transumância das cidades
quando a alba do flash prende o furtivo gesto
sobre o papel fotográfico morre o misterioso fugitivo
depois
vem o medo
que se desprende do olhar imobilizado
e do rosto fotografado
nasce uma vida de infinito caos


SEM TÍTULO E BASTANTE BREVE 

Tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e
com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor....

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,
não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, á beira mar...

dizem que ao possuir tudo isto
poderia Ter sido um homem feliz, que tem por defeito
interrogar-se acerca da melancolia das mãos....
... esta memória lamina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
.... que sei eu sobre as tempestades do sangue? 
E da água?
no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas...

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão


TENTATIVAS PARA UM REGRESSO À TERRA 

O sol ensina o único caminho
a voz da memória irrompe lodosa
ainda não partimos e já tudo esquecemos
caminhamos envoltos num alvéolo de ouro fosforescente
os corpos diluem-se na delicada pele das pedras

falamos rios deste regresso e pelas margens ressoam
passos
os poços onde nos debruçamos aproximam-se
perigosamente
da ausência e da sede procuramos os rostos na água
conseguimos não esquecer a fome que nos isolou
de oásis em oásis

hoje
é o sangue branco das cobras que perpetua o lugar
o peso de súbitas cassiopeias nos olhos
quando o veludo da noite vem roer a pouco e pouco
a planície

caminhamos ainda
sabemos que deixou de haver tempo para nos olharmos
a fuga só é possível dentro dos fragmentados corpos
e um dia......quem sabe?
chegaremos


TRABALHOS DO OLHAR 

Escrevo-te a sentir tudo isto...
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos
nos sais de prata da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos
sussurrados junto ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfurica borboleta revelando-se
na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade
que a pouco
e pouco morde a sua imobilidade...

... habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens , radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara...
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado
de finos bagos de romã
repara...
como o coração de papel amareleceu no esquecimento
de te amar... 


TRUQUE DO MEU AMIGO DE RUA

ao acaso encontrei-te encostado a uma esquina
olhar vazio varrendo a multidão, parei
sorri e tu vieste, fomos andando
os ombros tocavam-se, em direcção a casa
pediste-me para tomar um duche, eu deitei-me
ouvi o barulho da água resvalando pelo teu corpo sujo da
cidade e de engates
sujo pelos dias e noites e mais dias que não tive
esperei-te deitado, outro cigarro
e ainda espero
gosto dos corpos que riem, frescos
rasgam-se à ternura nocturna dos dedos, e ao desejo
húmido da boca, que sempre percorre e descobre

tacteio-te de alto a baixo
reconhecendo-te num gemido que também me pertence,
no escuro
contaste-me uma improvável aventura de tarzan, ouvia-te
e no silêncio do quarto fulguravam aves que só eu via
sorri ao enumerar os restos que a manhã encontraria pelo
chão
manchas de esperma, ténis esburacados, calças
sujíssimas, blusão cheio de autocolantes, peúgas
encortiçadas pelo suor
as cuecas rotas, sujas de merda
e tuas mãos, recordo-me
sobretudo de tuas mãos imensas sobre o peito
teu corpo nu, à beira da cama, no sossegado sono


TRUQUE INOXIDÁVEL 

Faca 
repito faca 
escrevo faca pelo corpo, desenho faca no peito da noite 
desembaraço-me do sumo inoxidável doutra faca 
faca 
sorrio faca no escuro dum beco 

- Hoje não matarás!


UMA PAIXÃO 

Visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem

antes que desperte em mim o grito
de alguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te


VIGÍLIAS 

Quando aqui não estás 
o que nos rodeou põe-se a morrer 

a janela que abre para o mar 
continua fechada só nos sonhos 
me ergo 
abro-a 
deixo a frescura e a força da manhã 
escorrem pelos dedos prisioneiros 
da tristeza 
acordo 
para a cegante claridade das ondas 

um rosto desenvolve-se nítido 
além 
rasando o sal da imensa ausência 
uma voz 

quero morrer 
com uma overdose de beleza 

e num sussurro o corpo apaziguado 
perscruta esse coração 
esse 
solitário caçador

 


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