Vitorino Nemésio

 

Vitorino Nemésio 

 

 

A CONCHA

A minha casa é concha. Como os bichos 
Segreguei-a de mim com paciência: 
Fachada de marés, a sonho e lixos, 
O horto e os muros só areia e ausência. 

Minha casa sou eu e os meus caprichos. 
O orgulho carregado de inocência 
Se às vezes dá uma varanda, vence-a 
O sal que os santos esboroou nos nichos. 

E telhados de vidro, e escadarias 
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso! 
Lareira aberta ao vento, as salas frias. 

A minha casa... Mas é outra a história: 
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço, 
Sentado numa pedra de memória.


ARTE POÉTICA 

A poesia do abstracto... 
Talvez. 
Mas um pouco de calor, 
A exaltação de cada momento 
É melhor. 
Quando sopra o vento 
Há um corpo na lufada; 
Quando o fogo alteou 
A primeira fogueira, 
Apagando-se fica alguma coisa queimada. 
É melhor... 
Uma ideia 
Só como sangue de problemas; 
No mais, não, 
Não me interessa. 
Uma ideia 
Vale como promessa 
E prometer é arquear 
A grande flecha. 
O flanco das coisas só sangrando me comove, 
E uma pergunta é dolorida 
Quando abre brecha. 
Abstracto! 
O abstracto é sempre redução, 
Secura; 
Perde - 
E diante de mim o mar que se levanta é verde: 
Molha e amplia... 
Por isso, não: 
Nem o abstracto nem o concreto 
São propriamente poesia. 
A poesia é outra coisa. 
Poesia e abstracto, não. 


INDÍCIO VELADO 

Não toques, distância, no seu cabelo molhado; 
Não lhe mexas. Rosto puro, às aguas posto e preso, 
Uma imagem será o seu único peso, 
Um pensamento o único beijo que me há dado. 

Que o Índico persiga o indício velado; 
Decore o Mar Vermelho o forte rosto aceso - 
Mas não para morrer: para menos desprezo; 
E eu próprio fique em meu amor atenuado. 

Oh! platónico amor de ninguém e de alguma, 
Espectro que criei e rodeei de lágrimas, 
Vénus ainda ao longe no aro da minha espuma! 

Imagem, força de vontade, imagem 
Viva ou morta, não sei; imagem acre... mas 
Verdadeira e suave, isso mais que nenhuma! 


OUTRO TESTAMENTO

Quando eu morrer deitem-me nu à cova 
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova 
Para o amante que a não quis. 

Façam coisas bonitas por minha alma: 
Espalhem moedas, rosas, figos. 
Dando-me terra dura e calma, 
Cortem as unhas aos meus amigos. 

Quando eu morrer mandem embora os lírios: 
Vou nu, não quero que me vejam 
Assim puro e conciso entre círios vergados. 
As rosas sim; estão acostumadas 
A bem cair no que desejam: 
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes 
Que minha Mulher me trouxe: 
Ficam para o seu cabelo de viúva, 
Ali, em vez da minha mão; 
Ali, naquela cara doce... 
Ficam para irritar a turba 
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação. 

Quando eu morrer e for chegando ao cemitério, 
Acima da rampa, 
Mandem um coveiro sério 
Verificar, campa por campa 
(Mas é batendo devagarinho 
Só três pancadas em cada tampa, 
E um só coveiro seguro chega), 

Se os mortos têm licor de ausência 
(Como nas pipas de uma adega 
Se bate o tampo, a ver o vinho): 
Se os mortos têm licor de ausência 
Para bebermos de cova a cova, 
Naturalmente, como quem prova 
Da lavra da própria paciência. 

Quando eu morrer. . . 
Eu morro lá! 
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras, 
Pois quando me comovo até o osso é sonoro. 

Minha casa de sons com o morador na lua, 
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado: 
Minha morte civil será uma cena de rua; 
Palavras, terras onde moro, 
Nunca vos deixarei. 

Mas quando eu morrer, só por geometria, 
Largando a vertical, ferida do ar, 
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos; 
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar; 
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos, 
E levem-me - só horizonte - para o mar.


REQUIESCAT

Direi, pela noite, não ódio que tivesse
Nem detestar vida corpórea e ninhos de manha,
Mas meu alto cansaço, a tristeza de lá
Onde se sente o aqui traído, a falsa entranha.

Direi --- não "fora!" ao mundo que me cinge
(Outro onde o sei e como chegaria?),
Mas dos anos de ver, pensar durando
Retiro uma moeda de nada,
Fruto do meu suor, e pago o pão que se me deve,
Compro o silêncio que se me deve
Por ter cumprido a palavra,
Trabalhado nas palavras,
E por elas merecido a terra leve.


SEMÂNTICA ELECTRÓNICA

Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!

 


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