Eu sou aquele
Eu sou aquele, que os
passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios e enganos.
E bem que o decantei
bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.
Já sinto que me inflama,
e que me inspira
Talia, que anjo é da minha guarda,
Dês que Apolo mandou, que me assistira.
Arda Baiona, e todo o
mundo arda,
Que a quem de profissão falta à verdade,
Nunca a dominga das verdades tarda.
Nenhum tempo excetua a
cristandade
Ao pobre pegureiro do Parnaso
Para falar em sua liberdade.
A narração há de
igualar ao caso,
E se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por poeta, o que é Pegaso.
De que pode servir calar
quem cala?
Nunca se há de falar o que se sente?!
Sempre se há de sentir o que se fala.
Qual homem pode haver tão
paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia
Não chore, não suspire e não lamente?
Isto faz a discreta
fantasia:
Discorre em um e outro desconcerto,
Condena o roubo, increpa a hipocrisia.
O néscio, o ignorante, o
inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado e incerto.
E quando vê talvez na
doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada aprova.
Diz logo prudentaço e
repousado:
- Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.
Néscio, se disso entendes
nada ou pouco,
Como mofas com riso, e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco.
Se souberas falar, também
falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras poeta, poetizaras!
A ignorância dos homens
destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas feras.
Há bons, por não poder
ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos;
Não mordem outros - porque não têm dentes.
Quantos há que os
telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos?
Uma só natureza nos foi
dada;
Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão criou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos
perversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.
Quem maior a tiver, do que
eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
Calem-se os mais, chitom, e haja saúde.