Vinicius de Moraes

 

Vinicius de Moraes

 

 

A MORTE DE MADRUGADA

Uma certa madrugada 
Eu por um caminho andava 
Não sei bem se estava bêbedo 
Ou se tinha a morte n'alma 
Não sei também se o caminho 
Me perdia ou encaminhava 
Só sei que a sede queimava-me 
A boca desidratada. 
Era uma terra estrangeira 
Que me recordava algo 
Com sua argila cor de sangue 
E seu ar desesperado. 
Lembro que havia uma estrela 
Morrendo no céu vazio 
De uma outra coisa me lembro: 
... Un horizonte de perros 
Ladra muy lejos del río... 
De repente reconheço: 
Eram campos de Granada! 
Estava em terras de Espanha 
Em sua terra ensanguentada 
Por que estranha providência 
Não sei... não sabia nada... 
Só sei da nuvem de pó 
Caminhando sobre a estrada 
E um duro passo de marcha 
Que eu meu sentido avançava. 
Como uma mancha de sangue 
Abria-se a madrugada 
Enquanto a estrela morria 
Numa tremura de lágrima 
Sobre as colinas vermelhas 
Os galhos também choravam 
Aumentando a fria angústia 
Que de mim transverberava. 
Era um grupo de soldados 
Que pela estrada marchava 
Trazendo fuzis ao ombro 
E impiedade na cara 
Entre eles andava um moço 
De face morena e cálida 
Cabelos soltos ao vento 
Camisa desabotoada. 
Diante de um velho muro 
O tenente gritou: Alto! 
E à frente conduz o moço 
De fisionomia pálida. 
Sem ser visto me aproximo 
Daquela cena macabra 
Ao tempo em que o pelotão 
Se punha horizontal. 
Súbito um raio de sol 
Ao moço ilumina a face 
E eu à boca levo as mãos 
Para evitar que gritasse. 
Era ele, era Federico 
O poeta meu muito amado 
A um muro de pedra-seca 
Colado, como um fantasma. 
Chamei-o: Garcia Lorca! 
Mas já não ouvia nada 
O horror da morte imatura 
Sobre a expressão estampada... 
Mas que me via, me via 
Porque eu seus olhos havia 
Uma luz mal-disfarçada. 
Com o peito de dor rompido 
Me quedei, paralisado 
Enquanto os soldados miram 
A cabeça delicada. 
Assim vi a Federico 
Entre dois canos de arma 
A fitar-me estranhamente 
Como querendo falar-me 
Hoje sei que teve medo 
Diante do inesperado 
E foi maior seu martírio 
Do que a tortura da carne. 
Hoje sei que teve medo 
Mas sei que não foi covarde 
Pela curiosa maneira 
Com que de longe me olhava 
Como quem me diz: a morte 
É sempre desagradável 
Mas antes morrer ciente 
Do que viver enganado. 
Atiraram-lhe na cara 
Os vendilhões de sua pátria 
Nos seus olhos andaluzes 
Em sua boca de palavras. 
Muerto cayó Federico
Sobre a terra de Granada
La tierra del inocente 
No la tierra del culpable. 
Nos olhos que tinha abertos 
Numa infinita mirada 
Em meio a flores de sangue 
A expressão se conservava 
Como a segredar-me: A morte 
É simples, de madrugada...


A MULHER QUE PASSA

Meu Deus, eu quero a mulher que passa 
Seu dorso frio é um campo de lírios 
Tem sete cores nos seus cabelos 
Sete esperanças na boca fresca! 
Oh! como és linda, mulher que passas 
Que me sacias e suplicias 
Dentro das noites, dentro dos dias! 
Teus sentimentos são poesia 
Teus sofrimentos, melancolia. 
Teus pelos leves são relva boa 
Fresca e macia. 
Teus belos braços são cisnes mansos 
Longe das vozes da ventania. 
Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 
Como te adoro, mulher que passas 
Que vens e passas, que me sacias 
Dentro das noites, dentro dos dias! 
Por que me faltas, se te procuro? 
Por que me odeias quando te juro 
Que te perdia se me encontravas 
E me concentrava se te perdias? 
Por que não voltas, mulher que passas? 
Por que não enches a minha vida? 
Por que não voltas, mulher querida 
Sempre perdida, nunca encontrada? 
Por que não voltas à minha vida 
Para o que sofro não ser desgraça? 
Meu Deus, eu quero a mulher que passa! 
Eu quero-a agora, sem mais demora 
A minha amada mulher que passa! 
Que fica e passa, que pacífica 
Que é tanto pura como devassa 
Que bóia leve como a cortiça 
E tem raízes como a fumaça.


AUSÊNCIA

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces 
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. 
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida 
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. 
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. 
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados 
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada 
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. 
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face. 
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. 
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. 
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. 
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. 
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. 
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. 
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. 
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. 
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada. 


BALADA DO ENTERRADO VIVO

Na mais medonha das trevas 
Acabei de despertar 
Soterrado sob um túmulo. 
De nada chego a lembrar 
Sinto meu corpo pesar 
Como se fosse de chumbo. 
Não posso me levantar 
Debalde tentei clamar 
Aos habitantes do mundo. 
Tenho um minuto de vida 
Em breve estará perdida 
Quando eu quiser respirar. 
Meu caixão me prende os braços. 
Enorme, a tampa fechada 
Roça-me quase a cabeça. 
Se ao menos a escuridão 
Não estivesse tão espessa! 
Se eu conseguisse fincar 
Os joelhos nessa tampa 
E os sete palmos de terra 
Do fundo à campa rasgar! 
Se um som eu chegasse a ouvir 
No oco deste caixão 
Que não fosse esse soturno 
Bater do meu coração! 
Se eu conseguisse esticar 
Os braços num repelão 
Inda rasgassem-me a carne 
Os ossos que restarão! 
Se eu pudesse me virar 
As omoplatas romper 
Na fúria de uma evasão 
Ou se eu pudesse sorrir 
Ou de ódio me estrangular 
E de outra morte morrer! 
Mas só me resta esperar 
Suster a respiração 
Sentindo o sangue subir-me 
Como a lava de um vulcão 
Enquanto a terra me esmaga 
O caixão me oprime os membros 
A gravata me asfixia 
E um lenço me cerra os dentes! 
Não há como me mover 
E este lenço desatar 
Não há como desmanchar 
O laço que os pés me prende! 
Bate, bate, mão aflita 
No fundo deste caixão 
Marca a angústia dos segundos 
Que sem ar se extinguirão! 
Lutai, pés espavoridos 
Presos num nó de cordão 
Que acima, os homens passando 
Não ouvem vossa aflição! 
Raspa, cara enlouquecida 
Contra a lenha da prisão 
Pesando sobre teus olhos 
Há sete palmos de chão! 
Corre mente desvairada 
Sem consolo e sem perdão 
Que nem a prece te ocorre 
À louca imaginação! 
Busca o ar que se te finda 
Na caverna do pulmão 
O pouco que tens ainda 
Te há de erguer na convulsão 
Que romperá teu sepulcro 
E os sete palmos de chão: 
Não te restassem por cima 
Setecentos de amplidão!


BALADA FEROZ

Canta uma esperança desatinada para que enfureçam silenciosamente 
os cadáveres dos afogados 
Canta para que grasne sarcasticamente o corvo que tens pousado sobre tua omoplata 
atlética 
Canta como um louco enquanto teus pés vão penetrando a massa sequiosa de lesmas 
Canta! para esse formoso pássaro azul que ainda uma vez sujaria sobre o teu êxtase. 
Arranca do mais fundo a tua pureza e lança-a sobre o corpo felpudo das aranhas 
Ri dos touros selvagens carregando nos chifres virgens nuas para o estupro nas montanhas 
Pula sobre o leito cru dos sádicos, dos histéricos, dos masturbados e dança! 
Dança para a lua que está escorrendo lentamente pelo ventre das menstruadas. 
Lança teu poema inocente sobre o rio venéreo engolindo as cidades 
Sobre os casebres onde os escorpiões se matam à visão dos amores miseráveis 
Deita a tua alma sobre a podridão das latrinas e das fossas 
Por onde passou a miséria da condição dos escravos e dos génios. 
Dança, ó desvairado! Dança pelos campos aos rinchos dolorosos das éguas parindo 
Mergulha a algidez deste lago onde os nenúfares apodrecem 
e onde a água floresce em miasmas 
Fende o fundo viscoso e espreme com tuas fortes mãos a carne flácida das medusas 
E com teu sorriso inexcedível surge como um deus amarelo da imunda pomada. 
Amarra-te aos pés das garças e solta-as para que te levem 
E quando a decomposição dos campos de guerra te ferir as narinas, lança-te sobre a cidade mortuária 
Cava a terra por entre as tumefacções e se encontrares um velho canhão soterrado, volta 
E vem atirar sobre as borboletas cintilando cores que comem as fezes verdes das estradas. 
Salta como um fauno puro ou como um sapo de ouro por entre os raios do sol frenético 
Faz rugir com o teu calão o eco dos vales e das montanhas 
Mija sobre o lugar dos mendigos nas escadarias sórdidas dos templos 
E escarra sobre todos os que se proclamarem miseráveis. 
Canta! canta demais! Nada há como o amor para matar a vida 
Amor que é bem o amor da inocência primeira! 
Canta! - o coração da donzela ficará queimando eternamente a cinza morta 
Para o horror dos monges, dos cortesãos, das prostitutas e dos pederastas. 
Transforma-te por um segundo num mosquito gigante e passeias de noite 
sobre as grandes cidades 
Espalhando o terror por onde quer que pousem tuas antenas impalpáveis. 
Suga aos cínicos o cinismo, aos covardes o medo, aos avaros o ouro 
E para que apodreçam como porcos, injecta-os de pureza! 
E com todo esse pus, faz um poema puro 
E deixa-o ir, armado cavaleiro, pela vida 
E ri e canta dos que pasmados o abrigarem 
E dos que por medo dele te derem em troca a mulher e o pão. 
Canta! canta, porque cantar é a missão do poeta 
E dança, porque dançar é o destino da pureza 
Faz para os cemitérios e para os lares o teu grande gesto obsceno 
Carne morta ou carne viva - toma! Agora falo eu que sou um!


DIALÉTICA

É claro que a vida é boa 
E a alegria, a única indizível emoção 
É claro que te acho linda 
Em ti bendigo o amor das coisas simples 
É claro que te amo 
E tenho tudo para ser feliz 
Mas acontece que eu sou triste...


O RIO

Uma gota de chuva 
A mais, e o ventre grávido 
Estremeceu, da terra. 
Através de antigos 
Sedimentos, rochas 
Ignoradas, ouro 
Carvão, ferro e mármore 
Um fio cristalino 
Distante milénios 
Partiu fragilmente 
Sequioso de espaço 
Em busca de luz. 
Um rio nasceu.


ROSÁRIO

E eu que era um menino puro
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava... mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre o meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos nocturnos
Luzinho de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-Cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado.
Lembro que longe, nos longes
Um gramofone tocava,
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anémona n'água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana-brava.
Senti, à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só aquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe pra quem, quem sabe!
Mas como me perseguia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade.
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.


SONETO DA SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto 
Silencioso e branco como a bruma 
E das bocas unidas fez-se a espuma 
E das mãos espalmadas fez-se o espanto. 
De repente da calma fez-se o vento 
Que dos olhos desfez a última chama 
E da paixão fez-se o pressentimento 
E do momento imóvel fez-se o drama. 
De repente, não mais que de repente 
Fez-se de triste o que se fez amante 
E de sozinho o que se fez contente. 
Fez-se do amigo próximo o distante 
Fez-se da vida uma aventura errante 
De repente, não mais que de repente.


PROCURA-SE UM AMIGO

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar. 

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objectivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. 

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim. 

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.


SONETO DE INTIMIDADE

Nas tardes da fazenda há muito azul demais. 
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto agora 
Mastigando um capim, o peito nu de fora 
No pijama irreal de há três anos atrás. 
Desço o rio no vau dos pequenos canais 
Para ir beber na fonte a água fria e sonora 
E se encontro no mato o rubro de uma aurora 
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais. 
Fico ali respirando o cheiro bom do estrume 
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme 
E quando por acaso uma mijada ferve 
Seguida de um olhar não sem malícia e verve 
Nós todos, animais sem comoção nenhuma 
Mijamos em comum numa festa de espuma.

 


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