António Gedeão

 

António Gedeão

 

 

A FUNDA 

Arranquei à pele do peito, 
com os dedos ensanguentados, 
um rectângulo perfeito 
de cem centímetros quadrados. 

Estendi-o ao sol a curtir 
a haurir uns raios que projectam 
certo incógnito elixir 
que os detectares não detectam. 

Depois de bem seco e rijo 
prendi-lhe, nos quatros cantos, 
quatro nervos desses tantos 
com que me franjo e me aflijo. 

Eis-me de funda na mão 
no mais erecto dos montes, 
devassando os horizontes 
com os pés bem presos no chão, 
as pernas em ângulo agudo 
para assentar com firmeza 
nessa dúvida de tudo 
tão certa como a certeza. 

Só, entre os fundibulários, 
no centro dos meus domínios, 
como o pastor dos Hermínios 
na defesa dos contrários, 
ponho na funda um poema 
de agrestes arestas vivas, 
e em rotações sucessivas 
de celeridade extrema, 
com todo o vigor do braço, 
como o vento em torvelinho, 
lanço o poema no espaço 
no seu exacto caminho.


AMADOR SEM COISA AMADA

Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.

Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.

Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.


DEZ REIS DE ESPERANÇA

Se não fosse esta certeza 
que nem sei de onde me vem, 
não comia, nem bebia, 
nem falava com ninguém. 
Acocorava-me a um canto, 
no mais escuro que houvesse, 
punha os joelhos à boca 
e viesse o que viesse. 
Não fossem os olhos grandes 
do ingénuo adolescente, 
a chuva das penas brancas 
a cair impertinente, 
aquele incógnito rosto, 
pintado em tons de aguarela, 
que sonha no frio encosto 
da vidraça da janela, 
não fosse a imensa piedade 
dos homens que não cresceram, 
que ouviram, viram, ouviram, 
viram, e não perceberam, 
essas máscaras selectas, 
antologia do espanto, 
flores sem caule, flutuando 
no pranto do desencanto, 
se não fosse a fome e a sede 
dessa humanidade exangue, 
roía as unhas e os dedos 
até os fazer em sangue. 


DOR DE ALMA 

Meu pratinho de arroz doce 
polvilhado de canela; 
Era bom mas acabou-se 
desde que a vida me trouxe 
outros cuidados com ela. 

Eu, infante, não sabia 
as mágoas que a vida tem. 
Ingenuamente sorria, 
me aninhava e adormecia 
no colo da minha mãe. 

Soube depois que há no mundo 
umas tantas criaturas 
que vivem num charco imundo 
arrancando arroz do fundo 
de pestilentas planuras. 

Um sol de arestas pastosas 
cobre-os de cinza e de azebre 
à flor das águas lodosas, 
eclodindo em capciosas 
intermitências de febre. 

Já não tenho o teu engodo, 
Ó mãe, nem desejo tê-lo. 
Prefiro o charco e o lodo. 
Quero o sofrimento todo, 
Quero senti-lo, e vencê-lo. 


ESTA É A CIDADE

Esta é a Cidade, e é bela.
Pela ocular da janela
foco o sémen da rua.
Um formigueiro se agita,
se esgueira, freme, crepita,
ziguezagueia e flutua.

Freme como a sede bebe
numa avidez de garganta,
como um cavalo se espanta
ou como um ventre concebe.

Treme e freme, freme e treme,
friorento voo de libélula
sobre o charco imundo e estreme.
Barco de incógnito leme
cada homem, cada célula.
É como um tecido orgânico
que não seca nem coagula,
que a si mesmo se estimula
e vai, num medido pânico.

Aperfeiçoo a focagem.
Olho imagem por imagem
numa comoção crescente.
Enchem-se-me os olhos de água.
Tanto sonho! Tanta mágoa!
Tanta coisa! Tanta gente!
São automóveis, lambretas,
motos, vespas, bicicletas,
carros, carrinhos, carretas,
e gente, sempre mais gente,
gente, gente, gente, gente,
num tumulto permanente
que não cansa nem descansa,
um rio que no mar se lança
em caudalosa corrente.

Tanto sonho! Tanta esperança!
Tanta mágoa! Tanta gente!


ESTE É O POEMA DE AMOR 

Este é o poema do amor. 
O poema que o poeta propositadamente escreveu 
só para falar de amor, 
de amor, 
de amor, 
de amor, 
para repetir muitas vezes amor, 
amor, 
amor, 
amor. 
Para que um dia, quando o Cérebro Electrónico 
contar as palavras que o poeta escreveu, 
tantos que, 
tantos se, 
tantos lhe, 
tantos tu, 
tantos ela, 
tantos eu, 
conclua que a palavra que o poeta mais vezes escreveu 
foi amor, 
amor, 
amor. 
Este é o poema do amor.


FALA DO HOMEM NASCIDO

Chega à boca da cena, e diz: 
Venho da terra assombrada, 
do ventre da minha mãe; 
não pretendo roubar nada 
nem fazer mal a ninguém. 
Só quero o que me é devido 
por me trazerem aqui, 
que eu nem sequer fui ouvido 
no acto de que nasci. 

Trago boca para comer 
e olhos para desejar. 
Com licença, quero passar, 
tenho pressa de viver. 
Com licença! Com licença! 
Que a vida é água a correr. 
Venho do fundo do tempo; 
não tenho tempo a perder. 

Minha barca aparelhada 
solta o pano rumo ao norte; 
meu desejo é passaporte 
para a fronteira fechada. 
Não há ventos que não prestem 
nem marés que não convenham, 
nem forças que me molestem, 
correntes que me detenham. 
Quero eu e a Natureza, 
que a Natureza sou eu, 
e as forças da Natureza 
nunca ninguém as venceu. 

Com licença! Com licença! 
Que a barca se faz ao mar. 
Não há poder que me vença. 
Mesmo morto hei-de passar. 
Com licença! Com licença! 
Com rumo à estrela polar. 


FORMA DE INOCÊNCIA 

Hei-de morrer inocente 
exactamente 
como nasci. 
Sem nunca ter descoberto 
o que há de falso ou de certo 
no que vi. 

Entre mim e a Evidência 
paira uma névoa cinzenta. 
Uma forma de inocência, 
que apoquenta. 

Mais que apoquenta: 
enregela 
como um gume 
vertical. 
E uma espécie de ciúme 
de não poder ver igual.


GOTA DE ÁGUA

Eu, quando choro. 
não choro eu. 
Chora aquilo que nos homens 
em todo tempo sofreu. 
As lágrimas são as minhas 
mas o choro não é meu.


IMPRESSÃO DIGITAL 

Os meus olhos são uns olhos, 
e é com esses olhos uns 
que eu vejo no mundo escolhos, 
onde outros, com outros olhos, 
não vêem escolhos nenhuns. 

Quem diz escolhos, diz flores! 
De tudo o mesmo se diz! 
Onde uns vêem luto e dores, 
uns outros descobrem cores 
do mais formoso matiz. 

Pelas ruas e estradas 
onde passa tanta gente, 
uns vêem pedras pisadas, 
mas outros gnomos e fadas 
num halo resplandecente!! 

Inútil seguir vizinhos, 
querer ser depois ou ser antes. 
Cada um é seus caminhos! 
Onde Sancho vê moinhos, 
D.Quixote vê gigantes. 

Vê moinhos? São moinhos! 
Vê gigantes? São gigantes!


LÁGRIMA DE PRETA 

Encontrei uma preta 
que estava a chorar, 
pedi-lhe uma lágrima 
para a analisar. 

Recolhi a lágrima 
com todo o cuidado 
num tubo de ensaio 
bem esterilizado. 

Olhei-a de um lado, 
do outro e de frente: 
tinha um ar de gota 
muito transparente. 

Mandei vir os ácidos, 
as bases e os sais, 
as drogas usadas 
em casos que tais. 

Ensaiei a frio, 
experimentei ao lume, 
de todas as vezes 
deu-me o que é costume: 

nem sinais de negro, 
nem vestígios de ódio. 
Água (quase tudo) 
e cloreto de sódio.


MÁQUINA DO MUNDO 

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma. 
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea. 
Espaço vazio, em suma. 
O resto, é a matéria. 
Daí, que este arrepio, 
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo, 
esta fresta de nada aberta no vazio, 
deve ser um intervalo. 


PEDRA FILOSOFAL 

Eles não sabem que o sonho 
é uma constante da vida 
tão concreta e definida 
como outra coisa qualquer, 
como esta pedra cinzenta 
em que me sento e descanso, 
como este ribeiro manso 
em serenos sobressaltos, 
como estes pinheiros altos 
que em verde e oiro se agitam, 
como estas aves que gritam 
em bebedeiras de azul. 

Eles não sabem que o sonho 
é vinho, é espuma, é fermento, 
bichinho álacre e sedento, 
de focinho pontiagudo, 
que fossa através de tudo 
num perpétuo movimento 

Eles não sabem que o sonho 
é tela, é cor, é pincel. 
base, fuste, capitel, 
arco em ogiva, vitral, 
pináculo de catedral, 
contraponto, sinfonia, 
máscara grega, magia, 
que é retorta de alquimista, 
mapa do mundo distante, 
rosa-dos-ventos, Infante, 
caravela quinhentista, 
que é Cabo da Boa Esperança, 
ouro, canela, marfim, 
florete de espadachim, 
bastidor, passo de dança, 
Columbina e Arlequim, 
passarola voadora, 
pára-raios, locomotiva, 
barco de proa festiva, 
alto-forno, geradora, 
ultra-som, televisão, 
desembarque em foguetão 
na superfície lunar. 

Eles não sabem, nem sonham 
que o sonho comanda a vida. 
Que sempre que o homem sonha 
o mundo pula e avança 
como bola colorida 
entre as mão de uma criança.


POEMA DA MALTA DAS NAUS 

Lancei ao mar um madeiro, 
espetei-lhe um pau e um lençol. 
Com palpite marinheiro 
medi a altura do Sol. 

Deu-me o vento de feição, 
levou-me ao cabo do mundo, 
pelote de vagabundo, 
rebotalho de gibão. 

Dormi no dorso das vagas, 
pasmei na orla das praias, 
arreneguei, roguei pragas, 
mordi peloiros e zagaias. 

Chamusquei o pêlo hirsuto, 
tive o corpo em chagas vivas, 
estalaram-me as gengivas, 
apodreci de escorbuto. 

Com a mão esquerda benzi-me, 
Com a direita esganei. 
Mil vezes no chão, bati-me, 
outras mil me levantei. 

Meu riso de dentes podres 
ecoou nas sete partidas. 
Fundei cidades e vidas, 
rompi as arcas e os odres. 

Tremi no escuro da selva, 
alambique de suores. 
Estendi na areia e na relva 
mulheres de todas as cores. 

Moldei as chaves do mundo 
a que outros chamaram seu, 
mas quem mergulhou no fundo 
do sonho, esse, fui eu. 

O meu sabor é diferente. 
Provo-me e saibo-me a sal. 
Não se nasce impunemente 
nas praias de Portugal. 


POEMA DO CORAÇÃO 

Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração, 
e também a Bondade, 
e a Sinceridade, 
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração. 
Então poderia dizer-vos: 
"Meus amados irmãos, 
falo-vos do coração", 
ou então: 
"com o coração nas mãos". 

Mas o meu coração é como o dos compêndios 
Tem duas válvulas (a tricúspida e a mitral) 
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos). 
O sangue a circular contrai-os e distende-os 
segundo a obrigação das leis dos movimentos. 

Por vezes acontece 
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados, 
e uma lâmina baça e agreste, que endurece 
a luz dos olhos em bisel cortados. 
Parece então que o coração estremece. 
Mas não. 
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático, 
que esse vento que sopra e que ateia os incêndios, 
é coisa do simpático. Vem tudo nos compêndios. 

Então, meninos! 
Vamos à lição! 
Em quantas partes se divide o coração? 


POEMA DO HOMEM-RÃ

Sou feliz por ter nascido
no tempo dos homens-rãs
que descem ao mar perdido
na doçura das manhãs.
Mergulham, imponderáveis,
por entre as águas tranquilas,
enquanto singram, em filas,
peixinhos de cores amáveis.
Vão e vêm, serpenteiam,
em compassos de ballet.
Seus lentos gestos penteiam
madeixas que ninguém vê.

Com barbatanas calçadas
e pulmões a tiracolo,
roçam-se os homens no solo
sob um céu de águas paradas.

Sob o luminoso feixe
correm de um lado para outro,
montam no lombo de um peixe
como no dorso de um potro.

Onde as sereias de espuma?
Tritões escorrendo babugem?
E os monstros cor de ferrugem
rolando trovões na bruma?

Eu sou o homem. O Homem.
Desço ao mar e subo ao céu.
Não há temores que me domem
É tudo meu, tudo meu.

 


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