RESENHAS

Alguns fragmentos de resenhas de Dédalo Vandalbrain sobre livros, cinema, e outros fenômenos de mídia, e também sobre o mundo, 'vida, universo e tudo mais' (este é o título de um dos livros da extraordinária série ´O Mochileiro das Galáxias', de Douglas Adams)




SOBRE LIVROS DE FICÇÃO



Vladimir Nabokov

'ADA OU ARDOR: UMA CRÔNICA DE FAMÍLIA, de Vladimir Nabokov

Um imenso volume, quase bíblico, sobre o amor impossível entre irmão e irmã da Rússia rural e pré-revolucionária. Começa com os antepassados e passeia pela infância, juventude, maturidade e velhice dos dois amantes, dos cenários e de toda uma época histórica. A menina é superdotada, hiperativa e fanática por insetos (como o autor, também entomólogo) e o rapaz, um esportista, torna-se escritor e depois filósofo. A narrativa é inventiva e saborosa, repleta de referências, fatos e descrições vívidas que têm o poder de transportar o leitor para dentro da ficção. Com efeito, o que eu mais aprecio no livro é o seu vigor linguístico e de estilo. Pois ele começa alegre e criativo e vai tornando-se mais complexo e denso até um final quase impenetrável, com suas especulações obscuras sobre a 'tecitura do tempo. A poesia está presente o tempo todo, em todas as escalas.



Maternidade, by Dédalo Vandalbrain

'O CLUBE DOS ANJOS', de L. F. Veríssimo

Aqui, o filho do grande autor de Tibicuera, utilizando um dos personagens como alter-ego, tece uma teoria segundo a qual a civilização humana deve seu desenvolvimento às mulheres. No reino animal, os machos conquistam as fêmeas exibindo suas plumagens, chifres, habilidades canoras, amalabarísticas ou bélicas, etc. O macho humano também apela para o cérebro - a linguagem, as artes e a tecnologia. E a economia (belos carros, etc). O interessante da teoria: E depois da conquista? Incapazes de saciar as mulheres (que são capazes de orgasmos múltiplos, enquanto os homens, como qualquer bicho, fica fisiologicamente triste após o coito - curiosamente, esta informação é usada para que um andróide convença-se de que é quase humano, no livro 'A Torre', de Robert Silverberg), saem contruindo cidades, máquinas, instituições, e todas estas coisas redondamente inúteis, sem as quais se viveria muito melhor. No final, os homens vão para Marte (para que ir a Marte, afinal?), para fugir das mulheres.



Detalhe do quadro Renata contra Fundo Rosa-Garança, de Dédalo Vandalbrain

O RETRATO DE ROSE MADDER, de Stephen King

"- Não perca tempo com perguntas masculinas!
- O que são perguntas masculinas?
- Aquelas de que já sabemos as respostas".

Juntamente com 'Eclipse Total' (Dolores Clairbone) e com o fabuloso 'Jogo Perigoso' (Gerald´s Game), este é um dos três livros de Stephen King que tratam do universo feminino. Fazendo uma comparação com o mundo da pintura, as mulheres estão em primeiro plano e, talvez intencionalmente, os homens são apenas esboçados. Ou são deformados (como o maléfico Norman) ou estão em sfumatto (como o parvo Bill Steiner).
Como os demais livros deste autor, há em Rose Madder cinco características marcantes:
1) Uma forte unidade temática: Carrie (uma adolescente), O Iluminado (um hotel), A Dança da Morte (uma epidemia), Cujo (um cão), Cristine (um carro), etc. Em Rose Madder, o tema é um quadro. Ou, de certa forma, uma cor: Rose Madder (bela palavra que é um dos achados do livro; em português, significa Rosa-Garança ou, ainda, a Rosa-Enlouquecida).
2) Hiper-realismo. Em Desespero, por exemplo, o leitor é praticamente transportado para dentro da ação, desde a primeira página. A narrativa convence. Um carro nunca é só um carro... tem história, tem detalhes. Tudo que ele escreve em textura. Ler Stephen King é uma crueldade: os outros escritores logo vão parecer rarefeitos, artificiais.
3) A ambientação numa pequena cidade do interior (normalmente, no Maine), caracterizada em detalhes minunciosos e vívidos, bem como seus personagens (em suas páginas, há uma sensação de palpabilidade, quase como se estivéssemos dentro do livro). Neste sentido, Stephen King é hoje um dos grandes cronistas do estilo de vida americano.
4) Um enredo que pode ser descrito em poucas palavras: Rose McClendon é uma mulher doce e subserviente, que perdeu toda a família num acidente, não tem amigos e durante os 14 anos de seu casamento, fica presa em casa vendo TV e sofrendo os maus tratos do marido Norman, um policial truculento. Um dia, ela vê uma mancha de sangue no lençol (resultado mais 'uma conversinha' do marido), se cansa desta vida e sai de casa, apenas com as roupas do corpo, e começa uma nova vida em uma cidade grande e distante. Após um período num abrigo de mulheres maltratadas, numa única tarde ela conhece um admirador mais jovem, compra seu famoso quadro e recebe uma oferta irrecusável se emprego. A partir daí, Rose passa por um processo de renascimento, desenvolvendo habilidades e potencialides que desconhecia possuir.
5) O desenvolviemnto de uma situação limite. Neste caso, o marido-detetive sai no encalso de Rose, com o objetivo de ´fazê-la viver pouco, mas intensamente'. Sua agressividade inata vai se intensificando - como fica demonstrado nos métodos bárbaros (sanguinários) que usa ao questionar as testemunhas do paradeiro da esposa - progressivamente à medida que se aproxima do paradeiro de Rose, gerando uma alta voltagem de suspense e tensão.
Enquanto o marido Norman é um dos personagens mais abjetos de Stephen King, Rose é uma de suas personagens mais cativantes. Ela é meiga e decidida, frágil e forte, ao mesmo tempo. E o despertar de sua verdadeira força coincide com a aquisição do misterioso quadro que dá título ao livro. Talvez por excesso de imaginação, Rose começa a ver coisas novas no quadro, depois começa a achar que sua paisagem se expande e, por fim, suas figuras começam a consolidar uma espécie de subtexto mitológico pessoal, fundamental no processo de autodescoberta da personagem e sua relação com o mundo - a enlouquecida e terrível Rose Madder do quadro é uma espécie de duplo da inicialmente frágil Rose MacClendon.
Citando Stephen J. Spignesi, em The Essential Stephen King': 'Gostei especialmente da cena em que Rosie acorda em seu apartamento e sua pintura magicamente se expande para toda a parede e passa a ser um portal para o local visto no quadro. Muito bom. Quem precisa de um simulador holográfico quando um velho quadro trocado por um anel serve ao mesmo propósito?'
E Rose entra no quadro: Uma espécie de universo onírico, onde as referências de sua vida tornam-se símbolos mitológicos. Entra no devastado Templo do Touro, Erínias, e o que se segue é um dos mais altos cumes de beleza já atingidos pela Literatura.
Ter sido rotulado de escritor de terror é, ao mesmo tempo, uma vantagem e uma desvantagem para Stephen King. Por um lado, facilitou a formação de uma legião de admiradores que apreciam este gênero literário. Escrever sobre o horror é acender uma vela no lado escuro da mente humana, e S. K. faz isso melhor do que ninguém. Por outro lado, afasta injustamente uma legião ainda maior de leitores que poderiam ter acesso à grandiosidade inventiva e emocionante de suas obras. Como destacou o também escritor John D. MacDonald, na introdução de 'Night Shift' (Terrores Noturnos): 'O fato de ele (Stephen King) gostar atualmente de escrever sobre fantasmas, encantamentos e barulhos no porão é para mim o menos importante que se possa relacionar ao homem'. Pois a qualidade da escrita de S. K. é mais importante do que o seu tema. E, sintomaticamente, o autor está se afastando cada vez mais do sobrenatural dos primeiros livros (Carrie, Jerusalem´s Lot, etc); passou por uma fase de 'situações possíveis' (Cujo, Jogo perigoso, etc) e está adentrando cada vez mais no universo da mitologia (a série Dark Tower, ainda não traduzida no Brasil, e que talvez possa ser comparada à obra de Talkien) Mas a mitologia é apenas um irônico travestismo do texto, que no fundo é quase que puramente onírico, água pura do mais profundo poço.e também da profundidade psicológica. O autor está entrando cada vez mais no mundo do subconsciente. Poços profundos que podem ocultar tanto monstros terríveis como jardins mágico. Mas é mais que isso: Na verdade, S. K. está entrando cada vez mais no mundo onírico. E a boa arte sempre aproxima-se dos sonhos.
Ao invés de chafurdar num fácil maneirismo, como muitos artistas de sucesso ao chegarem na maturidade, S. K. está se reinventando. Outra característica de sua escritura atual é o progressivo interrelacionamento de seus livros (por exemplo, Rose lê livros da série Misery, do escritor Paul Sheldon, personagem de seu romance 'Angústia'), formando uma unidade cujo assunto central é o horror na Nova Inglaterra - ou uma espécie de mundo paralelo ou macrocosmo. S. K. é um dos escritores mais produtivos e criativos da atualidade. Scott Adams, em O Princípio Dilbert: "Criatividade é a coragem de errar. Arte é decidir que erros vamos manter. "
Iniciei esta resenha comparando Rose Madder com uma pintura; S. K. pode ser comparado com o Pablo Picasso da Literatura. Por falar em Picasso, o maior artista do século XX, é dele a melhor definição que conheço do que seja Arte: 'Não me perguntem o que é arte; se eu soubesse, eu não diria'. Mas isto é outra estória. Quando Rose mostra o estranho quadro às amigas da instituição 'Filhas e Irmãs', uma delas comenta: ´Lembrem-se de Jackson Pollock. As pinturas dele não tinham nada a ver com a Beleza, mas sim com a Energia'.
Esta é, por sua vez, a mais bela definição que conheço do que seja 'arte'. Definição que se aplica à obra de Stephen King, que talvez também seja mesmo lembrado no futuro como o Shakespeare do nosso tempo. Concluo como iniciei, mas agora com uma única frase de Rose Madder: "Por debaixo da beleza, há a loucura... mas não apenas a loucura".




SOBRE LIVROS DE NÃO-FICÇÃO



Dedalo Vandalbrain, por ele mesmo

OS SERTÕES, de Euclides da Cunha

Seguindo o conselho de Tom Zé (Entrevista no Gordo a Go-Go), pulei as duas primeiras partes (A Terra e O Homem), demasiado intelectuais, quase impenetráveis. E eis que, no entanto, de repente, o livro respira e dispara, como um corcel enfurecido. São fascinantes as páginas onde o autor começa a tecer a trajetória de Antônio Maciel, o Antônio Conselheiro. Lembra o enredo de O Caminhante: Um homem totalmente comum, comportado e introspectivo, é chifrado pela jovem mulher (curiosamente, Euclides da Cunha também passou pela experiência - a história da Literatura é a História dos Cornos); Antônio Conselheiro jamais falaria com uma mulher cara a cara, mesmo as velhotas ´capazes de desestimular os sátiros´, por considerá-las criaturas do demônio. Abandonou tudo e saiu vagando pelo Sertão. Ia rezando, meditando, e logo tinha seguidores; os povos sofridos, como os povos do deserto, são sempre muito religiosos e apegam-se ao sobrenatural - no caso, uma variante do famoso mito lusitano do Sebastianismo. Nesta esteira, o beato logo se tornava também um mito. Ao lado disto, dá gosto ver a língua ser usada com tanta intensidade. Num bom texto, encontrar boas frases é como encontrar jóias (ou pegadas) numa ilha deserta. Os Sertões é um balde de jóias raras; cada frase é única e tem uma intensidade assustadora. Euclides da Cunha escreve como um demônio.



SOBRE TELEVISÃO





SOUTH PARK

"Quem sabe daqui a alguns séculos nossa época não seja lembrada por obras como South Park? Num destes desenhos, uma família de fezes (o papai-cocô chama-se sr. Hankey) auxilia o grupo de meninos a reencontrar o espírito do Natal. Num momento de desânimo, o filhinho-cocô pergunta ao pai-cocô: 'Como poderemos trazer de volta o espírito do Natal? Somos apenas um monte de bosta!!!´ No final do episódio, quando os meninos exibem seu desenho num drive-in, uma senhora tipicamente obtusa solta esta pérola: "Como fomos tolos desperdiçando nosso tempo com bobagens como o amor ao próximo e a família! (...) É óbvio que o espírito do Natal é comprar e receber presentes, movimentando o comércio e aquecendo a economia!' . Mais explosivos que as ações do títere Bin Laden, manisfestações como estas são cada vez mais frequentes e, sobretudo, sintomáticas. É como um tumor que cresce dentro de um organismo super-inchado e acéfalo, no caso, o Império norte-americano".



SOBRE CINEMA





O FABULOSO DESTINO DE AMELIE POLAIN, de Jean-Pierre Jeunet

"- Os americanos procuraram Jean-Pierre Jeunet para transformar Amélie Poulain numa série de TV. - disse Viviana New, the Raven, ao irmão gêmeo Albert Qace II, o Pregador, pouco antes de começar o filme de Cabezzas Bollo. Eles se encontraram secretamente numa das salas do Cinemark, em Los Cubos. - Isto é bem sintomático da nossa época, que vive sob o signo da águia do Lunnun." (trecho de O Caminhante)

Assim é a boa obra: Cativar no início e depois apresentar o desenvolvimento exponecial de uma idéia. O Náufrago chega ao pico do desenvolvimento, mas ´naufraga´, voltando ao rés do chão. Em o Tigre e o Dragão, não enxergamos este desenvolvimento. O Planeta dos Macacos, de Tim Burton, apresenta-se raso do início ao fim. Em O Pianista, o desenvolvimento é cristalino. Em Amelie Polain, nem tanto:
Cativar: O filme começa com a solitária menina Amelie inventando brinquedos prosaicos e divertidos. Logo, ela está fotografando uma núvens em forma de coelho, de ursinho de pelúcia.
Desenvolver: 1) Amelie, uma garçonete tímida e comum. 2) Amelie descobre seu poder; como Zorro, ela castiga aqueles com quem antipatiza, mas também tem o dom de propiciar benefícios inesperados. 3) Amelie utiliza seu poder em proveito próprio, conquistando o rapaz das fotos.
Amelie Poulain é todo em tons de verde e vermelho; cada fotograma tem o impacto de uma prodigiosa pintura. Aliás, o filme parece desejar extrapolar o cinema, a própria arte. Pintira viva. Poesia saborosa. 'Chá. Earl grey? Jasmine? Bergamota at Nancy? Água com anis. Lebre com cogumelos...' 'Isto é difícil de digerir, como carne de cavalo', comenta a dona do café. 'Ontem quase descolei a pleura de tanto tossir', replica a vendedora de cigarros hipocondríaca, pouco antes de iniciar um tórrido e inusitado caso de amor. 'A vida é dura para os sonhadores', emenda um terceiro personagen.
Amelie Poulain mostra que a felicidade é construída a partir de pequenos prazeres; Ela adora lançar pedras num lago, sobre uma ponte que parece ter sido pintada pelo impressionista Monet. Ou enfiar a mão numa saca de cereais, a textura das sementes percorrendo sua pele hum frênesi quase sexual. Amelie Poulain mostra que a vida é bela.





MATRIX:O REI ESTÁ NU

O mais interessante da saga Matrix é quando os letreiros aparecem pela última vez e as pessoas começam a se levantar. Eu nunca tinha visto uma saída de sessão tão silenciosa. E o silêncio é mais constrangedor em se tratando de uma trilogia. Afinal, cada uma destas pessoas provavelmente investiu R$ 30,00 de seu rico dinheiro e passou pelo menos 7 horas dentro de uma sala de projeção, para chegar a este 'grande momento'. Que Grand Finale! Hurra!
Mas este silêncio é virtual (com o perdão de usar esta palavra já tão maltratada. Mas, usando pela última vez: Virtual é também a idéia de que Matrix Reloaded e Revolutions sejam bons filmes.)
O silêncio é virtual, porque é perfeitamente audível - pressentida - uma única frase na cabeça de cada pessoa que abandona a sala de projeção. E o conjunto destas frases ecoa como um enxame de abelhas: "Eu não entendi m... nenhuma!!!"
E não é mesmo para entender. Não que não exista uma lógica por detrás de tudo aquilo. Existe, mas está oculta por detrás de todos aqueles diálogos pseudofilosóficos e aparentemente sem sentido (muitas diálogos são descaradamente ´non sense´, como aquela parolagem sobre amor na estação de metrô Mobil Ave (Limbo) - provavelmente os fãs vão comprara o indiano com Vishnu ou outra divindade). Matrix é como um destes gigantescos quebra-cabeça de 4 mil peças, mas no final o resultado é provavelmente algo banal: ´Ah, entendi! Isto aconteceu por causa daquilo... mas por que não ficou mais claro?' Sim, porque? Afinal, ninguém vai no cinema para decifrar uma charada; isto é, definivamente, coisa de maluco.
Recentemente, assisti novamente a Matrix 1, numa destas repisadas reprises do SBT do Sílvio Santos. A conclusão: o filme continua tão bom como quando foi lançado. Há ali uma boa idéia, um enigma que é elucidado elegantemente. A evolução física e mental de um nerd covarde que se transforma em herói e, num lance genial, em líder messiânico. Há um final em aberto em que ele sai voando, e a guerra contra as máquinas acontece em nossa imaginação. E, na nossa imaginação, a guerra contra as máquinas é muito mais interessante do que a guerra que é 'pornograficamente' mostrada nos dois filmes seguintes. A verdade é que Matrix 1 é um filme completo, fechado, eficiente. É arte genuína, até onde o cinema pode ser. Mas, justamente por isso, faturou milhões pelo mundo afora e a lógica hollywoodiana clamou pelas sequências (os produtores de filmes nada mais são do que comerciantes, assim como seu merceeiro da esquina).
Parece que a idéia de ser uma trilogia existia desde o começo, mas não vem ao caso. Porque as duas sequências, apesar de todo apelo bombástico, nada acrescentam e, no fim, tem um sabor de caça-níqueis. Como não há mais idéias a explorar (o ciclo fechou-se em Matrix 1), apelou-se até o extremo de efeitos especiais (em Matrix 2, há a desnecessária luta de Neo contra os cem agentes Smith ('burly brawl'); em Matrix 3, uma única sequência sozinha, a Guerra em Zion, consumiu 30 milhões de dólares = 6 mil VW Gol; o pior é que, no contexto, esta luta parece igualmente inútil no desenrrolar da trama). Já se disse de Reloaded que elevou ao quadrado os efeitos especiais inovadores do primeiro filme. Revolutions eleva ao cubo. Mas, como em Reloaded, é só isso. Aliás, durante aquele estonteante metralhar de CGI, eu me lembrei do último e esquecível epidódio de James Bond, 'Um Novo Dia Para Morrer' - ou do tolo 'As Duas Torres'. Ou melhor, lembrei do cansaço visual diante de tão gritante pirotecnia e da sensação de inteligência insultada, ultrajada.
Há alguns momentos razoáveis, no entanto. Por exemplo, a cegueira/clarividência do protagonista. Os cinéfilos poderão lembra de um antecessor imediato, o lamentável O Demolidor, com Ben Affleck e Jennifer Garner. Mas a referência é mais profunda: Paul Atreides, o messias da memorável série literária Duna, de Frank Herbert. De resto, há, claro, o embate final entre Neo e o agente Smith... tirando a curiosa releitura de Touro Indomável, o que resta é outra exacerbada ostentação de tecnologia digital. A luta da voluptuosa negra Zee e sua amiga emasculada contra as máquinas, munidas apenas de uma fálica bazuca, é um dos poucos momentos de tensão, de energia genuína do filme (e, de certa forma, um do poucos momentos de tensão sexual, no caso, sutilmente homoerótica).
Outros personagens marcantes são Bane, numa atuação convincente (está possuído) e o Trainman. Este último controla o envio de programas para a 'lixeira' da Matrix; depois do filme, você verá de maneira diferente estes mendigos que parecem viver dentro de vagões de trem e metrô - pois uma grande sacada foi representar o personagem desta forma. Há também Sati, a garotinha hindu que, embora um tanto perdida na estória e na interpretação, dá um toque de poesia no filme. Mas o grande personagem de Revolutions é mesmo o agente Smith - tratado como a própria essência recrudescente do Mal.
No entanto, nada disto basta quando a estrutura não é sólida. Fica a nítida sensação de que falta tudo neste filme. Para não fazer uma lista exaustiva, eu diria que falta o essencial: Emoção. Mesmo o desenlace do romance de Trinity e Neo, que move toda a trama, nunca convence. Por quê? Porque nunca se mostra o lado humano destes personagens. Neo (Keanu Reeves) é aquela inexpressividade de sempre, afinal, é 'o messias' (já foi dito que poderia entrar para o Livro Guiness dos Recordes, por atuar em toda uma trilogia usando apenas uma expressão facial). Trinity (Carrie-Anee Moss) comporta-se como uma Joana Darc tecnológica, ok, mas parece fria como um salmão - ou um inexpressivo trem bala que nunca se desvia de sua trajetória. A questão da predestinação contaminou tudo, num sentido negativo. Pior é a situação do pobre Morfeus (Lawrence Fishburne), o personagens mais interessantes do primeiro filme e talvez da trilogia; neste último, é apenas um papalvo boquirroto, correndo atrás da ação, 'mais perdido que cego num tiroteio', e sem nunca resolver coisa alguma. Outra personagem desvirtuada é o oráculo; uma das grandes sacadas do primerio filme era aquela simpática negra quituteira, paradigma da negra sulista cercada de referências temporais que lembram os anos 50; em Revolutions, devido à morte da atriz Gloria Foster, foi substituída por outra atriz, muito esforçada, mas sem o bom humor, os lampejos irônicos da predecessora. Triste também é ver a bela Monica Bellucci, a quintessência da matrona italiana, ser desperdiçada numa cena pífia. Mas pífio não foi também todo o resto? O Alto Conselho de Zion, por exemplo. É formado por figurinhas decadentes, rastafari, como estes pós-hippies-quase-vagabudos que ficam pelas ruas, vendendo piteiras de maconha feitas de durepóxi. Fala sério! Os irmãos Wachowski estão tirando com a nossa cara!, como diria o pessoal de Casseta e Planeta.
Paradoxalmente, no universo Matrix, o maior problema, desde os diretores, até os figurantes, é que todo mundo leva-se demasiado a sério. Sobretudo os personagens. Os generais de Zion são impressionantemente antipáticos, de fazer inveja nos nossos antigos generais- presidentes. O personagem Mifune é o exagero disto: Ele não pisca e fica tão rígido que dá pena de seu pobre pescoço sempre empinado, como se fosse um furioso galo de briga (a propósito, ele 'veste' uma espécie de robot armado com metralhadoras gigantes, idéia já vista em Aliens 2, de James Cameron). Mesmo nas situações mais deseperadoras, o ser humano é capaz de ironizar, de brincar com a própria desgraça. De certa forma, são coisas simples assim que nos fazem humanos, mas infelizmente estão rigorosamente ausentes - amputadas - nos dois últimos filmes da série.
No fim, a saga termina mesmo com uma grande ironia: No combate entre homens e máquinas, pelo menos nas salas de projeção, as máquinas foram vencedoras. Porque fomos presenteados não com idéias inteligentes ou emoções genuínas, mas sim com um abusado festival de ostentação tecnológica.
Melhor assitir 'Os Normais'. Pelo menos a diversão fica garantida.





THE PROFESSIONAL, de Luc Benson

O Profissional, do diretor francês Luc Benson (Nikita, O Quinto Elemento). Um velho (velho?) filme de 1994. Aliás, a fita estava numa pilha de filmes antigos, do tipo ´o que eu faço com este monte de lixo?´. Conta a história de um assassino profissinal (Jean Reno, de Ronin, outra obra-prima) terrivelmente eficiente - imbatível - mas também um babaca insosso cuja vida pessoal resume-se a ficar tomando leite puro e cuidando de uma planta que ele carrega de hotel em hotel. Num destes hotéis, a família vizinha é chacinada por oficiais de justiça de Nova Iorque (!) por causa de drogas; a única sobrevivente refugia-se na casa do protagonista. É uma garota de uns 9 anos, cheia de vida e sonhos, mas terrivelmente carente e complicada, interpretada pela atriz Natalie Portman (a princesa Amidala de Star Wars, 10 anos antes). A partir daí, o filme desenvolve a improvável amizade entre dois seres tão diferentes (ou não?) e o amadurecimento de ambos (uma filha sem pai, um pai sem filha), em meio a um conflito sangrento, mas com muitos momentos de poesia inusitada. Destaque para o vilão, Gary Oldman, o futuro Drácula de Copolla.





O ATAQUE DOS CLONES, de George Lucas

Embora eu tenha tido um interesse ocasional pela mitologia de Star Wars, não assisti o filme O Ataque dos Clones. É justo, então, tecer uma crítica? Creio que este é um dos poucos casos em que sim, como veremos.
O melhor da série Star Wars ainda são os dois primeiros filmes, da década de 80, 'A New Hope' e 'The Empire Strikes Back'. Especialmente o primeiro, inspirado num filme de Akira Kurosawa, 'The Hidden Fortress', em que samurais resgatam uma princesa num castelo. Sintomaticamente, o seu trailer teve que ser retirado dos cinemas, pois causava ataques de rios nos expectadores: C3PO parece gay e R2D2, uma lata de lixo. Aquilo não podia ser sério. Mas eram filmes tão imaginativos quanto toscos. Elementos hoje idolatrados pelos fãs (e desenvolvidos em absurdas ´graphic novels´) foram tirados da cachola de Lucas e sua equipe, sem o menor critério - e ironicamente este é um dos maiores méritos do filme. Por exemplo, um hambúrger inspirou a Milênium Falcon; a nave do headhunter Boba Fett, por sua vez, parece um ferro de passar roupas - provavelmente é o que foi usado. Os monstrinhos da cena do bar em Mos Eislem são ridículos... há até um drácula grotesco inspirado em Bela Lugosi. E os robôs são pessoas dentro de caixas de papelão, com as penas de fora. O terceiro filme, O Retorno do Jedi, é muito curioso: É 'Star Wars Trash'. Começa bem, com uma cena que explora a sensualidade da atriz Carrie Fisher (sintomaticamente, o resto de sua carreira, como de resto a do jedi e futuro dublador de desenhos infantis, ´Skywaker´ Mark Hamill, foi um fracasso total, e, anos depois, ela escreveria um livro - Postais do Abismo - sobre a podridão de Hollywood); mas o resto do filme (90%) foi destruído pela inserção dos patéticos ´Ewoks´; fãs do mundo todo (leia-se, Nerds) sentiram-se papalvos infantilóides. Cruel. (A palavra Jedi vem do termo japonês 'Jidai Geki' e as referências à cultura deste país são uma das qualidades dos último filmes da nova saga).
Aliás, na época da estréia do primeiro filme da nova série, The Phantom Menace (argh!!!), comentou-se que muitos fâs choraram ao ouvir os famosos acordes iniciais - e o fizeram, na verdade, porque, depois de 20 anos, ainda não tinham perdido a virgindade. O filme (argh!!!) dispensa comentários: A ilusão de que efeitos especiais de última geração substituem uma boa história... tsk, tsk! Resume-se a um início banal, uma trama idiota sobre a cobrança taxas alfandegárias, além de uma espécie de Pateta (o amigo do Mickey) galático com sotaque jamaicano (Cruel, again). Há também um ferreiro munheca com sotaque árabe... enfim, arquétipos infantis acabam soando como conotações racistas. Nem Trash este filme é - pois até humor genuíno falta-lhe, indesculpavelmente. Convenhamos: É um lixo! Um monte de m..., como o gangster Jabba, the Hutt; um monte de m..., mas bem embalado, o que é pior (vamos comer hamburguers no MacDonnalds!, 'Amo muito tudo isso!'). E só não é uma m... absoluta por causa da luminosa presença da atriz israelense Natalie Portman (a menininha de ´O Profissional´), que interpreta a Rainha Amidala, de 14 anos. Sua beleza teen, arrojada e parcimoniosa, ressaltada pelas vestes de inspiração oriental. Se ela fosse um carro, seria um Lamborghinni Murcielago. Mas, voltemos a estes filmecos!
A novela 'O Clone' deve ser mais interessante. Pelo trailer, nota-se que o Ataque dos Clones nada mais é que uma continuação nos mesmos moldes, um destes ´filmes-chiclete´ ´perfeitamente cretinos´ (uma das notícias da internet cogitava utilizar a ´Band Boy´ de adolescentes N´Sync para integrar o elenco, a pedido da filha adotiva de George Lucas). Um brockbuster caça-níqueis, mais uma piada de mal gosto do imperialismo americano, como a invasão do Iraque (9 em 10 americanos nem sabem onde fica o Iraque ou que o Iraque é um país e não um tipo de bomba ou perfume francês; a maioria deles confunde Brasil com Bolívia; o americano médio é mais burro que uma porta). A essência aproveitável da série Star Wars ainda é a utilização dos estudos sobre arquétipos heróicos do mitólogo americano Joseph Campbell - O resto é histrionismo dos fãs, oportunismo comercial da Lucas Filmes - e personagens ´engraçadinhos´ (para alimentar a voraz indústria de bonecos e joguinhos idiotas para computador). Está se formando uma geração de capacitadíssimos operadores de joystick. É a maldição dos Ewoks.





CHUCK NORRIS E A ILÍADA DE HOMERO

Como a série Duro de Matar, ´Texas Ranger´é um destes filmes americanos perfeitamente cretinos, mas tecnicamente competentes (ou seja, prendem a atenção de alguma forma). Chuck Norris é ´Walker´, um patrulheiro imbatível e estressadão, atormentado por visões da Guerra da Coréia. De tanto pisar no calo dos colegas de trabalho, arrumam-lhe férias compulsórias. E lá vai ele, para a Louisianna, acompanhado de dois companheiros mais chegados: C. D. Parker, um velhote pragmático que se revelará um peso morto, e Trivette, um neguinho pivetoso, macetoso e abusado, que se revelará um pé no saco. Para variar, Walker descobre e derrota sozinho uma quadrilha de traficantes. No final, a mocinha, de lábios atrevidos e linda de doer, pede a ele, com olhos suplicantes, que passe o resto das férias com ela, em sua cabana no pântano. Walker faz cara de macho, sorri com metade da boca, diz que voltará, vagamente, e parte glorioso em sua caminhoneta. Passa o resto das férias com um patrulheiro madurão, no meio do mato (esta parte não é mostrada claramente, apenas sugerida). Conclusão: Enquanto Steven Seagal é um pedófilo enrustido, os filmes de Chuck Norris fazem uma apologia da homossexualidade, como virtude do guerreiro viril (algo ainda ocorre, de forma sutil, no culto brasileiro ao craques de futebol). Curiosamente, isto remonta à Grécia Antiga: Na Ilíada, o temível Aquiles roda a baiana após a morte de Pátroco, seu companheiro de cama.





O TROCO, de Brian Helgeland

Numa Sessão Coruja, 'O Troco' (PayBack), uma versão policial e noir do tema do Eterno Retorno (assim como O Caminhante) - que é o tema da Odisséia, de Orpheu e Eurídice, Perséfone e Demeter, etc. E também da teoria do traidor útil (A Arte da Guerra), que, no livro 4, leva Albert Qace ao desterro. O protagonista (Mel Gibson) é 'Porter', um ladrão traído que retorna para vingar-se e mata meio mundo por causa de 70 mil dólares. É bom de briga e extremamente esperto, enganando inclusive um negão safo do FBI; como todos achavam que estava morto, é inevitável pensar nele como uma espécie de Renascido (Neo) como superpoderes. No entanto, no final, embora recupere seu dinheiro, tem os dedos dos pés esmagados com um malho ´Já está parecendo um rosbife´. Ou seja, voltou a ser pateticamente humano, fechando o ciclo (mas ele sai desta Odisséia no lucro, como O Caminhante, ele reencontra a amada). Todo em tons cinzentos, o filme é seco como um martini: Eu não mudaria um fotograma. Em certo ponto, uma atraente putinha oriental (Lucy Liu) diz ao protagonista: ´Ainda tenho alguns minutos´, e ele responde: ´Então, vá lavar roupas'. Termina com a frase: ´Fomos tomar café da manhã no Canadá; prometemos que, se ela deixasse a prostituição, eu deixaria de matar pessoas. Vai ser difícil´. Perfeito.



Poster das Olimpíadas de 1924

CARRUAGENS DE FOGO, de Hugh Hudson

Um filme de beleza clássica, energia e sutileza ao mesmo tempo. Os universos de dois corredores, dois jovens universitários, um judeu e um pastor anglicano, que disputam as Olimpíadas de 1924, em Paris. Até os diálogos são antológicos: - "Os senhores são os deuses arcaicos do jardim da infância. Só enganam a vocês mesmos e às crianças que ainda acreditam em vocês". - diz o judeu Abraham, aos respeitáveis deões de Cambridge, quando questionado quando à sua abordagem não amadorística do esporte. - "Ele é um atleta genuíno. Sua velocidade é apenas uma extenção da qualidade da sua alma" - diz um amigo, sobre Erci Lidell, o corredor-pastor, também conhecido como Escocês Voador. Os atores não são muito conhecidos no circuito hollywoodiano. O ator Iam Holm (o andróide de Alien) faz o papel de Sam Mussabini, o treinador, meio italiano, meio árabe. 'Vou prepará-lo pedaço por pedaço!', diz ele ao seu pupilo. Também é impossível não ficar cativado com a música de Vangelis, a alma do filme, cujos acordes sempre aparecem nos momentos de maior tensão dramática e beleza.



ESTE PLANETA E O UNIVERSO EM GERAL




Preguiça

BRAZIL

"Ele começava a se encher desta estúpida mania das coisas de HyBrazil! Um país de merda, habitado por imbecis fanáticos por futebol e corridas de automóvel. Um lugar onde a violência, a corrupção e a miséria estavam no auge. Favelas. Cafetões. Traficantes de drogas milionários. Pequenos assassinos de oito anos, sonhando ser chefes de bando. Putinhas morrendo de Aids aos 13 anos. No meio dessa vida desenfreada e urgente, que saudades da melancolia do homem ocidental e europeu, esmagado por uma tradição cultural milenar". (d'aprés Michel Houellebecq, 'As Partículas Elementares', citado e adaptado na epígrafe do capítulo 2 de 'O Caminhante').



Outro detalhe do quadro Carolina no Bosque Azulado

EXOBIOLOGIA ou 'ONDE ESTÁ AFINAL A VIDA INTELIGENTE?'

A vida em outros planetas não está comprovada cientificamente, exceto por possíveis fósseis de bactérias de 3,6 bilhões de anos (com evidência isotópica característica de organismos produtores de metano), encontrados no meteorito ALH84001, de Marte, encontrado na Antártida, na região de Allan Hills, no ano de 1984. Mas, tendo em vista a imensidão do universo, a exobiologia é matematicamente possível probabilisticamente.
Há cerca de 200 bilhões de estrelas só na Via Láctea. Estudos do 'Journal of the British Interplanetary Society', indicam a existência de 5.6 bilhões de planetas biocompatíveis, somente em nossa galáxia, dos quais aproximadamente 500 milhões são habitáveis Planetas habitáveis podem ocorrer ao redor de 3% das estrelas entre 0.85 e 1.45 vezes a massa do Sol. Planetas biocompatíveis podem ocorrer ao redor de 30% das estrelas entre 0.8 e 1.25 vezes a massa do Sol. Um planeta é biocompatível quando a presença de uma superfície de água fornece condições favoráveis ao meio ambiente, para a origem e evolução da vida. Existem três subgrupos de planetas biocompatíveis:
Marciano jovem: Como o nome indica, é um planeta com condições similares àquelas encontradas em Marte no início de sua vida. O planeta receberia entre 27% e 75% da luz que atualmente recebemos do Sol e possuiria placas tectônicas ou outros ciclos geoquímicos de carbono. Marte era desse tipo em seu primeiro bilhão de anos.
Terreno jovem. Novamente como indica o nome, este é um planeta com condições similares àquelas encontradas no início da Terra. O planeta receberia entre 75% e 95% da luz solar que atualmente recebemos e é geologicamente ativo. A Terra era desse tipo em seus primeiros 4 bilhões de anos.
Habitável. Este é um planeta com condições de vida similares às da Terra. O planeta receberia de 95% a 110% da luz que recebemos e seria geologicamente ativo.
Ainda segundo o British Interplanetary Society, se somente estrelas únicas possuem planetas, haveria um planeta habitável a cada 413 estrelas. A distância média entre sistemas com planetas habitáveis seria de 31 anos-luz. Haveria planetas biocompatíveis a cada 39 estrelas. A distância média entre sistemas com planetas biocompatíveis seria de 14 anos-luz. Haveria aproximadamente 362 planetas biocompatíveis (dos quais 34 seriam habitáveis), dentro de 100 anos-luz de nós.
Se planetas podem se formar em sistemas de estrelas múltiplas, haveria um planeta habitável a cada 196 estrelas. A distância média entre sistemas com planetas habitáveis seria de 24 anos-luz; haveria um planeta biocompatível a cada 18 estrelas. A distância média entre sistemas com planetas biocompatíveis seria 11 anos-luz. Haveria 763 planetas biocompatíveis (dos quais 71 seriam habitáveis) dentro de 100 anos-luz de nós.
Ou seja, é possível que haja vida em outros planetas, mas é improvável que venhamos a estabelecer contato, tendo em vista as imensas distâncias entre estas estrelas. A distância entre o Sol e a estrela mais próxima, Alfa do Centauro, é de cerca de 4.36 anos-luz. Como um ano-luz é igual a 9 500 000 000 000 quilômetros, temos 41420 000 000 000 Km até Alfa do Centauro. Um dos veículos mais rápidos já criados pela tecnologia humana é o ônibus espacial, cuja velocidade máxima é Mach 18 (18 vezes a velocidade do som), ou seja, 19.300 Km/h. Assim, levaria 2 146113900 horas, ou 894214 dias, ou seja 2.450 anos (dois séculos e meio), para alcançar o sistema solar mais próximo do nosso.
Pode-se argumentar a possibilidade de construção de naves mais rápidas; mas isto pouco amenizaria estas distâncias astronômicas, além de depender de uma tecnologia que só estará disponível a longo prazo. Além disso, planetas que favoreçam a vida podem estar ainda mais distantes que Alfa do Centauro. Conhecem-se atualmente cerca de quatrocentos aglomerados abertos, com diâmetros que variam de 1,5 a 20 parsecs (um parsec representa 0,326 vezes a distância percorrida por uma partícula que se movimenta com a velocidade da luz, em um ano).
Por este motivo, no seu livro de ficção 'Contato', o astrônomo Carl Sagan explora a possibilidade de contato com outras formas de inteligência intergalática através de ondas de rádio, sem contato físico com estas culturas. Para calcular a probabilidade de civilizações na nossa galáxia, que possuem tecnologia suficiente para enviar um sinal para fora de seu sistema, existe a célebre equação de Drake (N = R* fp ne fl fi fc fL), onde:
N = Número de civilizações na Via Láctea cujas emissões de rádio seriam detectáveis.
R = Taxa de formação de estrelas com uma "zona habitável" grande o suficiente e com tempo de vida o suficiente para o desenvolvimento de vida inteligente.
fp = Fração dessas estrelas com planetas
ne = Número de planetas com condições de desenvolvimento de vida como conhecemos.
fl = Fração de planetas onde se originou a vida.
fi = Fração de planetas com vida onde se desenvolveu inteligência
fc = Fração de planetas onde a tecnologia se desenvolveu.
fL = O tempo em que tais civilizações estariam enviando sinais no espaço.










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