À ESPERA DO FIM
Vou andando por ai
Sobrevivendo á bebedeira e ao comprimido
Vou dizendo sim á engrenagem
E ando muito deprimido
É difícil encontrar quem o não esteja
Quando o sistema nos consome e aleija
Trincamos sempre o caroço
Mas já não saboreamos a cereja
Já houve tempos em que eu
Tinha tudo não tendo quase nada
Quando dormia ao relento
Ouvindo o vento beijar a geada
Fazia o meu manjar com pão e uva
Fazia o meu caminho ao sol ou á chuva
Ao encontro da mão miúda
Que me assentava como uma luva
Se ainda me queres vender
Se ainda me queres negociar
Isso já pouco me interessa
Perdemos o gosto de viver
Eu a obedecer e tu a mandar
Os dois na mesma triste peça
Os dois á espera do fim
Tu tens fortuna e eu não
Podes comer salmão e eu só peixe miúdo
Mas temos em comum o facto de ambos vermos
A vida por um canudo
Invertemos a ordem dos factores
Pusemos números á frente de amores
E vemos sempre a preto e branco o programa
Que afinal é a cores
AINDA HÁ ESTRELAS NO TEU OLHAR
Sei que estás a sofrer,
que o teu homem foi-se embora outra vez,
partiu como um furacão
e tu pensas no bem que ele te fez...
tentas dormir -
mas o teu sono parece ter voado com elee a noite colou-se às tuas costas,
tão escura como um pesadelo.
Mas, ouve bem, meu amor:
não é tarde para sorrires outra vez.
Ainda há estrelas no teu olhar.
E tu, conta lá como foi daquela vez que te deitaram abaixo.
Não foi granada nem bala, não...
foi a perda de um pequeno tacho.
Pobre de ti -
ficaste a refilar na bicha para um lugar ao sol
(pois foi)
Continuas na sombra e o teu corpo está cada vez mais mole.
Mas, ouve bem, meu irmão:
Não é tarde para sorrires outra vez.
Ainda há estrelas no teu olhar
A ti, conheci-te num bar,
conversei contigo á beira do rio.
O teu casaco era de pelesmas nos teus olhos havia frio.
Tu queres ser quem és -
mas o teu velho quer que sejas engenheiro e tu sentes-te só como uma agulha num palheiro.
Mas, ouve bem, meu irmão:
Não é tarde para sorrires outra vez.
Ainda há estrelas no teu olhar
BAIRRO DO AMOR
No bairro do amor a vida é um carrossel
Onde há sempre lugar para mais alguém
O bairro do amor foi feito a lápis de cor
Por gente que sofreu por não ter ninguém
No bairro do amor o tempo morre devagar
Num cachimbo a rodar de mão em mão
No bairro do amor há quem pergunte a sorrir:
Será que ainda cá estamos no fim do verão?
Eh, pá, deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair um pouco
Eu sei que tu compreendes bem
No bairro do amor a vida corre sempre igual
De café em café , de bar em bar
No bairro do amor o sol parece maior
E há ondas de ternura em cada olhar
O bairro do amor é um a zona marginal
Onde não há prisões nem hospitais
No bairro do amor cada um tem que tratar
Das suas nódoas negras sentimentais
Eh, pá, deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair um pouco
Eu sei que tu compreendes bem
BALADA DUM ESTRANHO
Hoje acordaste de uma forma diferente dos outros dias
sentes-te estranho tens as mãos húmidas e frias
tentas lembrar-te de algum pesadelo mas o esforço é em vão
parece-te ouvir passos dentro de casa mas não sabes de quem são
Deixas o quarto e vais a sala espreitar atrás do sofá
mas aí tu já suspeitas que os fantasmas não estão lá
vais a janela e ao olhares pra fora sentes que perdeste o teu centro
e de repente descobres que chegou a hora de olhares para dentro
Porque há qualquer coisa que não bate certo
qualquer coisa que deixaste para trás em aberto
qualquer coisa que te impede de te veres ao espelho nu
e não podes deixar de sentir que o culpado és tu
Vês o teu nome escrito num envelope que rasgas nervosamente
tu já tinhas lido essa carta antecipadamente
e os teus olhos ignoram as letras e fixam as entrelinhas
e exclamas: Mas afinal... estas palavras são minhas!"
O caminho pra trás está vedado e tens um muro a tua frente
quando olhas pros lados vês a mobília indiferente
e abandonas essa casa onde sentiste o chão a fugir
arquitectas outra morada, mas sabes que estas a mentir.
DÁ-ME LUME
Chegaste com três vinténs
e o ar de quem não tem
muito mais a perder
o vinho não era bom
a banda não tinha tom
mas tu fizeste a noite apetecer
mandaste a minha solidão embora
iluminaste o pavilhão da aurora
com o teu passo inseguro
e o paraíso no teu olhar
Eu fiquei louco por ti
logo rejuvenesci
não podia falhar
dispondo a meu favor
da eloquência do amor
ali mesmo à mão de semear
mostrei-te a origem do bem e o reverso
mostrei-te que o que conta no universo
é esse passo inseguro
e o paraíso no teu olhar
Dá-me lume, dá-me lume
deixa o teu fogo envolver-me
até a musica acabar
dá-me lume, não deixes o frio entrar
faz os teus braços fechar-me as asas
há tanto tempo a acenar
Eu tinha o espirito aberto
às vezes andei perto
da essência do amor
porém no meio dos colchões
no meio dos trambolhões
a situação era cada vez pior
tu despertaste em mim um ser mais leve
e eu sei que essencialmente isso se deve
a esse passo inseguro
e ao paraíso no teu olhar
Dá-me lume, dá-me lume
deixa o teu fogo envolver-me
até a musica acabar
dá-me lume, não deixes o frio entrar
faz os teus braços fechar-me as asas
há tanto tempo a acenar
Se eu fosse compositor
compunha em teu louvor
um hino triunfal
se eu fosse critico de arte
havia de declarar-te
obra-prima à escala mundial
mas eu não passo dum homem vulgar
que tem a sorte de saborear
é esse passo inseguro
e o paraíso no teu olhar
Dá-me lume, dá-me lume
deixa o teu fogo envolver-me
até a musica acabar
dá-me lume, não deixes o frio entrar
faz os teus braços fechar-me as asas
há tanto tempo a acenar
DEIXA-ME RIR
Deixa-me rir
essa história não e tua
falas da festa, do sol e do prazer
mas nunca aceitaste o convite
tens medo de te dar
e não e teu o que queres vender
Deixa-me rir
tu nunca lambeste uma lágrima
desconheces os cambiantes do seu sabor
nunca seguiste a sua pista
do regaço à nascente
não me venhas falar de amor
Pois é, pois é
há quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor, o que vai dizer
Segunda Feira
Deixa-me rir
Tu nunca auscultaste esse engenho
de que falas com tanto apreço
esse curioso alambique
onde são destilados
noite e dia o choro e o riso
Deixa-me rir
Ou então deixa-me entrar em ti
ser o teu mestre só por um instante
iluminar o teu refúgio
aquecer-te essas mãos
rasgar-te a mascara sufocante
Pois é, pois é
ha quem viva escondido a vida inteira
Domingo sabe de cor, o que vai dizer
Segunda Feira
ESTRELA DO MAR
Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte
e em que o sono parecia disposto a não vir
fui estender-me na praia sozinho ao relento
e ali longe do tempo acabei por dormir
Acordei com o toque suave de um beijo
e uma cara sardenta encheu-me o olhar
ainda meio a sonhar perguntei-lhe quem era
ela riu-se e disse baixinho: estrela do mar
Sou a estrela do mar
só a ele obedeço, só ele me conhece
só ele sabe quem sou no princípio e no fim
só a ele sou fiel e é ele quem me protege
quando alguém quer à força
ser dono de mim
Não sei se era maior o desejo ou o espanto
mas sei que por instantes deixei de pensar
uma chama invisível incendiou-me o peito
qualquer coisa impossível fez-me acreditar
Em silêncio trocámos segredos e abraços
inscrevemos no espaço um novo alfabeto
já passaram mil anos sobre o nosso encontro
mas mil anos são pouco ou nada para a estrela do mar
ETERNAMENTE TU
O tempo não sabe nada, o tempo não tem razão
o tempo nunca existiu, o tempo é nossa invenção
se abandonarmos as horas não nos sentimos sós
meu amor, o tempo somos nós
O espaço tem o volume da imaginação
além do nosso horizonte existe outra dimensão
o espaço foi construído sem princípio nem fim
meu amor, tu cabes dentro de mim
O meu tesouro és tu
eternamente tu
não há passos divergentes para quem se quer
encontrar
A nossa história começa na total escuridão
onde o mistério ultrapassa a nossa compreensão
a nossa história é o esforço para alcançar a luz
meu amor, o impossível seduz
O meu tesouro és tu
eternamente tu
não há passos divergentes para quem se quer
encontrar
FIM
Ontem julguei ter visto a luz
Nas horas brancas conduzi o despertar
E fui subindo a escada que me separa
do meu fim
Abandonei quem já passou
Fechei os olhos e previ o que encontrei
E foi nesta viagem que percebi
que não estou só
FRÁGIL
Põe-me o braço no ombro
Eu preciso de alguém
Dou-me com toda a gente
E não me dou a ninguém
Frágil
Sinto-me frágil
Faz-me um sinal qualquer
Se me vires falar demais
Eu ás vezes embarco
Em conversas banais
Frágil
Sinto-me frágil
Frágil
Esta noite estou tão frágil
Frágil
Já nem consigo ser ágil
Está a saber-me mal
Este whisky de malte
Adorava setar "in"
Mas estou-me a sentir "out"
Frágil
Sinto-me frágil
Acompanha-me a casa
Já não aguento mais
Deposita na cama
Os meus restos mortais
Frágil
Sinto-me frágil
HÁ MUITO TEMPO
Passos descalços restolhando pela estrada de macadame
pernas curtidas descrevendo arcos desengonçados
o destino incerto, a dúvida quente
o céu descoberto, o futuro longe
e o passado incapaz de conter a ambição imprudente
Há muito tempo, há muito tempo...
Demos tudo o que tivemos
para agarrar o tempo
Teias de ferro fortificam a cidade industrial
que se alimenta do suor dos corpos mecanizados
o aço temperado, a manufactura
o monstro acordado, o inconsciente activo
e ninguém sabe aonde irá desembocar a aventura
Há muito tempo, há muito tempo...
Nós passámos tento tempo
para estragar o tempo
Domingo à tarde, o planeta está colado à televisão
o astronauta domestica a lua com gestos lentos
o mar entulhado, o céu mais cinzento
a publicidade, o perigo iminente
e a sensação da alma não acompanhar o movimento
Há muito tempo, há muito tempo...
Ninguém fica indiferente
ao sabor do tempo
HÁ SEMPRE ALGUÉM
A chuva varre as janelas do teu apartamento.
A minha bagagem repousa ao abrigo do vento
e eu nem preciso olhar para ti
para saber o que esperas de mim.
Tu queres-me fazer cumprir
coisas que eu não prometi.
Tu também sentes na pele o sopro da mudança,
mas ficas sentada na sala à espera da esperança.
Aprendemos juntos a enfrentar o frio,
embarcámos juntos no mesmo avião
e agora tu queres parar...
dormir na margem do rio.
Mas, basta-me saber que há sempre alguém a lutar contra a corrente
para me apetecer saltar,
ir a nado ao lado dele,
derretendo com o olhar
todos os muros de gelo
e não consigo descansar
enquanto não alcanço uma nova nascente.
Dizes que suportas ver-te sozinha ao relento,
mas tudo o que fazes é soltar o teu longo lamento
e eu vou para o meio da multidão,
não levo a virtude nem a salvação,
mas levo o meu calor
e uma guitarra na mão
Mas, basta-me saber que há sempre alguém a lutar contra a corrente
para me apetecer saltar,
ir a nado ao lado dele,
derretendo com o olhar
todos os muros de gelo
e não consigo descansar
enquanto não alcanço uma nova nascente.
e quando te voltar a apetecer seguir em frente,
se me quiseres acompanhar,
canta uma canção de amor,
pinta os olhos cor de mar...
põe no teu peito uma flor,
traz um amigo qualquer
e vamos juntos abraçar o sol nascente
O MEU AMOR EXISTE
O meu amor tem lábios de silêncio
e mãos de bailarina
voa como o vento
e abraça-me onde a solidão termina
O meu amor tem trinta mil cavalos
a galopar no peito
e um sorriso só dela
que nasce quando a seu lado eu me deito
O meu amor ensinou-me a chegar
sedento de ternura
sarou as minhas feridas
e pôs-me a salvo para além da loucura
O meu amor ensinou-me a partir
nalguma noite triste
mas antes ensinou-me
a não esquecer que o meu amor existe!
PASSOS EM VOLTA
Quando o sol chegou aos subúrbios da cidade
Anunciando mais um dia igual aos outros
Ele acordou e pressentiu
Que hoje o seu dia ia ser diferente
Sentiu nos lábios o sabor
Dum sorriso finalmente triunfante
Escorregou da cama
E contemplou o espelho sorridente
Acabou-se a incerteza dos seus passos em volta
De um sentido que ele nunca encontrou
Pela primeira vez tinha o destino nas mãos
Desta vez ele não duvidou
Sentiu-se invadir por uma estranha lucidez
Que o conduzia pelas calhas do passado
Serenamente descobriu
Que afinal tudo tinha o seu sentido
Levou o olhar á janela
Lá em baixo a rua estava abandonada
Levantou o fecho
E de repente alcançou a liberdade
Acabou-se a angústia dos seus passos em volta
Dum amor com que ele apenas sonhou
Pela primeira vez tinha o futuro nas mãos
Abriu a janela e voou
SÓ
Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
Só por ter dois sois
Só por hesitar
Fiz a cama na encruzilhada
Chamei casa a esse lugar
E anda sempre alguém por lá
Junto á tempestade
Onde os pés não tem chão
E as mãos perdem a razão
Só por enfrentar
Só por destruir
Tenho as chaves do céu e do inferno
Deixo o tempo decidir
E anda sempre alguém por lá
Junto á tempestade
Onde os pés não tem chão
E as mãos perdem a razão
Só por existir
Só por duvidar
Tenho duas almas em guerra
E sei que nenhuma vai ganhar
E sei que nenhuma vai ganhar