António Ramos Rosa

 

António Ramos Rosa

 

 

MEDIADORA DA PALAVRA

Um rumor irrompe das nocturnas
margens. Sombras deslumbrantes.
Um fulgor que desnuda e que despoja.
Campo de água ágil. Dança

Imóvel. Uma cegueira arde
Incendiando o tempo. Pátria
áspera de delicado alento.
Soberano marulhar do inexplorável.

Unânime é a pedra. Selvagem
a palavra despedaça a língua.
Um silêncio central domina e orienta
A substancia primária. A palavra inicia.

Rapidez da água entre resíduos
obscuros. Talvez o diadema.
Talvez a obscura dança aérea.
O leve poder do fogo, as suas marcas

ácidas. Pulsação
dos poros. Ardor do silêncio
no nocturno centro. Fulgor do desejo.
Uma deusa de água espraia-se nas palavras.


MEDIADORA DO MUTISMO

Onde não começa o sopro
no côncavo da língua muda
o peso da sombra entre ruínas,
falha que nunca coincide.

Silêncio do incontível, como 
recusar a veemência
desta cegueira? Antes da fuga
Das formas, no sem fundo

Inabitável. Artérias vivas,
estrelas, relâmpagos,
jorrarão da obscuridade vermelha?
E as palavras serão o espaço

Do grito,
o espaço de nada, o espaço
do espaço,
a obscura dor da terra?


NO FUNDO ABERTO 

Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge 
e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso 
como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha. 
Chegaste comigo ao fundo aberto sob um céu marinho, 
sobre o qual se desenham as nuvens e as árvores. 
Estamos na aurícula do coração do mundo. 
O que perdemos ganhamo-lo na ondulação da terra. 
Tudo o que queremos dizer sai dos lábios do ar 
e é a felicidade da língua vegetal 
ou a cabeça leve que se inclina para o oriente. 
Ali tocamos um nó, uma sílaba verde, uma pedra de sangue 
e um harmonioso astro se eleva como uma espádua fulgurante 
enquanto um sopro fresco passa sobre as luzes e os lábios.


O BOI DA PACIÊNCIA

Teoricamente livre para navegar entre estrelas
minha vida tem limites assassinos
Supliquei aos meus companheiros: 
Mas fuzilem-me!
Inventei um deus só para que me matasse
Muralhei-me de amor
e o amor desabrigou-me
Escrevi cartas a minha mãe desesperadas
colori mitos e distribuí-me em segredo
e ao fim e ao cabo
recomeçar
Mas estou cansado de recomeçar!


O OLHAR DE MURILO MENDES 

O olhar de Murilo Mendes abre-se às forças da origem 
e num lento silêncio até ao fundo do imóvel 
inaugura a nupcial articulação. 
Vazio e presença, ruptura e aliança 
na atenção aguda à evidência e ao enigma. 
Os deuses mostram-se então na imobilidade do ar 
e no puro instante da contemplação irisam-se. 
E o olhar abre-se imensamente às nascentes nocturnas 
captando o eco perdido em cada coisa. 
Nessa glória que ilumina tudo, é alta e rapidíssima 
a língua da visão que contorna os confins 
e deixa transparecer o indivisível círculo 
que em si preserva o silêncio divino e o fulgor 
de umas quantas palavras que pulsam como estrelas.


POEMA DE UM FUNCIONÁRIO CANSADO

A noite trocou-me os sonhos e as mãos 
dispersou-me os amigos 
tenho o coração confundido e a rua é estreita 
estreita em cada passo 
as casas engolem-nos
sumimo-nos 
estou num quarto só num quarto só 
com os sonhos trocados 
com toda a vida às avessas a arder num quarto só 
Sou um funcionário apagado 
um funcionário triste 
a minha alma não acompanha a minha mão 
Débito e Crédito Débito e Crédito 
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente 
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino 
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.


POEMAS 

Na grande confusão 
deste medo 
deste não querer saber 
na falta de coragem 
ou na coragem de 
me perder me afundar 
perto de ti tão longe 
tão nu 
tão evidente 
tão pobre como tu 
oh diz-me quem sou eu 
quem és tu?


PORQUE NÃO SOUBE MERECER 

Porque não soube merecer a glória, a mais suave 
de me deitar a teu lado 
e que o sangue a palavra 
abolisse a diferença entre o meu corpo e a minha voz 
porque te perdi 
não sei quem sou


QUE COR Ó TELHADOS DE MISÉRIA 

Que cor ó telhados de miséria 
onde nasci 
de tanta pequenez de tão humildes ovos 
de nenhum querer 
a que horas nasceram as estrelas que 
um dia foram 
a que horas nasci? 

Não vim embarcado não me encontrei 
na rua 
não nos vimos 
não nos beijamos 
nunca parti 

Não sei que idade tenho 

Quando havia antes um antigamente 
havia uma esperança 
agora no próprio coração da ilusão 
onde a água limpa as pedras das ruínas 
entre destroços límpidos 
deito-me sobre a minha sombra e durmo 
e durmo 

Quando havia antes um amanhecer 
à beira do abismo 
agora no próprio coração do coração 
durmo estrangulando um monstro inerme 
um palhaço de palha seca e pálido 
quando havia antes um caminho 

Não houve nunca amigos nem, pureza 
Nem carinhos de mãe salvam a noite 
É preciso ir mais longe na incerteza 
É preciso no silêncio não escutar 

A manhã que eu procuro não foi sonhada 
Uma árvore me ignora na raiz 
Perfeitamente desesperado é o meu sonho 
Os pássaros insultam-me na cama 
Só com doidos com doidos amaria 
perfeitamente presente na frescura 
do mar 

Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço 
a líquida frescura duma jarra 
um passo leve e certo em cada sombra 
um ninho em cada ouvido 
de doces abelhas cegas 

Uma casa uma caixa de música e sossego 
Um violão adormecido na doçura 
Um mar longínquo à volta atrás do campo 
Uma inundação de verdura e espessa paz 
Uma repetida e vasta constelação de grilos 
e os galos álacres do silêncio 

Um mar de espuma e alegria obscura 
um mar de espuma e alegria clara 
entre o verde e a brisa 

Na brancura dos quartos 
a inocência poderá sonhar desnuda 
os insectos poderão entrar 
juntamente com as plantas e as aves 
Uma longa asa passará 
O mundo e o silêncio a mesma ave 
e o mar 
o mudo leão longínquo e fresco 
faiscará entre o ver e as lâminas solares


TAL COMO ANTIGAMENTE 

Tal como antigamente tal como agora 
essa estrela esse muro 
esse lento 
esse morto 
sorrir 
nenhum acaso 
nenhuma porta 
impossível sair


TEU CORPO PRINCIPIA

Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio. 

Invento a alegria 
da terra que habito 
porque nela moro. 

Invento do meu nada 
esta pergunta. 
(Nesta hora, aqui.) 

Descubro esse contrário 
que em si mesmo se abre: 
ou alegria ou morte. 

Silêncio e sol - verdade, 
respiração apenas. 

Amor, eu sei que vives 
num breve país.

Os olhos imagino 
e o beijo na cintura, 
ó tão delgada.

Se é milagre existires, 
teus pés nas minhas palmas. 

O maravilha, existo 
no mundo dos teus olhos. 

O vida perfumada 
cantando devagar. 

Enleio-me na clara 
dança do teu andar. 

Por uma água tão pura 
vale a pena viver. 

Um teu joelho diz-me 
a indizível paz.


TU PENSAS QUE OS CARDEAIS

Tu pensas que os cardeais
não se masturbam,
que não vêem
as telenovelas,
que vêem, quando muito, os filmes de Bergman
e o Evangelho segundo São Mateus de Pasolini.
Não, eles nunca lêem os livros pornográficos
e nunca pensaram em ter amantes.
Eles não conhecem o turbilhão das visões
das figuras eróticas,
eles lêem os exercícios espirituais
de Santo Inácio
e têm o odor da santidade
e irão para o céu porque nunca pecaram,
nunca acariciaram um pénis,
nunca o desejaram túmido e ardente
na sua boca casta.

Ah os cardeais como são exemplares
mesmo quando os espelhos os perseguem
com os membros e órgãos de mulheres
na fulguração da nudez liquida e candente!

Todavia eu conheço a obstinada chama
do desejo,
a sua glauca ondulação,
os seus olhos deslumbrados pela oceânica
vertigem
de um corpo embriagado pela sua simetria
e pela volúvel coerência
dos seus astros dispersos.

Não, eu não creio na inocência imaculada
dos solenes cardeais.
Eu sei que a sua carne é a mesma argila
incandescente e turva
de que o meu corpo frágil é composto.
Eles conhecem o sofrimento de ser duplos,
o vazio do desejo,
a violência nua das imagens monstruosas,
a adolescência do fogo nos labirintos negros.

Mas eu sei que os cardeais não gritam,
nem levantam a voz,
nem atravessam a fronteira do pudor
e adormecem ao rumor das orações.
É esta imagem que eu quero conservar
na religiosa monotonia do meu sono.


UMA PAUSA, NÃO DE PLUMAS, MAS ELÁSTICA 



Uma pausa, não de plumas, mas elástica, 
que demorasse em si a paz ardente 
e o ardor profundo de uma alta instância. 
Que fosse o esquecimento na folhagem 
e a espessa transparência da matéria. 
O pulso pronunciaria a amplitude 
do instante inocente. A obra acender-se-ia 
na inteligência dos signos mais aéreos. 


A inadvertência pode ser um prelúdio carnal 
na volúvel leitura de quem adormeceu. 
O sono dá ao sangue o ócio e as cores do enxofre. 
Por uma forma ausente a matéria ramifica-se 
na insolência branda de umas ruínas perfeitas. 
Um aroma rebenta da axila negra de um animal de vidro. 
Como um veleiro de fogo uma cabeleira ondula. 
A garganta do mar atira os seus pássaros de espuma. 
Uma rapariga de pedra caminha entre os arbustos de fogo. 
É a abundância da origem e o seu orvalho azul. 
São as armas vegetais sobre as janelas da terra. 
É a frescura do vidro nas cintilantes sílabas. 


Na justa monotonia do meio-dia 
oiço o prodígio do repouso e a paixão adormecida. 
O concêntrico sopro imobiliza-se. É uma lâmpada 
de pedra fulgurante. Tudo é nítido mas ausente. 
O mundo todo cabe no olvido e o olvido é transparência 
de um denso torso que a nostalgia acende. 
No silêncio sinto numa só cadência 
a vociferação e o tumulto das pálpebras e dos astros. 
Pelas veias o fogo da cal é branco e liso 
e a mais remota substância culmina num rumor redondo.


UMA VOZ NA PEDRA

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio. 
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.



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