A Dor
Se quereis a certeza das diferenças entre o prazer e a dor, comparem a impressão do animal que devora outro, com a impressão do devorado. SCHOPENHAUER
A VIDA É DOR
Quem deseja, sofre; quem vive, deseja; a vida é dor.
Quanto mais elevado é o espírito do homem, mais sofre. A
vida não é mais do que uma luta pela existência com a certeza
de sermos vencidos. A vida é uma incessante e cruel
caçada onde, às vezes como caçadores, outras como caça,
disputamos em horrível carnificina os restos da prêsa. A
vida é uma história da dor, que se resume assim: sem motivo
queremos sofrer e lutar sempre, morrer logo, e assim
consecutivamente durante séculos dos séculos, até que a Terra
se desfaça.
DEUS, CRIADOR
Se é certo que um Deus fez este mundo, não queria eu ser esse
Deus: as dores do mundo dilacerariam meu coração. Se
imaginássemos um demonio criador, ter-se-ia o direito de lhe
censurar, mostrando-lhe a sua obra: "Como te atreves a
perturbar o sagrado repouso do nada, para criares este mundo de
angústia e de dores?"
NOSSO INFERNO
O inferno de nossa vida supera o de Dante no ponto de que cada um
de nós é o demonio do seu vizinho. Há também um
arquidemonio, a quem os outros obedecem: é o conquistador, que
dispõe os homens uns em frente dos outros e lhes grita:
"Vosso destino é sofrer e morrer; portanto, matem-se
mutuamente". E assim procedem os homens.
O MELHOR DOS MUNDOS
Se mostrássemos aos homens as horríveis dores e os atrozes
tormentos a que está constantemente exposta sua existência,
tremeriam de espanto; e se ao mais convencido otimista
fizéssemos visitar os hospitais, os lazaretos, as salas de
tortura dos cirurgiões, as prisões, os campos de batalha, os
tribunais de justiça, os sombrios refúgios da miséria, e se
por último, o fizéssemos contemplar a torre de Ugolino,
acabaria por reconhecer de que modo é este "o melhor dos
mundos possíveis".
NOSSO MUNDO, MODeLO DE
HORRORES
Se considerarmos a dificuldade que teve Dante em descobrir o céu
e suas alegrias, logo se verá que classe de mundo é o
nosso. Por quê? Porque o nosso mundo nada apresenta
de análogo. E para descrever o Paraíso viu-se o poeta
obrigado a dar parte das notícias que lhe deram os seus
antepassados, sua Beatriz e vários santos. Sem dúvida,
Dante descobriu muito bem o Inferno. Por quê? Porque
achou o assunto e o modelo na realidade do nosso mundo.
A TRAGICOMÉDIA DE NOSSA
VIDA
Vista e examinada minuciosamente de alto e de longe, a vida de
cada homem tem o aspecto de uma comédia; em sua total
consideração ou em seus aspectos mais dignos de apreço, se
apresentará como uma contemplação trágica. O afã e o
trabalho de cada dia, os desejos e receios cotidianos, as
desgraças de cada hora, os acasos da sorte sempre disposta a nos
enganar são outras tantas cenas da comédia. As
aspirações iludidas, as ilusões desfeitas, os esforços
baldados, os erros que completam nossa vida, as dores que se
acumulam até terminar na morte, o último ato, eis a
tragédia. Parece que o destino quis juntar o escárnio ao
desespero, e, fazendo de nossa vida uma tragédia, não nos
permite conservar a dignidade de uma personagem trágica.
Por isso é que em todos os atos da vida representamos o
lamentável papel de comicos.
DA DOR AO
ABORRECIMENTO
A dor e o aborrecimento são os dois últimos elementos entre os
quais oscila a vida do homem. Os homens exprimiram esta
oscilação de modo curiosa; depois de haverem feito do inferno o
lugar de todos os tormentos e dores, que deixaram para o céu?
justamente o aborrecimento.
RIO ABAIXO
A vida é um mar cheio de escolhos e turbilhões que o homem
evita à força de prudência e cuidados, sem embora desconhecer
q ue, à medida que avança sem poder retardar a marcha, corre
para o definitivo e inevitável naufrágio, a morte, fim fatal de
sua acidentada navegação, é parte ele muito mais perigoso que
todos os turbilhões e escolhos de que conseguiu escapar.
DISFARCES DA DOR
Nossos esforços para banir a dor de nossa vida não conseguem
outro resultado senão o de fazê-la mudar de forma. Em sua
origem tomam o aspecto da necessidade, cuidado, para atender as
coisas materiais da vida, e quando, após um trabalho incessante
e penoso, conseguimos afastar a horrível máscara da dor neste
determinado aspecto, adquire outros mil disfarces, segundo a
idade e as circunstâncias: o instinto sexual, o amor apaixonado,
a inveja, o rancor, os ciúmes, a ambição, a avareza, o temor,
a enfermidade, etc. Toma o aspecto triste e desolado do
tédio, da sociedade, quando não encontra outro modo de se
apresentar. E se com novas armas conseguimos afastá-la
novamente, recuperará sua antiga máscara, e a dança
recomeça.
CONDENADOS À MORTE
Na primeira mocidade, colocamo-nos perante o destino, como as
crianças, que, em frente ao pano de um teatro, impaientes e
alegres, esperam as maravilhas que virão surgir em cena. É uma
felicidade não podermos saber nada de antemão. Para quem
sabe o que realmente vai se passar, as crianças são inocentes
condenados não à morte, mas à vida, e que desconhecem ainda a
sua sentença.
TODOS DESTERRADOS
Se não fosse a dor, poderíamos dizer que a nossa existência no
mundo não teria nenhuma razão de ser. É um absurdo pensar que
a dor, que nasce da vida e enche o mundo, seja apenas um
acidente, e não o próprio fim. Cada desgraça pessoal
apresenta-se com uma exceção, mas, como somos todos
desgraçados, a desgraça geral é a regra.
VIVEMOS COMBATENDO
Na desgraça, pensar em outros que são mais desgraçados, é o
nosso maior consolo: é este o remédio eficaz ao alcance de
todos. Porém, como os carneiros, que saltam no prado,
enquanto o carniceiro faz a sua escolha no meio do rebanho,
assim, em nossas horas felizes, não sabemos que desastre nos
prepara o destino, justamente nesse momento: enfermidade, ruína,
loucura, perseguições, etc. Tudo que defendemos,
resiste-nos, tudo tem uma vontade hostil que é preciso
vencer. A história nos diz que a vida dos povos é uma
sucessão de guerras e revoltas; os anos de paz não passam de
curtos entreatos. O mesmo acontece com a vida do homem, em
constante luta contra as penas ou o aborrecimento, males
abstratos, e contra seus semelhantes. Em todas, as partes e
ocasiões temos que travar combate com um adversário. A
vida é uma guerra sem quartel, e a morte nos encontra com as
armas na mão.
O TEMPO, MAIS UM
TORMENTO
A rapidez do tempo, que se conserva atrás de nós como um vigia
dos forçados, é mais um tormento da existência, que nos faz
viver apressadamente sem sossego e sem deixar-nos respirar.
São poupados semente aquele que o tempo condenou ao
aborrecimento.
NECESSIDADE DA DOR
Todos nós necessitamos sofrer certo número de preocupações,
de penas e misérias, da mesma maneira que um barco tem
necessidade de lastro para conservar seu equilíbrio. Se
assim não fosse, se súbito nos libertássemos do peso da dor e
das contrariedades,o orgulho do homem o faria em bocados ou pelo
menos ele seria levado às maiores irregularidades e até à
loucura furiosa, do mesmo modo que o nosso corpo rebentaria se
repentinamente deixasse de sentir a pressão atmosférica.
O quinhão de quase todos os homens durante sua vida resume-se em
pesares, trabalho e miséria, porém, se todas as aspirações
humanas se realizassem, como que se preencheria o tempo? O
que preencheria sua vida? Se os homens vivessem no país
das fadas, onde nada exigisse esforço e onde as perdizes voassem
já assadas e recheadas ao alcance da mão, num país, onde cada
um pudesse obter a sua amada sem dificuldade alguma, êles
morreriam de tédio ou se enforcariam, outros despedaçar-se-iam
entre si, causando-se maiores males que os impostos pela
natureza. E isto demonstra que para nós não há melhor
cenário que aquele que ocupamos, nem melhor existência do que a
atual. Se pensamos (e só é possível ter-se uma idéia
aproximada) na dor, nos tormentos de todas as espécies que o sol
ilumina no seu curso, sentimo-nos propensos a desejar que a sua
luz perca o poder criador da vida, como acontece com a Lua, e que
a superfície do nosso planêta se faça tão gelada e estéril
como a do astro da noite.
A GRANDE MENTIRA DA
VIDA
Nossa vida é um episódio que perturba, sem nenhuma utilidade, a
serenidade do nada. Mesmo aquele que não considera a
existência como uma carga, à medida que passam os anos tem a
consciência clara do que a vida é, em todos os seus aspectos,
uma imensa mistificação, para não dizer uma formidável
zombaria.
O ESPECTADOR SE
ABORRECE
O homem que sobrevive a duas ou três gerações pode ser
comparado ao espectador de um circo, que assiste às mesmas
farsas duas ou três vêzes seguidas. Como a farsa estava
calculada para uma única representação sua repetição não
causa efeito no ânimo do espectador, o qual se aborrece por
estarem dissipadas a ilusão e a novidade.
UMA BELA EXPRESSÃO
A vida é uma carga enfadonha e aborrecida, uma tarefa que
devemos desempenhar com tanto trabalho, que involuntariamente
pensamos no descanso: e neste sentido a palavra defunctus é uma
bela expressão.
VITIMAS E ALGOZES
Povoado por almas torturadas e por diabos que torturam, o mundo
é um imenso inferno.
A FILOSOFIA NÃO É O
CATECISMO
Ainda ouvirei dizer que a minha filosofia entristece tudo, isto
porque digo a verdade àqueles que só gostariam que eu lhes
dissesse: "Deus, Nosso Senhor fez tudo muito
bem". Ide à igreja, e deixai os filósofos em paz,
ou, pelo menos, não lhes exijam que ajustem as suas doutrinas ao
vosso catecismo. Recorrei aos filosofastros e
encomendai-lhes teorias ao vosso gosto. Não há nada que
dê mais prazer ou que seja mais fácil do que perturbar o
otimismo dos que ensinam filosofia.
A DOR DE VIVER
Se o ato da geração fosse somente obra de razão e reflexão,
em vez de ser uma necessidade ou uma voluptuosidade,
subsistiria a espécie humana? Não sentiríamos piedade
pela geração futura, para lhe poupar a dor de viver, ou, ao
menos, não hesitaríamos em impor-lhe a sangue frio tão pesada
carga?
INVEJA E COMPAIXÃO
Não há uma só pessoa que seja verdadeiriniente digna de
inveja; e quantas são dignas de compaixão.
PRANTO, DOR E
ABORRECIMENTO
Nossa razão se obscurece ao considerarmos que as inúmeras
estrêlas fixas, que brilham no céu, não têm outro fim senão
o de iluminar mundos onde reinam o pranto, a dor, e onde, no
melhor dos casos, só vinga o aborrecimento; pelo menos a julgar
pela amostra que conhecemos.
O MUNDO, LUGAR DE
EXPIAÇÃO
Brama criou o mundo por uma espécie de pecado ou desvário, e
permanece nêle para expiar sua falta. - Muito bem! -
Segundo o budismo, uma perturbação inexplicável criou o mundo,
produzindo-se depois um longo repouso na beatitude serena,
chamada Nirvana, que será conquistada pela penitência.
Perfeitamente. Para os gregos o mundo e os deuses eram a
obra de uma necessidade insondável, explicação admissivel,
porque nos satisfaz provisoriamente. Ormuzd combate com
Ariman: isto podemos admitir. Mas um Deus como esse Jeová,
que animi causa, por seu belprazer, criou este mundo de lágrimas
e dores, e que ainda se alegra e se aplaude de o haver criado,
achando-o bom, isso já é demasiado forte. Sob este ponto
de vista, podemos considerar a doutrina dos judeus como a última
entre todas as que professam os povos civilizados, sobretudo,
sendo que tomemos em consideração de ser ela a única que não
possui qualquer vestígio de imortalidade. Ainda que a
teoria de Leibnitz fosse verdadeira, embora se admitisse que
entre os mundos possíveis este é o melhor, essa demonstração
não nos daria nenhuma teodicéia, porque o Criador não se
limitou a criar o mundo, mas também a possibilidade de sua
criação: por isso deveria ter criado um mundo melhor. A
dor que enche o mundo protesta irada contra a hipótese de uma
obra perfeita devida a um sêr infinitamente bom e sábio, e
também todo poderoso. E, por outra parte, é bem evidente
a notória imperfeição, a burlesca caricatura que éo homem,
obra acabada da criação. Não é possível explicar essa
dissonância. Quando consideramos o mundo como obra de
nossa própria culpa, e, portanto, como alguma coisa que não
pode ser melhor, as dores e miséria da humanidade são provas em
apoio desta tese. Se o mundo é obra de um criador, as
dores voltam-se contra êle dando lugar a cruéis sarcasmos; mas
se é obra nossa, a acusação é contra o nosso sêr e a nossa
vontade. Isto nos faz pensar que viemos ao mundo já
viciados, como os filhos de pais gastos pelos desregramentos, e
que se a nossa existência é tão miserável, e tem por
desfêcho a morte, é porque assim merecemos, para expiar nossa
culpa. Generalizando, nada é mais certo: a culpa do niundo
é que causa os sofrimentos, e entendemos esta relação no
sentido metafórico, e não no físico e enipírico. Por
isso, a história do pecado original reconcilia-me com o Antigo
Testamento; para mim é a única verdade metafísica que o livro
contém,- expressa em forma alegórica. A nada se assemelha
tanto nosso destino como à conseqüência de uma falta, de um
desejo culpado. Para ter orientação na vida, e considerar
a vida em seu verdadeiro aspecto, basta habituarmo-nos ao
pensamento de que este mundo é um vale de lágrimas, em lugar de
penitência; a penal colony, como a definiram os mais antigos
filósofos, e alguns padres da Igreja. (Santo Agostinho, De
civit, Dei; o que em todas as épocas o confirma o bramanismo, o
budismo, Empédocles e Pitágoras. Cicero, em sua
"Fragmenta de filosofia" conta, que nas antigas
iniciações dos mistérios se ensinava: nos ob aliqua scelera
suscepta in vita superiores poenarum luendarum causa natos
esse. O verdadeiro cristão considera a vida como a
conseqüência de uma falta, de uma culpa, de uma queda. Se
nos habituássemos a essa idéia, não pediríamos à vida senão
o que ela nos pode dar: receberíamos resignados, como uma
lógica, as dores, os contratempos e desenganos que o mundo nos
oferece, pois sabemos que aqui estamos para suportar a pena de
viver, a que nos condenaram. Vanini, que achara mais fácil
queimar que refutar, diz: Tot, tantísque homo, re letus
miseriis, ut si christianae religioni non repugnarei, dicere
auderem: si daemonis dantur, ipsi, in hominum corpora
transmigrantes, sceleris poenas luunt. (De admirandi naturac
arcanis). Não é mistér que eu diga o que vale a
sociedade de nossos semelhantes; aquele estão conscientes que
mereciam outra melhor, assim como se sabe que não é a menor
pena do presidiário a sociedade em que êle se encontra.
Um espírito elevado, uma alma delicada, um gênio pode sentir a
mesma necessidade de isolamento que um nobre prisioneiro que se
encontra na cadeia rodeado de criminosos vulgares. Se
sempre nos lembrássemos de que viemos ao mundo para expiar uma
culpa, acolheríamos sem surprêsa e sem indignação as
imperfeições de nossos semelhantes, os tormentos que aqui
sofremos, cuja miserável constituição intelectual e moral se
revela até no rosto. A certeza de que o mundo e o homem
não podem mudar nos encheria de dó pelo próximo. Com
efeito, que podemos esperar de tais sêres? Penso, às
vêzes, que a melhor maneira dos homens se cumprimentarem em vez
de ser "Cavalheiro, Senhor, Sir", poderiam ser,
"companheiro de sofrimentos, soci malorum, my
fellow-sufferer"... Por mais irritante que pareça
esta expressão, tem mais fundamento que as usuais, e recorda-nos
a paciência, indulgência e amor ao próximo, e, usada por
todos, beneficiaria a cada um.
A DoR É A ÚNICA
POSITIVA
Do mesmo modo que o rio corre manso e sereno, enquanto não
encontra obstáculos que se oponham à sua marcha, assim corre a
vida do homem quando nada se lhe opõe à vontade. Vivemos
inconscientes e desatentos: nossa atenção desperta no mesmo
instante em que nossa vontade encontra um obstáculo e choca-se
contra êle. Sentimos ato contínuo tudo o que se ergue
contra a nossa vontade, tudo o que a contraria ou lhe resiste: ou
o que é mesmo, tudo o que nos é penoso e desagradável.
No entanto, não prestamos atenção à saúde geral do nosso
corpo, mas percebemos ligeiramente aonde o sapato nos molesta;
não pensamos nos negócios e só nos importamos com uma ninharia
que nos incomoda. Isto quer dizer que o bem-estar e a
felicidade são valores negativos, e só a dor é positiva.
É um absurdo acreditar o contrário; que o mal é negativo. Êle
é positivo, porque se faz sentir. Toda a felicidade, todo
o bem é negativo, e toda a satisfação também o é, porque
suprime um desejo ou termina um pesar. Acrescentamos a isto
que, em geral, nunca sentimos uma alegria maior que a que
sonhávamos, e que a dor sempre a excede. Se quereis
certeza das diferenças entre o prazer e a dor, comparem a
impressão do animal que devora outro, com a impressão do
devorado.
BOLHAS DE SABÃO
O homem só vive no presente, que se converte no passado, e
afunda-se na morte. Exceto as conseqüências que podem
influir no presente, e que são filhas de sua vontade, ou de seus
atos, a sua vida passada já não existe. Devia portanto
ser-lhe indiferente que êsse passado fosse de prazeres ou
tristezas. O presente foge-lhes das mãos, transformando-se
no passado. O futuro é incerto. Fisicamente, o andar
não é mais do que uma queda evitada a cada instante; da mesma
maneira a existência é a morte suspensa, adiada, e a atividade
de nosso espírito não é mais que uma luta constante contra o
tédio. É pois fatal que a morte alcance a vitória.
Por haver nascido lhe pertencemos, e durante nossa vida não faz
senão brincar com a prêsa antes de a devorar. E assim
como quem faz bolhas de sabão, e apesar da segurança de que
acabará por rebentar, se entretém em fazê-la aumentar de
volume, assim seguimos o curso de nossa existência,
prodigalizando-lhe cuidados e atenções.
A FELICIDADE NÃO PODE
VIVER NO PRESENTE
A vida é uma constante mentira, quer nas coisas pequenas como
nas grandes. Quando nos faz uma promessa, não a cumpre, a
não ser para mostrar-nos que era pouco desejável o nosso
desejo. Da mesma maneira nos engana a esperança quando
não se realiza o que esperávamos. E se a vida cumpre o
que nos prometeu, é só para nos tornar a tirar. A beleza
do paraíso, que à distância admiramos, desaparece logo que nos
deixamos seduzir. A felicidade está no futuro, ou no
passado; o presente é uma pequena nuvem escura que o vento
impele sobre a planície cheia de sol. Diante e atrás
dela, tudo é luminoso; só a nuvem é que projeta uma
sombra.
A VIDA NA PAZ E NA GUERRA,
E SUA FINALIDADE
A vida nunca se apresenta como um mimo que nos é dado gozar, mas
sim como uma tarefa que tem de se cumprir à força de trabalho;
disto nasce e toma origem uma concorrência sem tréguas, uma
luta sem fim, uma miséria geral, uma agitação em que tomam
parte todas as forças do espírito e do corpo. Milhões de
homens, reunidos em nações, trabalham para o bem público,
trabalhando assim cada um em seu próprio interesse, porém, as
vítimas deste trabalho morrem aos milhares. Às vêzes, por
preconceitos absurdos, outras, por uma política sutil, as
nações se aniquilam numa guerra. É preciso que o sangue do
povo corra em abundância para expiar a culpa de alguns, ou para
realizar os caprichos de outros. Enquanto reina a paz no
mundo, a indústria e o comércio prosperam, as invenções se
multiplicam, os navios sulcam os mares, transportando para toda
parte produtos do mundo, as ondas tragam milhares de
homens. O tumulto é imenso, enquanto uns se agitam e
movem, outros meditam. Mas qual é a suprema finalidade de
tantos esforços? Manter, no caso mais favorável, a vida
de seres efêmeros em uma miséria suportável, e uma ausência
relativa de dor que o tédio aceita constantemente, e ademais a
reprodução dêsses sêres, e a renovação de seus
esforços.
INDEFESA DO HOMEM
De todos os sêres, o homem é o mais necessitado: só tem
vontades e desejos, um conjunto de centenas de
necessidades. Abandonando a si próprio, vive na terra sem
segurança nenhuma a não ser sua miséria. A luta pela
vida, cada dia renovada, a necessidade que o constrange, e as
imperiosas exigências materiais, preenchem a sua
existência. Ao mesmo tempo, outro instinto o atormenta; o
de perpetuar a sua raça. Ameaçaado por todos os lados
pelos perigos que o rodeiam, usa de sua prudência sempre
vigilante para poder escapar. Com passo inquieto, lançando
em volta olhares angustiosos, segue o seu caminho em luta
constante com os casos e com seus inúmeros inimigos. O
homem não se sente seguro entre os da sua raça e nem nos mais
longínquos desertos. Qualibus in tenebris vitae,
quantisque periclis degitur hocc'aevi, quodcunque
est! Lucr. 11, 15.
TRABALHAR OU
ABORRECER-SE
A necessidade imperiosa do homem é assegurar a existência, e
feito isto, já sabe o que fazer. Portanto, depois disso, o
homem se esforça para aliviar o pêso da vida, torná-la
agradável e menos sensível: "matar o tempo", isto é,
fugir ao aborrecimento. Livres da preocupação de
assegurar a existência, e livres seus ombros de todo fardo moral
ou material, êles mesmos constituem sua própria carga, e
sentem-se felizes porque viveram uma hora desapercebida, embora
isto significa que sua vida a qual se esforçam com tanto zêlo
para prolongá-la, ficou encurtada pelo mesmo espaço de
tempo. O aborrecimento merece tê-lo em conta; êle se
reflete na fisionomia. O aborrecimento é a origem do
instinto social, porque faz com que os homens, que pouco se amam,
se procurem e se relacionem. O Estado considerado como uma
calamidade pública, e por prudência toma medidas para o
combater. O aborrecimento como o seu extremo oposto, a
fome, pode impelir o homem aos maiores desvarios; o povo precisa
panem et circenses. Fundado na solidão e na inatividade, o
rude sistema penitenciário de Filadélfia faz do
aborrecimento um instrumento de suplício tão terrível, que
mais de um condenado tem-se suicidado para fugir a êle. A
miséria é sofrimento pungente do povo; o desgosto é para os
favorecidos. Na vida civil, o domingo significa o tédio, e
os seis dias, o desgosto.