Soares Feitosa

 

Soares Feitosa

 

 

ABISMO EM TRÊS DIAS 

I - Do Primeiro Dia: Insónia

Não me culpe, 
nunca tive culpa da brisa.

Sim, 
para alcançar o vale, 
há que saltar sobre o abismo.

Era uma noite de verão,
o convite ao chope,
quando os olhos,
inesperados
se agarram sob a fagulha,
que verd'azuis eram os olhos:

-- Seu nome?

Sim,
sou,
sou eu que já te procurava.

A mim, a ti.

Uma despedida rapidíssima,
e o telefone,
sob um número,
para uma noite impossível
assentar 
quaisquer ideias 
que voam latejadas.

Por enquanto,
absoluta incerteza do presente:
amanheça.

II - Do Segundo Dia: O Encontro

Encontram-se agora,
aqui, 
em nós dois 
alma, voz, gesto, 
como se 
de muitos fossem os tempos 
para além da fronteira de todo o Tempo.

Desde,
ali 
encontram-se, 
encontraram-se, 
pois a certeza que nos cerca: 
somos.
Impossível dormir, 
nesta segunda noite, 
dança-me à mente o bailado dos fantasmas. 
Por que não antes?

Das incertezas, 
porém, 
que permanecem:

Ela, 
que também as sorveu: 
dia seguinte, 
nos soubemos cada qual de si, 
as incertezas. 
Sim, 
sou. 
Pelos tempos, 
o tempo todo.

Mas, agora - boa noite - 
a pracinha, as luzes, o calçadão, 
é tudo incerto.

Haverá um amanhã?

Irrefutáveis porém 
a insónia, 
a fagulha, o incêndio.

III - No Terceiro Dia: Até

Mudem-se os trajectos,
rasguem-se os folhetos,
devolvam-se os itinerários da viagem
que não deve ser feita hoje de noite.

Nenhuma viagem, que não a do coração, 
deve ser feita, 
jamais 
à noite.

Vá, 
deixe para ir amanhã de manhã, porém.

Pertença-nos, 
com as certezas e a penugem, 
a noite 
quando os gatos, 
à beira dos incêndios, 
nunca são pardos.

É assim mesmo?

De onde nos saem enlevos tantos? 

Manhã, que outra vez insone:

Vá, 
aliás, fique, 
fique o tempo; 
eu também vou 
e fico.

Um rastro nos céus, 
rapidíssimo:

1. Silêncio de uma infinita paz interior;

2. Estrépito de uma brutal inquietude interior: 
rasga-me o peito a chama murmurada.

As cinzas, 
onde as cinzas
para me aspergirem a fronte?

Onde as garras 
para me rasgarem as vestes?
Até. 
Até. 
Até.


ADOLESCÍAMOS

Adolescíamos
Esta névoa do chocolate 
quente; 
muito mais, Ela 
do que a filha do circo, 
bonita:
era um dia, domingo e suas vestes, 
enquanto as nossas mães conversavam, 
nós nos recostávamos à máquina de costura,
Singer, a velha máquina - se não tínhamos um piano; 
quando me dei conta, suavemente eu lhe olhava os cabelos, 
que também lhe olhava 
rapidamente os olhos calmos.
Se algum gesto foi feito à tesoura 
era apenas um disfarce: 
nada haveria de nenhum corte.
E se confundem todas as luzes 
numa névoa fina 
de xícara e cálice: 
Mirtes - 
adolescíamos.


A LÁGRIMA SÚBITA

Nenhuma grande chuva 
jamais encheu 
o mar; 
nenhuma seca do Ceará conseguiu baixar 
o nível das águas 
deste mar-oceano; 
logo, 
esta lágrima súbita, 
neste mar salgado, é inútil 
como volume. 

-- De que medos tenho coisa? 

Transito eu - ela disse - entre o abismo 
e a lembrança; 
que agora, 
neste borrifo de espuma e brisa, 
os escorridos da minha face me confundem: 

-- serão de mim, 
serão do mar? -- 

-- De que medos tenho eu? 

Por que agora uma lágrima, 
nascida num canto de minha face, 
quando lágrimas 
só as conheço de alegre? 

Seria este azul de mar 
profundo, fundo, 
cheio, soturno, 
a fonte obscura do meu terror? 

Se eu chamar a reflexão, 
aplacadas serão minhas aflições? 

Ou, mais prudente clamar pelo sonho, 
que prefiro imaginar, agora: 
(optei pelo sonho, 
claro que é sonho) 
esta vontade de fugir 
e cavalgar horizonte e brisa, 
tanger os ventos no corcel dos meus cabelos, 
navegar os azuis e céus na esquina de minha face 
e quando gritar por lágrima, 
venha, senhora lágrima, 
eu quero 
eu preciso chorar, 
e de surpresa, 
quando olhar de lado, 
é sonho, claro que é, 
reencontrar, 
no vento ligeiro, 
a fuga dos teus olhos!?


A PASSAGEM ESCONDIDA

Deixei avisado lá embaixo: 

Ela virá, 
minha amada... 
de susto, sem avisar! 
Se eu estiver lá em cima, 
por favor, não me avisem, 
quero surpresa, 
o estremecer-de-chave-girando... 

Por favor, 
não perturbem. 
Se eu não estiver 
dêem-lhe a chave... 
O jeito dela? 

Ah, é muito fácil: 
a mais bonita, 
a mais meiga, 
a mais doce: 
Ela! 

E por favor, 
quand'eu vier chegando 
não me digam nada - 
quero tanger a porta 
e ao susto de teus olhos, amor: 

um coração, 
(Cor Jesu! 
Cor Jesu!) 
será colhido em minha mão: 
é o meu, 
despedaçado! 

Amor, escondi a passagem 
por baixo da almofada... 
se tocaste fogo, 
mando-te outra e outra e outra, 
de preferência sem volta, 
caravelas do coração, 
Hernán Cortez 
queimadas...! 

Porém, místico como sou, no amor, 
se me surgir 
no meu quarto 
uma Serpente... 
Quem sabe, 
Ela, 
una brujería, 
d'encantamento. 

Não faz mal: 
beijarei sua língua bífida, 
veneno ou mel... 
Aliás, os alquimistas 
sempre disseram: 
onde há veneno, há mel; 
onde há mel, há veneno, 
questão de grau, meu caro Watson. 

Mesmo que seja veneno, pois, 
só veneno, 
a boca húmida, 
a cintura 
leve, levíssima, de flutuar; 
teus olhos tristes... 
o enleio 
das mãos, 
Yin & Yang 
por uns segundos: 
Blake, 
eternidade! 

De todos os sinos - 
um único dorso -, 
uno, um animal só, como se fosse 
o tinir dum único sino. 

Virás, eu sei! 

E já estão batendo à porta, 
acho que eu sei quem é: 

Ela - 
ou 
a aflição, 
a Serpente! 

Como eu desconfiei, 
tristeza maior: 
Era a Serpente. 

E brigamos e brigamos: 
Valei-me, meu São Bento! 
meu padrim São Francisco do Canindé, 
meu padrim Padre Cícero do Juazeiro, 
minha Nossa Senhora das Graças, 
meus escapulários, 
meu raminho de arruda, 
de dentro do Livro, 
bento, 
me acudam! 
E brigamos e brigamos. 

Amor,
Tu, minha Serpente,
ao beijo da língua bífida:
descoberta, "desencantaste"!

Tu, mulher, surgiste ao coleio de cobra,
brilho de cobra
languidez de cobra
olhar de cobra
malícia de cobra:

agora, 
um frio intenso, 
abraça-me, 
sou eu! 

Pois de caminhos que a gente não sabe quais, 
sempre há 
uma passagem, 
escondida,
talvez, no início, 
em quatro pétalas, serpenteando a caminho de mil. 

E o mistério. 
Rigores de não. 
Pois o perigo. 


À VISTA DE TI 

Nunca te vi, melhor que seja assim.

Teus cabelos seriam trinados ao vento? 

Poderia eu dizer "treinados", eles seriam - porque aí corre 
o vento da tardinha - sempre me dizes 
do vento. 

Guardo teus papéis eu guardo.
Perco-os, justo que me percam. 

Um cartãozinho..., teu, a te encontrar, azul...,
azul seria
a saia de sair? 

Ou, haverias de preferir uma roupinha amarela 
e os olhos vagos de nenhuma palavra? 

O que poderei dizer quando te encontrar?..., se.

Nestes tempos modernos, teria lugar para um 
silêncio? 

Falarias?

De que nos diríamos?
Melhor que teus cabelos fiquem ao vento. 

Ah, vento doce, da noite, 
como me perfumas o hálito desta noite cedo. 


CONVITE À FLOR 

Ao dedilhar dos sonhos, 
botão a botão, 
rosa a rosa; 
ao escandir das sílabas, 
sob o gesto, 
gesto a gesto; 
ao perpassar dos lábios, 
beijo a beijo: 

peripécia do silêncio... 
estrídulos e loquazes silêncios, 
aposentem-se as palavras: 

bastam flor, 
olores, 
feromônios & silhouettes... 

Palavras - 
peçam-nas aos senhores advogados, para requerer; 
aos protocolos, para encrencar; 
fórmulas, aos senhores engenheiros, peçam-nas; 
letras, aos senhores médicos, 
grafia ruim, dizem, que ninguém entenda; 

ao poeta, 
o gesto, 
no máximo, a sílaba... 
ou, melhor, 
o silêncio, 
explosivo e indisfarçável silêncio, amor. 

Botão e rosa: 
róseo ou rubro, 
o convite à flor. 


CUMPLICIDADE

Chamar pássaros 
com alpiste de amá-los livres, 
procuradores eles serão, 
ad judicia, 
ad negotia, 
pleni, 
plenipotenciários, 
procuradores meus, 
asas livres aos meus azuis. 

Eles me pousam os parapeitos: 
uma sombra, 
tem que haver uma sombra cúmplice: 
seja de aproximar, 
seja de chegar bem perto, 
parece que é. 

O que garante o medo 
é o gesto das duas mãos, 
as duas, 
conchadas de pegar 
em quase... 
a alma do pássaro 
-- não, não: 
"avoe, meu bichim", 
que não lhe devo... -- 

A intimidade é subtil, 
(dos pássaros) 
não só a deles: 
é subtil 
quando estremece 
e pousa. 

Sempre. 


MERGULHO

Ela corria pela ravina 
quand'eu lhe gritei: 
desce, amor, sou eu. 

Ela me perguntou: 
o que me trazes, 
o que me ofereces? 

Trago no meu corpo 
o perfume da terra áspera, 
o cheiro da terra 
na primeira neblina, 
para ti eu trago. 

Nos meus olhos, 
o fruto amanhecente 
numa aurora de ouro, 
às tuas narinas, 
eu trago o fruto. 

Trago também, só para ti eu trago 
o furor da tempestade, 
o tremor do vento do deserto, 
que de dia é quente, 
que de noite é frio, 
e aos teus cabelos não negarei 
o arrepio 
nem o mergulho, 
não negarei... 

E na ponta dos meus dedos 
um dedilhar suave, 
uns tons de sol, 
uns tons de lua: 
esquadrinharei todo o teu rosto, 
pétala a pétala, 
numa manhã de rosa. 

- Agora vem, desce, amor! 

Foi quand'ela saltou, 
desequilibrou-se, nem sei, 
de despenhadeiro abaixo, 
e suavemente, pela cintura, 
nos pousamos 
nas touceiras azuis 
dos manjericões de cheiro.


NUNCA DIREI QUE TE AMO

Sem nenhum aviso, 
as sardas de um rosto, vieram as sardas 
e eram notícia de uma navegação morena; 
uma voz rouquenha, como se abafasse 
o grito súbito sobre este porto 
de nenhum aviso. 

Nunca lhe direi sobre o amor: jamais faria 
declaração de posse às minhas mãos; 
nenhum registro público hei de requerer 
sobre meus pés; nem protocolos mandarei abrir 
sobre meus braços; 
mandato algum darei sobre meus olhos: 
cega-me a crueldade desta posse. 

De que haveria de falar, se a voz 
me some nos contrastes deste aviso súbito? 

Os segredos, 
não os desvendarei - 
as mãos, a voz, este "sim" - 
porque 
Ela, 
subitamente a tua voz morena: 
a flor, o vinho.


NÃO!

Não, não e não - mil vezes não! 

Porque me disseste: - um silêncio obsequioso. 
Não. 
Em contrapartida, 
devo dirigir-te tão-só a não-palavra 
cheia de presságios. 

É a noite. 
As nuvens passam
e seus soturnos:

-- como farei para saberes que não penso em ti!?


SE

Se eu tivesse uma - 
se - 
ah, não sei, já sei, deve fazer parte, 
tantos "ses": 
épocas, geografias, este mar 
longamente mar. 

Então, eu tomaria conta das forjas, 
dos ferros e do carvão. 

Seriam de outro encargo, 
não meu, [se], 
a água, 
o óleo da têmpera, 
esta luz reflectida à lâmina; 
(e correríamos entre as fornalhas) - 
de aurora e forjas, 
este cântico, este soluço. 

E quando nos cansássemos 
de tanto abafo, o meu quinhão de rosto 
e sal completamente pagos, 
ela diria em pleno dia: 
- Um café, senhor! 
- Sim, minha senhora, eu mesmo vou servi-la: 
esta taça, a noite azul.


UMA CANÇÃO DISTANTE

Guardo tuas coisas para uma viagem, 
(em que tempo?): 
em que vagão viajaremos - e as janelas 
abertas pr'uma paisagem verde...!? 

Guardo tuas coisas para uma viagem, 
(em que modo?): 
no modo presente, no modo advérbio, passado - 
passam, passam coisas, 
que os meus dedos aos lábios, de uma mão perfeitamente tremula, 
cantam uma canção distante: 
silêncio. 

Guardo tuas coisas para uma viagem, 
(em que vontades?): 
pois se me fugiram os cavalos meus, 
arrebentados todos os trens, 
mortos os condutores de todos os carros, 
naufragadas todas as jangadas, 
e o mar 
brutalmente mar, 
mesmo assim, 
as coisas tuas guardadas, fiel: 
(onde?): 
navegarei às lembranças.

 


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