Discreta e formosíssima I
Discreta e formosíssima
Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca, o Sol e o dia:
Enquanto com gentil descortesia,
O Ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança brilhadora
Quando vem passear-te pela fria.
Goza, goza da flor da
mocidade,
Que o tempo trata, a toda a ligeireza
E imprime em toda flor sua pisada.
Oh não aguardes que a
madura idade
te converta essa flor, essa beleza,
em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.
Discreta e formosíssima II
Discreta e formosíssima
Maria,
Enquanto estamos vendo claramente,
Na vossa ardente vista o sol ardente,
E na rosada face a aurora fria:
Enquanto pois produz,
enquanto cria
Essa esfera gentil, mina excelente
No cabelo o metal mais reluzente,
E na boca a mais fina pedraria:
Gozai, gozai da flor da
formosura,
Antes que o frio da madura idade
Tronco deixe despido, o que é verdura.
Que passado o zênith da
mocidade,
Sem a noite encontrar da sepultura,
É cada dia ocaso da beldade.