A BARCA DOS AMANTES
Ah, quanto eu queria navegar
p´ra sempre a barca dos amantes
onde o que eu sei deixei de ser
onde ao que eu vou não ia dantes
Ah, quanto eu queria conseguir
trazer a barca à madrugada
e desfraldar o pano branco
na que for terra, mais amada
E que em toda a parte
o teu corpo
seja o meu porta-estandarte
plantado no seu mais fundo
posso agitar-me no vento
e mostrar a cor ao mundo
Ah, quanto eu queria navegar
p´ra sempre a barca dos amantes
onde o que eu vi me fez vogar
de rumos meus a cais errantes
Ah, quanto eu queria me espraiar
fazer a trança à calmaria
avistar terra, e não saber
se ainda o é, quando for dia
E que em toda a parte
o teu corpo
seja o meu porta-estandarte
plantado no seu mais fundo
posso agitar-me no vento
e mostrar a cor ao mundo
ANTES O POÇO DA MORTE
Como no poço da morte
Como no poço da morte
a gente gira e gira e gira
a gente joga tudo
a gente arrisca a vida
a gente gira e gira
rumo à terra prometida
e quando lá chegamos
já a encontramos revolvida
a terra que sempre se desejou
e que se deixa de reconhecer
no dia em que se vai para lá morar
Mas como se costuma dizer
Tem que ser
porque parar, nunca
Ficar parado?
Antes o poço da morte
que tal sorte
Como no poço da morte
Como no poço da morte
a gente gira e nos ouvidos
os motores vão formando melodias
cantadas logo em coro
p'ra conjurar avarias
que os motores nunca falhem
que esta vida são dois dias
são viras e são rocks e são hinos
que a gente deixa de saber de cor
no instante em que se acaba de cantar
Como no poço da morte
Como no poço da morte
a gente gira contra ventos e marés
e tempestades e tornados
como os miúdos teimam
em ficar sempre acordados
e lutam contra o sono
com os olhos arregalados
assim nós também p'ra lá da fadiga
giramos acordados e dizemos:
eu tenho a morte toda p'ra dormir
Como no poço da morte
Como no poço da morte
a gente gira e gira e queima o tempo
e queima gasolina e queima etapas
a gente puxa o brilho
aos motociclos e nas chapas
reluzem nossos fatos
nossas botas, nossas capas
e com a certeza já de estontearmos
ligamos os motores um dia mais
E vai de roda e gira sem parar
Mas como se costuma dizer
Tem que ser
porque parar, nunca
Ficar parado?
Antes o poço da morte
que tal sorte
COM UM BRILHOZINHO NOS OLHOS
Com um brilhozinho nos olhos
e a saia rodada
escancaraste a porta do bar
trazias o cabelo aos ombros
passeando de cá para lá
como as ondas do mar.
Conheço tão bem esses olhos
e nunca me enganam,
o que é que aconteceu, diz lá
é que hoje fiz um amigo
e coisa mais preciosa
no mundo não há.
Com um brilhozinho nos olhos
metemos o carro
muito à frente, muito à frente dos bois
ou seja, fizemos promessas
trocamos retratos
trocamos projectos os dois
trocamos de roupa, trocamos de corpo,
trocamos de beijos, tão bom, é tão bom
e com um brilhozinho nos olhos
tocamos guitarra
p'lo menos a julgar pelo som
E que é que foi que ele disse?
E que é que foi que ele disse?
Hoje soube-me a pouco.
passa aí mais um bocadinho
que estou quase a ficar louco
Hoje soube-me a tanto
portanto,
Hoje soube-me a pouco
Com um brilhozinho nos olhos
corremos os estores
pusemos a rádio no "on"
acendemos a já costumeira
velinha de igreja
pusemos no "off" o telefone
e olha, não dá p'ra contar
mas sei que tu sabes
daquilo que sabes que eu sei
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos parados
depois do que não te contei
Com um brilhozinho nos olhos
dissemos, sei lá
o que nos passou pela tola (o que nos passou pelo goto)
do estilo és o "number one"
dou-te vinte valores
és um treze no totobola (és o seis do meu totoloto)
e às duas por três
bebemos um copo
fizemos o quatro e pintámos o sete
e com um brilhozinho nos olhos
ficamos imóveis
a dar uma de "tête a tête"
E que é que foi que ele disse?
...
E com um brilhozinho nos olhos
tentamos saber
para lá do que muito se amou
quem éramos nós
quem queríamos ser
e quais as esperanças
que a vida roubou
e olhei-o de longe
e mirei-o de perto
que quem não vê caras
não vê corações
com um brilhozinho nos olhos
guardei um amigo
que é coisa que vale milhões.
E que é que foi que ele disse?
ETELVINA
Etelvina com seis meses já se tinha de pé
foi deixada num cinema depois da matinée
com um recado na lapela que dizia assim
quem tomar conta de mim
quem tomar conta de mim
saiba que fui vacinada
saiba que sou malcriada
Etelvina com dezasseis anos já conhecia
todos os reformatórios da terra onde vivia
entregaram-na a uma velha que ralhava assim
ai menina sem juízo
nem mereces um sorriso
vais acabar num bueiro
sem futuro nem dinheiro
Eu durmo sozinha à noite
vou dormir à beira rio à noite à noite
acocorada com o frio à noite à noite
Etelvina era da rua como outros são do campo
sua cama era um caixote sem paredes nem tampo
sua janela uma ponte que dizia assim
dentro das minhas cidades
já não sei quem é ladrão
se um que anda fora das grades
se outro que está na prisão
Etelvina só gostava era de andar pela cidade
a semear desacatos e a colher tempestade
a meter com os ricaços a dizer assim
você que passa de carro
ferre aqui a ver se eu deixo
venha cá que eu já o agarro
dou-lhe um pontapé no queixo
Eu durmo sozinha à noite ...
Etelvina já cansada de viver sem ninguém
a não ser de vez em quando amores de vai e vem
pôs um anúncio no jornal que dizia assim
mulher desembaraçada
quer viver com alma irmã
de quem não seja criada
de quem não seja mamã
Etelvina já sabia que não ia encontrar
nem um príncipe encantado nem um lobo do mar
só alguém com quem pudesse dizer assim
o amor já não é cego
abre os olhinhos à gente
faz lutar com mais apego
a quem quer vida diferente
O seu homem encontrou-o à noite
a dormir à beira rio à noite à noite
acocorado com o frio à noite à noite
LIBERDADE
Viemos com o peso do passado e da semente
esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela calada
só se pode querer tudo quando não se teve nada
só se quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sério quando houver
a paz o pão
habitação
saúde educação
só há liberdade a sério quando houver
liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
O ELIXIR DA ETERNA JUVENTUDE
Estou velho!
dói-me o joelho
dói-me parte do antebraço
dói-me a parte interna
de uma perna
e parte amiga
da barriga
que fadiga
o que é que eu faço?
escolho o baço ou o almoço?
vira o osso
dói o pescoço
é do excesso
do ex-sexo
alvoroço
perco o viço
já soluço
já sobrosso
esmiúço
os meus sintomas
e já agora, do meu médico
os diplomas
esmiúço
a consciência
e já agora, apresento a penitência
Ah que estou arrependido
de ter feito e de ter tido
ai coração, ora seja
como a que ouvi na igreja
Mea culpa, mea culpa
minha máxima desculpa
é ter vindo p'ro presente
conservado em aguardente
Quero ser p'ra sempre jovem
as minhas células movem
uma campanha eficaz
água benta e água-raz
O elixir da eterna juventude
esse que quer que tudo mude
p'ra que tudo fique igual
estava marado
falsificado
é desleal!
Vou implorar aos apóstolos
mas é pior, que desgosto-os
com tanto pecado junto
não lhes pega nem o unto
Vou recorrer aos meus santos
esses, ao menos, são tantos
que há-de haver um que me acuda
senão ainda tenho o Buda
Maomé vai à montanha
o papa, ninguém o apanha
na Rússia, o rato rói a rolha
venha o diabo e escolha
O elixir da eterna juventude
esse que quer que tudo mude
p'ra que tudo fique igual
estava marado
falsificado
é desleal!
Misticismo agora à parte
envelhecer é uma arte
"arte-nova", "arte-final"
numa luta desigual
Só me vou pôr de joelhos
ante o mais velho dos velhos
e perguntar-lhes o segredo
de p'ra ele inda ser cedo
Quando o espelho me mira
já nem o chapéu me tira
deito-lhe a língua de for a
pisco o olho e vou-me embora
O elixir da eterna juventude
esse que quer que tudo mude
p'ra que tudo fique igual
estava marado
falsificado
é desleal!
O FIM DE TUDO
No começo era o fim
agora ai de mim, ai de mim
era bom, era a sós
agora ai de nós, ai de nós
como é que se sai
do eterno ai, terno ai
como é que se faz
pela paz
que é o nosso bem camuflado
dá-se aquela de emancipado
e some cada um p'ra seu lado
o perfeito casal
habitué da coluna social
estrilhou, estrilhaçou
vá lá saber-se porquê
vá lá saber-se porquê
O fim de tudo
é um recomeço
e olha, eu bem que mereço
tratar bem do melhor em mim
No começo, a paixão
agora essa não, essa não
era tudo demais
agora é só ais, é só ais
que é do amor que aparecia
tão cru na fotografia
que é do amor que se faz
e talvez
não volte mais a ser feito
vai-se de coração ao peito
cortar pela vida a direito
coração trivial
a afundar em água doce, água e sal
estrilhou, estrilhaçou
vá lá saber-se porquê
vá lá saber-se porquê
O fim de tudo
é um recomeço
e olha, eu bem que mereço
tratar bem do melhor em mim
No começo é para sempre
agora há quem lembre, há quem lembre
a promessa a preceito
de peito ao ar, mão no peito
pelo jeito da mão
ainda é talvez sim, talvez não
mas o fôlego falha-nos
valha-nos Deus, quem nos acode
a parte esquece do peito explode
e o coração que gire e que rode
O fim de tudo
é um recomeço
e olha, eu bem que mereço
tratar bem do melhor em mim
O REI VAI NU
Não sei de imagem
que o tempo não destrua
não sei de ti
se atravessas a rua
vem ter comigo
sempre que for preciso
fala com a voz
fala com o choro
fala com o riso
diz o que é preciso
Viva quem vive
com a cabeça aperrada
e dispara a bala
contra o medo apontado
viva quem luta
com a cabeça ao contrário
p'ra ver também
um pouco do lado do adversário
do lado contrário
E viva o dia
em que já não precisas
de reis nem gurus
nem frases-chave nem divisas
ó dia
em que já não precisas
de reis nem papás
nem profetas nem profetisas
Ei, ei, que é do rei
o rei foi-se, o rei vai nu
ei, ei, viva eu, viva tu
Não sei de imagem
que o amor não persiga
não sei de ti
se não fores minha amiga
faz o que queres
que se queres é preciso
faz o melhor
fá-lo com a loucura
e com o juízo
faz o que é preciso
Viva quem muda
sem ter medo do escuro
o desconhecido
é n irmão do futuro
viva quem ama
com o coração aos saltos
e mesmo assim vence
os seus altos e baixos
e altos e seus sobressaltos
E viva o dia
em que já não precisas
de reis nem gurus
nem frases-chave nem divisas
ó dia
em que já não precisas
de reis nem papás
nem profetas nem profetisas
Ei, ei, que é do rei
o rei foi-se, o rei vai nu
ei, ei, viva eu, viva tu
PARTO SEM DOR
E agora eu vou-me embora
e embora a dor
não queira ir já embora
agora eu vou-me embora
e parto sem dor
E parto dentro de momentos
apesar de haver momentos
em que dentro a dor
não parte sem dor
UM TEMPO QUE PASSOU
Vou
uma vez mais
correr atrás
de todo o meu tempo perdido
quem sabe, está guardado
num relógio escondido por quem
nem avalia o tempo que tem
Ou
alguém o achou
examinou
julgou um tempo sem sentido
quem sabe, foi usado
e está arrependido o ladrão
que andou vivendo com meu quinhão
Ou dorme num arquivo
um pedaço de vida
a vida, a vida que eu não gozei
eu não respirei
eu não existia
Mas eu estava vivo
vivo, vivo
o tempo escorreu
o tempo era meu
e apenas queria
haver de volta
cada minuto que passou sem mim
Sim
encontro enfim
iguais a mim
outras pessoas aturdidas
descubro que são muitas
as horas dessas vidas que estão
talvez postas em grande leilão
São
mais de um milhão
uma legião
um carrilhão de horas vivas
quem sabe, dobram juntas
as dores colectivas, quiçá
no canto mais pungente que há
Ou dançam numa torre
as nossas sobrevidas
vidas, vidas
a se encantar
a se combinar
em vidas futuras
Enquanto o vinho corre, corre, corre
morrem de rir
mas morrem de rir
naquelas alturas
pois sabem que não volta jamais
um tempo que passou
(Ou dançam numa torre...)
(Enquanto o vinho corre, corre, corre...)