Pedro Ayres de Magalhães

 

Pedro Ayres de Magalhães / Madredeus 

 

 

A CIDADE

Ai, esta saudade 
não tem idade 
não tem idade 
Ai, esta saudade 
Ai, esta saudade 
Esta cidade 
não tem idade 
não tem idade 
Ai esta cidade 
esta cidade 

Esta verdade 
não tem idade 
não tem idade 
Ai esta verdade 
Ai esta verdade 


A CONFISSÃO

Chora, 
encanto, chora 
que o teu tormento 
nem terminou 
Chora, 
que enquanto choras 
não vês de perto 
o teu penar 

Trago 
o segredo 
no meu peito 
e a toda a hora 
só recordo o que te dei; 

- Leva tudo de mim... 


A ESTRADA DO MONTE

Não digas nada a ninguém 
que eu ando num mundo triste 
a minha amada, que eu mais gostava, 
dançou, deixou-me da mão; 
Eu a dizer-lhe que a queria 
ela a dizer-me que não 
e a passarada 
não se calava 
cantando esta canção 
Sim, foi na estrada do monte 
perdi o teu grande amor 
Sim ali ao pé da fonte 
perdi o teu grande amor 

Ai que tristeza que eu sinto 
fiquei no mundo tão só 
e aquela fonte, ficou marcada 
com tanto que se chorou 
Se alguém aqui nunca teve 
uma razão para chorar 
siga essa estrada 
não custa nada 
que eu fico aqui a cantar 

Sim, foi na estrada do monte 
perdi o teu grande amor 
Sim ali ao pé da fonte 
perdi o teu grande amor 


AJUDA

A cantar 
Lá vou nesta terra 
Ao Meio do mundo 
E amanhece 
O futuro 
Sou assim 
Sou este mistério 
Maior que tudo 
Que acontece 
No meu Mundo 

Vontade 
Mistério 
Verdade 
Ajuda 


AMANHÃ

A vida não me larga 
o mundo não me foge 
a estrada é grande e larga 
e eu levo o albornoz 
Caminho à luz do dia 
por campos e montanhas 
e bebo a água fria 
e a sede não me apanha 
E o céu ali é lindo 
azul, eu não resisto 
ao céu, ao céu profundo 
distante, 
e eu insisto 
Amanhã 
Amanhã 

Amanhã 
Amanhã 


AO LONGE O MAR

Porto calmo de abrigo 
De um futuro maior 
Ainda não está perdido 
No presente temor 
Não faz muito sentido 
Já não esperar o melhor 
Vem da névoa saindo 
A promessa anterior 
Quando avistei ao longe o mar 
Ali fiquei 
Parada a olhar 
Sim, eu canto a vontade 
Canto o teu despertar 
E abraçando a saudade 
Canto o tempo a passar 
Quando avistei ao longe o mar 
Ali fiquei 
Parada a olhar 
Quando avistei ao longe o Mar 
Sem querer, deixei-me ali ficar 


AS CORES DO SOL

Ao cair da tarde 
Penso sempre mais 
É a luz que me invade 
São as cores naturais 
Cada figura 
que passa por mim 
nem me perturba 
e eu fico assim 

Longe me leva este silêncio 
é o sentir que se altera 
são as cores do sol 

E eu fico encantada 
e eu sinto-me a arder 
quando o dia se apaga 
deixa tanto por ver 


A SOMBRA (à memória de António Variações)

Anda pela noite só 
um capote errante, ai, ai 
e uma sombra negra cai, em redor 
do homem do cais 
das ruas antigas vem 
um cantar distante, ai, ai 
e ninguém das casas sai, por temor 
de uns passos no cais 

Se eu cair ao mar, quem me salvará 
lalalala... 
que eu não tenho amigos, quem é que será, 
lalalala... 
ai ó solidao, que não andas só, 
lalalala... 
anda lá à vontade, mas de mim tem dó... 

cantar, sempre cantou 
jamais esteve ausente, ai ai 
e uma vela branca vai, por amor 
largar pela noite 


A VACA DE FOGO

À porta 
daquela igreja 
vai um grande corropio 
À volta 
duma coisa velha 
reina grande confusão 
Os putos 
já fogem dela 
deita o fogo a rebentar 
soltaram 
uma vaca em chamas 
com um homem a guiar 
São voltas 
Ai amor são voltas 
Sete voltas 
São as voltas da maralha 

Ai são voltas 
Ai amor são voltas 
São as voltas 
São as voltas da canalha 

No largo 
daquela igreja 
vive o ser tradicional 
À volta 
duma coisa velha 
e não muda a condição


A VONTADE DE MUDAR

Pobre 
de quem não tem 
de quem 
não tem ninguém 
e sonha 
que nunca é tarde 
quando encontrar alguém 

Leva 
a vida inteira 
perde a noite a chorar 
E guarda 
sem saber onde 
a vontade de mudar 


CANTO DE EMBALAR

Alguém ouviu a sereia 
Ouviu de noite cantar 
Andava à noite à candeia 
Andava à noite no mar 
Eu fui contigo ao inferno 
Fomos ao fundo do mar 
Oh meu amor que eu mais amo 
Deixa-me eu te embalar 
Uma, duas ou três 
Tantas não sei contar 
Que sei lá quantas vezes 
Sai o barco para o mar 
Mas à noite há segredos 
Deixa-me eu te embalar 


CUIDADO

Não sei do meu amor, 
Não sei do meu amado, 
Nem sabe aonde foi... 
Foi a chamar alguém 
aqui ao outro lado 
ai se calhar não vem... 

- Só tenha medo 
do grande Mar, 
Cuidado! 

Não sei do meu amor, 
que misterioso fado, 
Ai que segredos tem... 

- Só tenho medo 
do grande Mar, 
Cuidado! 


DESTINO

Águas paradas 
Claro luar 
um quase nada 
muito melhor 
Nesta viagem que comecei 
grave miragem a mim chamei 

Se foi meu destino 
contar uma história tão breve 
é longo o caminho 
mas a alma quer 

Se foi meu destino 
Cantar com uma voz que me chora 
é longo o caminho 
mas a alma adora 


FADO DO MINDELO

Mindelo, minh'alma chora 
e eu estou triste 
e o amor demora 
Mindelo, já não existe 
minh'alma chora 
e o mar assiste 

Mindelo, o amor é isto 
não tem demora 
porqu'eu insisto 

Mindelo, mar a bater 
e o meu amor 
anda a sofrer 
Mindelo, conta comigo 
qu'eu vivo e tudo 
espera por mim.


O MAR

Não é nenhum poema 
o que vos vou dizer 
Nem sei se vale a pena 
Tentar-vos descrever 
O Mar 
O Mar 

E eu aqui fui ficando 
só para O poder ver 
E fui envelhecendo 
sem nunca O perceber 

O Mar 
O Mar 


O NAVIO

Só deixei no cais a multidão, 
a terra dos mortais, 
a confusão, 
Navego sem farol, sem agonia, ...distante; 
E vou nesta corrente, 
na maré, 
no escuro da menos consolação, 
Acordo a meio do mar que me arrepia, 
e foge... 

A minha paixão é a loucura. 

Ando... 
Numa viagem perdida, 
o navio anda à deriva, 
Sozinho. 
Não é grande o mal, bem pouco dura; 
e quando... 
Afundar a minha vida, 
se calhar sou prometida... do Mundo. 


O LADRÃO

Basta-me um segundo 
Saio porta fora 
Quando o tribunal 
Acordar a senhora 
Vou ser eu quem conta 
tudo ao sr. polícia 
a acordar a esquadra 
a trazer a milícia 

A porta fechou-se 
e ninguém lhe bateu 
o senhor ladrão 
nem sequer apareceu 

Abriu-se a janela 
veio o jardineiro 
agarrou-se a ela 
não sei que lhe deu 

- Ah, mas onde é que estão 
as aldeias todas? 
não veio o ladrão, 
já não há pessoas? 

A porta fechou-se 
e ninguém lhe bateu 
o senhor ladrão 
nem sequer apareceu 

Oh Sr. Sinistro, 
tenha lá cuidado, 
que o melhor do mundo 
é não ser enganado... 

- Ah, mas onde é que estão 
as aldeias todas? 
não veio o ladrão 
já não há pessoas? 


O PASTOR

Ai que ninguém volta 
ao que já deixou 
ninguém larga a grande roda 
ninguém sabe onde é que andou 
Ai que ninguém lembra 
nem o que sonhou 
(e) aquele menino canta 
a cantiga do pastor 

Ao largo 
ainda arde 
a barca 
da fantasia 
e o meu sonho acaba tarde 
deixa a alma de vigia 
Ao largo 
ainda arde 
a barca 
da fantasia 
e o meu sonho acaba tarde 
acordar é que eu não queria. 


O POMAR DAS LARANJEIRAS

Jurarei 
eterno amor 
saudade 
a vida inteira 
ao nascer do sol 
no Pomar das Laranjeiras 
E se o dia 
não vier 
voltarei 
de qualquer maneira 
só para te ver 
no Pomar das Laranjeiras 

É tão grande 
o meu amor 
foi assim 
logo à primeira 
só será maior 
no Pomar das Laranjeiras 


OS SENHORES DA GUERRA

Lá fora estão os Senhores da Guerra 
E cantam já hinos de vitória 
Qual é a história desta terra? 
É o medo 
Ali mesmo 
Cá dentro estão os homens à espera 
Unidos no destino da terra 
Já não há memória de paz na Terra 
É o medo 
Ali mesmo 

Ó Terra 
Mais um dia a nascer 
Ai, é menos um dia a perder 

É tão pouca a glória de uma geurra 
E os homens que as fazem sem vitórias 
Já não há memória de paz na terra 
É o medo 
Ali mesmo 


SILÊNCIO

Assim 
pouco a pouco 
escolhi 
o presente silêncio 
Silêncio 
tão pouco querido 
oh, derradeiro momento... 

Silêncio 
Momento 
Silêncio 


VEM (Além De Toda A Solidão)

Vem 
Além de toda a solidão 
perdi a luz do teu viver 
perdi o horizonte 
Está bem 
Prossegue lá até quereres 
Mas vem depois iluminar 
Um coração que sofre 

Pertenço-te 
Até ao fim do mar 
Sou como tu 
Da mesma luz 
Do mesmo amar 

Por isso vem 
Porque te quero 
Consolar 
Se não está bem 
Deixa-te andar a navegar

 


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