CONTOS

Alguns exemplares de contos de Dédalo Vandalbrain




CONTOS DE UM ESTRANHO EXÍLIO




O DIÁRIO DE KEILA YOUNGBLOOD (Versão 6)

Eu sou a Keila. Tenho 20 anos e gosto de Rock'n'Roll. Há cerca de dois anos, fui atacada por um nosferatu-rei. Isto causou algumas mudanças na minha 'vida'. Eu gostaria, ou melhor, eu preciso falar um pouco sobre isto, sobre mim, o lugarzinho onde vivo, as coisas que eu gosto. E, no final, prometo que darei algumas dicas sobre diversão - noturna, é claro.
A necessidade de exteriorizar minhas idéias não é nova. Recentemente, tive que reunir minhas coisas para uma fuga apressada, cujos motivos não cabem aqui. É impressionante a quantidade de lixo que vamos acumulando pela vida!: fauteuils, uma luminárias de Nebrask, um par de galochas femininas com as orlas recortadas, um aparador de sândalo-vermelho das Antilhas... Entre tantos cacarecos, encontrei o velho diário que eu mantinha nos meus primeiros anos de mutação e mutilação. É um 'Diário da Tribo', com uma capa de cortiça toda detonada e cada dia do calendário traz uma destas frases que tanto cativam os jovens. A minha preferida é do Leminski: "Viver de noite me fez senhor do fogo. A vocês eu deixo o sono. O sonho, não. Esse eu mesmo carrego"(...)
(O texto integral da versão 5 encontra-se no site: geocities.yahoo.com.br/a_nao_morta)




A BERRA DE KÁTIA

"A criatura mais bela da natureza, em idade e sexo!". Sábado à noite, a balconista suburbaninha Kátia Silene Sepol, a 'Florzinha', finalmente tomou um bom banho. Depilou as axilas e tosou o Monte de Vênus, deixando apenas um tufo compacto de cerdas, no alto; fez as unhas, sentou no bidê e até pôs uma calcinha limpa. Pegou o trem na Estação Rosevelt do Brás, queimando arroz e requebrando as bijuterias, toda rosada, cheirosa, gostosinha. Baixinha, bojudinha, bundudinha, barrigudinha, papudinha. Um sulco transverso, mas profundo e extenso, formado pelo acúmulo adiposo no pescoço, que os clássicos chamam de Colar de Vênus. Seus peitinhos virginais, Colunas de Leda, altos e cônicos, sobre vigorosos músculos. A profunda abertura do sulco interglúteo alongada entre a suave redondez; o aplanamento lateral acima das cadeiras e sobretudo as pequenas fossas do sacro, muito bem separadas entre si, o signo anatômico de uma pélvis basilical, praxitélica. Uma invejável Vênus Calípige moderna. Vulgar, sorridente, alegremente pintada, cheia de graça jônica, fácil (...)




A AVENTURA SEMÂNTICA DA AFOITA JOVEM MARIÂNGELA TAURUS

Voltando de suas férias no interior, Mariângela Taurus cortou caminho pelos bairro dos imigrantes e velhos expatriados. Moça esperta, Mariângela já sabia que sua passagem causaria reboliço. Não imaginava, no entanto, que, entre os alemães, os galanteios seriam tão eloquentes, embora obscuros. Ela já estava acostumada à paquera, mas não em um idioma germânico. De todos elogios, o que ela mais gostou foi o encantador 'Backfishölgerush' (garota adolescente e cheirosa), pronunciada em sugestiva proximidade com 'Tamarinden', vocábulo mágico na Idade Média. Backfish é um termo poético para adolescentes. Em português, o termo mais próximo seria 'menina-moça'. Estes europeus de retinas cansadas eram quase sempre pedófilos. Mais tarde, anotou em sua agenda uma súmula das lisonjas que pôde compreender, procurando traduzi-las: Primavera (lenz, no sentido poético), plena virgindade (Jüngfernschaft), éter (Äther, a palavra preferida de Hrölderlin), girassol (SonnenBlume, Girazon), passo requebrado (Trappeln), muito alegre (Quietschvergnügt), floreios (floskel), estado de sonho (Träumzustand)(...)




DAPHNIS+CLOÉ

Antes do amor propriamente dito, eles conheceram praticamente todas as variações agradáveis do relacionamento humano. Para começo de conversa, eram parentes, talvez muito próximos. Aprenderam a engatinhar juntos. Na escola, foram colegas de carteira, 'colavam' um do outro (ele era bom no idioma continental; ela, nas ciências matemáticas), e voltavam juntos para casa, pela Avenida 'des Flamboyants'. Ele queria ser espião; ela, bailarina. Foram colegas, em um estágio numa agência de turismo em Flüshing. Viajaram juntos por toda praias de Interzone, e acamparam no alto do Monte Kataros. E, claro, ouviam muitas músicas, principalmente rock nacional, e assistiam muitos filmes, peças de teatro, etc. No famoso, tépido, ano de 2020, ela foi a protagonista do primeiro curta-metragem dele, uma estória confusa, obviamente (alguma coisa a ver com a arquitetura moderna e as abelhas). Páris Alecssander Alfa e Silvana Selena Pássaro nunca esquentaram a cabeça com muita coisa, muito menos com a sutil questão do parentesco. Ou com a natureza do sentimento que os unia e regulava uma cadeia de coincidências em suas vidas(...)




PENTAGRAMA

Após uma mirabolante primavera, era um verão sufocante, exuberante de cor e calor. Os campos estavam alcatifados de delicadas florações, e aves que cantavam saborosamente. As rosas desabrochavam, dois rouxinóis cantavam o solilóquio nas folhagens; um cuco, uma canção entre as limeiras. Mulheres esvoaçavam por toda parte, disponíveis como frutas maduras nos galhos das árvores. Uma bela entrava numa bacia para banhar-se em companhia de seus namorados. Uma moreninha levava uma framboesa gigante para passear numa baixela. Uma outra provocava os tamanduás, entretidos em seu eterno jogo de pôquer, suas discuções sobre urbanismo, semiótica ou ciências sociais. Parecia um quadro de Bosch. - Continue, por favor - comentou o Doutor Hirch, sem deixar de observar sua paciente no divã. Ou melhor, os pezinhos de sua paciente, Anita Rotschild, uma ninfeta judia de dezessete anos. Como muitas burguesinhas de sua geração, não usava meias ou sapatos; é meio pós-hippie, meio junckie-chique, metida a intelectual. - No centro deste turbilhão de vida, eu estava estava apavorada. Afinal, eu sabia que ele estava atrás de mim. Sempre estava, desde setembro, quando os pesadelos começaram.(...)




O FATOR HUMANO

Seis meses antes, em uma manhã como tantas outras, o senhor Pyotr Bibikoff pegou a balsa e cumprimentou seus amigos. Mas evitou-os e passou toda a viagem apreensivo. Trabalhava como analista de sistemas da CyberTlön, a mais poderosa compania de software da região central do país. Era integrante da seleta equipe do Projeto Nemrod, o super-secreto programa de inteligência artificial. O motivo de seus temores era a audiência marcada no último andar do Edifício Ritwelt, com o mitológico diretor-presidente, o senhor Thoren Teknomusca. Este era um homenzinho engripado, mais um bibliotecário do que um tecnocrata. Na verdade, talvez fosse apenas um ator desconhecido. Havia rumores na Firma de que o verdadeiro Thoren Teknomusca fora um sábio hindu e tinha quase 500 anos de idade. Dele, só sobrevivera o cérebro, ligado a um computador especial, que instruia a diretoria. Entretanto, o terno e os sapatos eram feitos sob medida e, por detrás dos óculos de armação de titânio, os olhos eram secos e frios como gelo. E projetava uma sombra dupla na parede (...)




A ILHA DAS SEREIAS

A Terra é um planeta comum, o capim do universo. Um planeta distante, repleto de isolamento, ou de transtorno coletivo. Nós, exploradores, partimos prontos para qualquer coisa: para vislumbrar maravilhas, mas também para o sofrimento, o cansaço, a morte... e a solidão. Após o naufrágio, minha solidão era imensurável. Esqueci-me das estrelas que brilhavam no mundo civilizado, frias, pálidos fantasmas das estrelas furiosas daquela ilha. Até a escuridão era selvagem. A noite me trespassava, a noite tomava conta de mim, envolvendo-me e penetrando-me, impalpável, irreal, anunciando algo que eu não compreendia. Algo que estava acumulando sobre mim, cada vez mais intenso, infinitamente intenso. Ela apareceu de repente. Como a Afrodite dos gregos, nasceu da espuma do mar, um fruto do mar. Eu a reconheci imediatamente, pois ela não envelhecera, como se três décadas não tivessem passado. Ela me chamou suavemente. Era a sua voz, aquela voz familiar, de tom baixo, levemente sedutora, e aquele ar de quem não se preocupa muito com o que está dizendo, de quem está preocupado com outra coisa qualquer (...)




ONIROGMO

Primeiridade: Epifania. Hebefrenia. Adriana Vallée surge com nitidez de sonho. Em estado de imagem, de estátua. Começa a babar. De alienada e catatônica, torna-se gestual e verborrágica. Durante um passeio no luco, Adriana torna-se Persephone, nome obscuro, em cujas letras, segundo Roberto Calasso, ressoavam o assassínio (phonos) e o saque (persis), sobrepostos a uma beleza sem nome a não ser de donzela: Coré, filha de Zeus e sobrinha de Hades. Perséfada torna-se Ofélia, na ótica de Álvares de Azevedo, coroada de flores e cantando insana as baladas obcenas do povo, ou seu cadáver de pobre louca apertada nos braços de Laertes. Ophelia torna-se Lucia, filha de Joyce ("esta menina é meio estranha"). Lucia torna-se Jenny (os olhos negros e atesta alta do pai, Karl Marx), na ótica de Edmund Wilson, em "êxtase profetico oracular", como dizia, 'liebknecht', improvisando uma ária sobre a vida futura nas estrelas, balbuciado em um idioma críptico: - ON SAGAREN WEREM VERBALALA WOD GEV UT TRI PHANTANA ! "Seus tornozelos frágeis eram as jóias meticulosas (...)




FILADELFAS

Lavandalavígnia: Amiga, abre os olhos, boceja, estende os braços e limpa das pestanas carregadas o pegajoso humor, que o sono ajunta. Tua amiga continua na merda, e deseja-lhe o mesmo. Estou pintando Nefelococcigea, cidade dos pássaros, nossa cidade, vista de nosso ninho, do alto de nossa torre. terminei o livro de poemas de Trakl, que você me emprestou. Georg Trakl, leio aqui na orelha do livro, foi considerado por Heidegger "o poeta do ocidente oculto". Em 1904, escreveu seus primeiros ensaios poéticos; no ano seguinte, abandonou a escola para estagiar numa farmácia. Desculpe, a caneta borrou aqui. Nas prateleiras de remédios, descobriu o clorofórmio - e passou a usá-lo: "Silente mora, em tua boca a lua outonal, bêbada da música misteriosa da papoula". Experimentaremos. Atualmente,o senhor Butterfly (tenho nojo de borboletas, mas amo as literárias baratas) está me fornecendo Extrato de Cânhamo, a réplica viril do Ópio e chave do mundo das imagens. Misturo com Olíbano, o incenso de Ovídio, ou com Argêmone, o Cardo Santo (É a baga da "Jecul Ihuaname", dos índios lotófagos do Peru (...)




GINECEU

O dia era de fato lindo, fazia muita manhã, inadvertida cascata, e a súbita flor sete-pétalas: Alegria. Em estado de graça, encantando-se, a Flor do rosto de Nélida abriu-se num sorriso onisciente e bondoso e todo corpo dela iluminou-se neste sorriso. Para com si mesma, feliz. Para com Dédalo, como para consigo mesma: no espelho. Ela é Narciso, ele é Platão. Entre os dois, gloriosa, uma imagem que é a dela, a imagem dela: um artefato precioso, recém criado. Dédalo envolveu-a com olhar de devoção, como se admirasse uma tela de Raphael. A vênus de Urbino, de Ticiano. A Madalena de Correggio. A Olympia de Manet. Sobre o lençol de cetim branco, o corpo dela como uma pétala de rosa aderente, de aroma e timbre estivais. Ao passear por seu corpo, o olhar do observador não pode deixar de admirar-lhe os seios maduros e o ventre, mas é irresistivelmente atraído pela frágil mão que, com aparente modéstia, pousa entre as coxas. A alcova, a naturalidade de um aquário. Raspando com a ponta das unhas o níveo vidro, nele Nélida gravou, com a ajuda de um anel de brilhante, suas iniciais entrelaçadas às do amante (...)




KITSCH, THE STORY

Olá! Posso acompanhá-lo na bebida, meu amigo? Com licença. Agradável, sem dúvida, este café. Como? Ah, sim... compreendo. Garçon, mais uma! Pois venho frequentemente, acredite, para satisfazer a nostalgia de uma velha amizade. Acaso deseja conhecer a história? Não? Contarei assim mesmo. 'Buenas! I'm the great Wolffgang, my old man. Deve ter ouvido falar dos meus roteiros de cinema.' Embora Frederick Wolffgang fosse apenas um de seus nomes, foi assim que este amigo de quem falei apresentou-se, brevi manu, com seu sotaque esdrúxulo. Ultimamente, verbi gratia, fora também Moshe Iscariontes, Wilhelm Schulumberger e Deborah Startein, dependendo do seu estado de espírito. Judeu envelhecido, feio e anguloso. Hirsuto, catingoso, bodoso. Olhos de lunático. Notâmbulo dandi quixotesco, seramangante espantalho cabotino, da meninada debicante; vagabundo, leproso, estróina etilizado e drogado; grande filauta com mau hálito: Jamais esquecerei seus solilóquios vaniloquentes, enquanto flanava, a la diable, amigo dos bel-prazeres, mulheres fáceis e aguardentes à farta (...)




MEMÓRIAS DO CONSTRUTOR DE LABIRINTOS

Eu tive um nome, mas não me lembro dele. As cidades por onde passei também tinham nomes, mas eram tantas que jamais perguntei. A Cidade das Colinas Mortas. Porque eu penso tanto na morte? Eu não sou mais jovem, não por nenhuma definição deste mundo. Fui um viajante nos velhos tempos; hoje sou um historiador. Na minha casa, arde uma imensa lareira; as paredes talvez sejam de pedra, mas estão cobertas de livros que se erguem estonteantes do chão até o teto, a dez metros. A espécie humana tinha feito tantos livros? Todas as respostas estão aqui? Isadora sempre dizia que eu fazia muitas perguntas, ou que minhas perguntas eram tão ridículas e deslocadas quanto perigosas. Ela quase nunca respondia, mas quando o fazia, suas respostas tinham surpresas dentro de surpresas, como armadilhas. Ela morreu hoje e eu não conseguirei esquecê-la. - Você é muito sério, mas eu amo você. Por que se preocupar tanto? Quero que vá embora. Por que você tem que partir? ´Você vai, você fica, você não volte´. Fiquei um pouco mais. Fiquei com ela em seu lento fluxo de tempo, por mais um dia, uma noite, e mais um dia; fizemos amor e dissemos muitas coisas gentis que, mais tarde, criariam boas lembraças e suavizariam a dor da partida (...)










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