Fragmentos de alguns romances de Dédalo Vandalbrain
O CAMINHANTE
INTRODUÇÃO
Ele voltou de madrugada, sob uma chuva torrencial.
Durante a semana, núvens terríveis tinham acumulado-se sobre o país, enquanto trovões rugiam sobre as
colinas. De madrugada, a chuva começou, já intensa e irracional, e parecia que nunca mais iria parar. O dia inteiro, caira
aos baldes sobre as ruínas da antiga cidade medieval de Carmenbourgh. Pancadas sincopadas fustigavam as árvores
impiedosamente e as bocas-de-lobo transbordavam, despejando uma torrente sobre as ruas. Os grandes edifícios
aparentemente dissolviam-se como borra molhada de papelão, expondo sua ossatura de aço. A antiga Catedral de Aço
parecia prestes a erguer-se e flutuar, levada por uma turbilhonante maré. ´Como a Arca de Noé´, pensou o homem, que
tinha um pacto com o Demônio, enquanto suas botas chafurdavam nas poças de lama. ´Somente as lágrimas de dez
mil anjos chorando poderiam causar tamanho dilúvio...' Estranho, era como se tivesse trazido o Temporal consigo. Há
meses, seus caminhos coincidiam. Assistiu sua gênese, do alto do Qangtö, após sua iluminação e antes de encontrar
Chandgarh, a Cidade dos Imortais, numa planície assolada pelos ventos à sombra do Himalaia (Ou uma coisa depois da
outra? Ele já não sabia com certeza). Era, então, um tufão oriental, fuliginoso e apocalíptico. Em Belzonte, cidade-alta,
uma borrasca fria e úmida. Em Ooberlands, uma garoa áspera e perfumada. Em Tapir´Atib, um aguadeiro grosso e
impenetrável. Onde estaria agora o velhote alado, Dédalo, seu companheiro de viagem e bom amigo? Ninguém
testemunhou que ele parecia não ser tocado pela chuva. Até mesmo os notívagos estavam recolhidos, desencorajados
pelo clima. 'As pessoas ainda fogem da chuva'. Sorriu sozinho. Isto é, sorriu sem sorrir, sorriu por dentro, como se a
chuva não alcançasse dentro dele e, ali, houvesse uma bela manhã ensolarada. E foi assim que tudo começou. E era
neste mundo que ele avançava, um vulto negro e solitário contra as luzes encharcadas da cidade deserta. Seus passos
eram calmos e decididos, como se habituado a caminhadas sem fim. Ele vinha do deserto e tudo parecia-lhe pequeno.
Na China Central, e e em lugares como o Vale de Grennascaul, aprendera a ignorar a fome, e o frio que congelava até
os ossos. Um homem não poderia passar por aquilo sem se desgastar um pouco e ele estava parecendo com algo que
um fazendeiro usaria para espantar pássaros. Esquelético, as mãos nas correias da mochila esfarrapada, estava vestido
como um mendigo, o que restara de seu uniforme de batalha, em cujas dobras ainda havia vestígios de ermos
longínquos. Somente um velho cão seria capaz de reconhecerê-lo - Mas a principal mudança era interior: A juventude
estudiosa e solitária; a guerra e a prisão; os anos de loucura e maldade; a dor do purgatório; a longa peregrinação em
busca do Conhecimento. Até que, . anos depois do Cerco de Tróia, ele sentiu o aroma de mate com canela e lembrou
do timbre musical de uma voz feminina. Se também pudesse sentir as pesadas gotas que pareciam golpeá-lo com força,
seria como uma carícia da natureza - ou a doce evidência da existência de um ou mais deuses.
Um silêncio de quase duas décadas estava terminando e ele estava de volta, coberto da poeira das estrelas (...)
TLÖN
(Work in Progress)
(Esboço de um fragmento do capítulo 1)
Marcel Duchamp abriu seu diário de linho creme, molhou a pena e começou a escrever:
"Chico Pinto, o imortal cronista de O Caminhante, escreveu que nós, tlönianos, somos todos uns fracotes. Mas também não foi sempre tão fraca, tão tíbia, toda a espécie humana? Nós todos, os homens de todos os séculos, somos fracos.
Somos, afinal, criaturas improváveis.
Vivemos agarrados como insignificantes carrapatos numa bolota de lama e rochas, Gaia. Este planeta, por sua vez, é insignificante diante de um universo incomensurável, num canto do qual está perdido a rodopiar. Somos parentes próximos dos chimpanzés e orangotangos, somos proporcionalmente mais frágeis que os ratos ou baratas que tentamos exterminar e nossa vida é mais curta que a das tartarugas. Não sabemos quem somos, de onde viemos e, muito menos, para onde vamos, se é que vamos chegar em algum lugar. A maioria de nós afasta estes pensamentos com religiões, crenças em deuses pré-fabricados, ou simplesmente procura não pensar em nada. No filme O Sentido da Vida, do grupo inglês Monty Pyton, o animador de auditório conclui: 'os seres humanos perdem tanto tempo com as picuinhas tolas do dia-a-dia que esquecem-se dos assuntos mais profundos'. No entanto, mesmo assim, a espécie humana é extraordinária; não há como não admirar as grandes obras do espírito, de alguns dos poucos homens que passaram e passam por aqui.
Scott Adams, no livro 'O Princípio Dilbert', assim resume a História da Humanidade: "Primeiro, existiram algumas amebas. Amebas dissidentes adaptaram-se melhor ao ambiente, tornando-se macacos. E, aí, veio a Gestâo da Qualidade Total".
De fato, foi mais ou menos isto que aconteceu nos últimos séculos, mas a estória pode ser melhor detalhada.
O espírito do século XVIII foi o Iluminismo.
O espírito do século XIX: Ceticismo científico.
Século XX a XXI: Consumismo.
Século XXII a XXXI: Corporativismo.
Século XXXII a LIIV: Guerra contra as máquinas.
O século LIIVI lembra o século XX, que começou em 1914, com um homem sendo baleado (o príncipe Ferdinando, cujo assassinato foi o estopim da 1.a Grande Guerrra). No meio, duas cidades foram dizimadas da face da Terrra (Hiroxima e Nagasaqui, no final da 2a Guerra Mundial). E terminou com a queda de um muro, nos anos 90 (simbolizando o fim do socialismo e da URSS). O espírito do século XX foi a Utopia e Carnificina. E também a morte do Idealismo e, da crença no poder da palavra e, por consequência, a morte da Literatura.
Estava eu na chácara em Cacotibaqare, embalando umas ferramentas com jormais velhos, quando deparei com um velho artigo. Mais ou menos uma página, escrito por um neuroquímico gaúcho (ou Big Sur, a Terra de Qace, como preferiem). As coisas sempre são mais complexas, multidimensionais, do que qualquer tese, mas esta é bem interessante. Em resumo: As utopias do início do século XX foram criadas como um desenvolvimento da literatura (até porque, no século XIX, a literatura era respeitada como uma das grandes realizações do espírito humano, dá para acreditar?). No entando, todas as utopias ruiram, causando não raro o sofrimento e a morte de milhares de seres humanos (socialismo, o nazismo, de certa forma) - e arrastaram a literatura junto para o ralo. O ser humano passou a desconfiar e até a desprezar a propagação de idéias, as palavras e a literatura. Por isso, hoje é um gênero secundário, amesquinhado. Como resultado, temos estas porcarias que entulham as livrarias (mas não os sebos): autoajuda pra tudo, espiritismo fácil, esoterismo barato... Tudo bobagem, sem nenhuma solidez. No entanto, o autor do artigo termina otimista: Não é possível que o ser humano não volte a respeitar uma de suas maiores - e ainda a mais poderosa - de suas realizações: a arte da Linguagem .
Os historiadores tem um certo tabu para estudar a própria época em que vivem, mas já temos quase uma década de século LIIVI e, assim, já podemos arriscar qual o seu seu espírito.
O espírito deste século LIIVI é semelhante ao do século XXI (a tal Circularidade da História): Não é o futurismo das previsões de Sci Fi, nem a utopia perfeccionista e estetizante apregoada por nossos supostamente inexistentes goverantes. O espírito deste século é a vacuidade. É apenas Cheque Especial, Cartão de crédito, micro ondas, DVD, cervejinha (Experimenta!), arte promocional e muita (mas muita mesmo) distância de livros, filosofia e qualquer remota sombra de pensamento profundo. Em suma: O espírito do século LIIVI é o 'Orgulho da Mediocridade'. A ordem é: 'Vamos celebrar nossa ignorância!', como já previra o poeta Renato Russo.
Uma prova disto é que as pessoas hoje não tem mais ídolos. Por exemplo, eu saberia dizer uma dezena de autores cujas obras admiro e me inspiram, na pintura, arquitetura, literatura, etc. Uma típica pessoa deste novo século, uma pessoa jovem como este século, provavelmente saberia recitar apenas personagens de novelas de Globo ou estrelas de filminhos de Hollywood.
Outra característica interessante deste novo Zeitgeist é o desprezo pela História: Só o presente interessa. A primeira vez que me deparei com esta tendência foi quando Andrea Doria, uma namorada de 17 anos, demonstrou não saber que tinha existido o Holocausto, o extermínio de 6 milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial. Isso foi a dez anos e, na época, fiquei bastante impresisonado com esta prova de ignorância histórica. Talvez por isso eu tenha chamado o conjunto da minha obra de Oblivion (o Esquecimento).
Mais uma característica: O desenvolvimento da tecnologia de comunicação proporcional ao empobrecimento das mensagens veiculadas. Deixemos a Internet de lado, pois seu espírito é, no fundo, o de uma imensa biblioteca da cultura humana, uma imensa e desta vez indestrutível Nova Biblioteca da Alexandria. Eu me refiro à telefonia, ou mais exatamente aos celulares. É a forma de comunicação mais superficial, mais sem conteúdo. Tem até uma operadora que se chama, sintomaticamente, ´Oi´. Outra operadora mostra em sua propaganda a mãe tirando foto do filhinho no futebol, para enviar ao pai. Poético, sem dúvida, mas nenhuma tecnologia substitui a comunicação pessoal, o 'tete a tete' que nasceu com a civilização humana. Nem a comunicação escrita (e-mails, correspondência), que permite um maior aprofundamento das idéias, talvez por ser literária por natureza. A comunicação telefônica é por demais volátil para que se torne nossa principal forma de comunicação. E, como consequência, as pessoas estão se afastando cada vez mais e cada vez mais tem menos o que dizer umas às outras.
Segundo a lenda grega, Prometeu foi acorrentado pelos deuses e durante toda a etenridade teria seu fígado comido por um abutre. O fígado voltava a crescer. Foi um castigo por ter ofertado o Fogo aos homens. Mas a Civilização não é o só o Conhecimento (Ciência) e a Tecnologia (Fogo). Também é Polis, a Política, o que permite aos homens viverem em paz. Mas também é Logos e Poiesis. Mas isto é outra estória.
Ainda em 'O Princípio Dilbert', de Scott Adams: "Graças à prensa tipográfica, as pessoas espertas dissidentes conseguiram comunicar sua genialidade sem transmiti-la geneticamente. A evolução entrou em curto circuito. Alcançamos o conhecimento e a tecnologia antes da inteligência. Como consequência, somos um planeta com aproximadamente seis bilhões de bobos". Um encarte ´Mais!', da Folha de São Paulo em 2001, estampava em sua capa uma velha fotos dos nerds fundadores da Microsoft e o título da reportagem: "A Era dos Bobos".
No romance político '1984', George Orwell prevê o desenvolvimento artificial do que chama 'Novilíngua', uma linguagem tão pobre que não permitiria pensamentos heterodoxos. Hoje isto acontece naturalmente. Basta ver como os jovens 'comunicam-se', com um repertório cada vez mais lamentavelmente pobre de palavras e, consequentemente, de idéias.
Michael Crichton escreveu, em Linha do Tempo."Em outros séculos, os seres humanos queriam se salvar, se melhorar, se libertar ou se educar. Mas agora querem apenas se divertir. O grande temor não é a doença ou a morte, mas o tédio e a depressão: Uma sensação de tempo disponível, uma sensação de nada para fazer, uma terrível sensação de que não estamos nos divertindo".
O homem, hoje, é muito menos livres do que era a 200 ou 400 anos atrás, 2.000 ou 4.000 anos atrás, quando se podiam discutor ideiais revolucionários ou filosóficos, ou admirar as grandes obras da arte e da literatura sem ser considerado louco ou perdulatário econômico e temporal. Hoje, só se permite macaquear as superficiais artigos da Veja e do Jornal da Globo, bíblias destes novos tempos (É doente uma civilização de onde se origina um programa abominável como o 'Domingão do Faustão' ou admira atores como Leonardo di Caprio). Ou, o que é preferível, nada dizer. 'Ter' é muito mais valorizado do que 'saber' ou 'ser'.
Parece um retorno à origem animal, pré-linguagem. É a Teoria do Eterno retorno, apregoada pelos Circularistas, que aguardam pela Volta de Albert Qace/Qristo. Friedische Nietzsche adoraria..."
Marcel Duchamp largou a pena, refletiu um minuto e voltou à carga:
"Se alguém algum dia ler este diário, julgará que eu escrevo com revolta. Mas não é correto. Escrevo como observador interessado em um processo. Um cientista social, como Alecanto Cipriano.
Curioso que eu não notei esta tendência de esvaziamento do saber, por ter vivido um tanto à margem do espírito do nosso tempo, que coloca no pilar os cartões de crédito e celulares e no bueiro a Grande Arte. Acho que sou como o personagem Gardener, de Stephen King: ele escapa da influência dos alienígenas Tommyknockers devido a uma placa de metal em sua cabeça, resultado de uma intervenção cirúrgica após um acidente de esqui. Qace, no romance O Terrível Qasar de Guerra, também tem uma palaca na cabeça, resultante de uma grosseira cirurgia nos campos de batalha. Talvez uma espécie de placa de metal virtual na cabeça me proteja da influência do 'Vacuum Zeitgeist', a mediocridade do nosso tempo. No romance, Qace/Qristo viveu à margem de seus contemporâneos: solitário, intocado. Puro".
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