ECOPEDAGOGIA: A VISÃO DE UM NOVO PARADIGMA
Décio Escobar Oliveira Ladislau
Resumo: Este
artigo tem o intuito de apresentar uma reflexão sobre a questão ambiental, em
um momento da história que tal tema é de extrema importância. Aborda com ênfase
a questão da ecopedagogia e da relação Homem e Natureza, objetivando uma maior
interação entre estes dois elementos .
Palavras-chaves: Ecopedagogia, meio ambiente,
desenvolvimento sustentável .
Estamos atualmente diante de uma situação
impar, de um lado, idéias tecnocrátas com mirabolantes conceitos de
desenvolvimento, projetos científicos
capazes de resolver todos os problemas do homem, mil maneiras de se
viver confortavelmente dentro de padrões ditos civilizados, questões que
ficaram sem respostas por vários anos respondidos com uma cientificidade
espantosa, e por um outro lado, uma degradação sem precedentes ocorre
diariamente em nosso planeta, degradação nos
mais diversos níveis, tais como :
-
Degradação Natural : envolvendo questões ligadas diretamente a natureza,
como poluição de rios, lagos e oceanos, devastação insana de florestas etc...
- Degradação Moral : através de inversão de valores, hipocrisia,
descaso etc...
- Degradação Sanitária : provocados por doenças causadas por puro
descaso de nossos governantes , doenças como, cólera, dengue, etc...
- Degradação Espiritual: Com aparecimento de seitas ditas
milagrosas e donas da verdade
Observando o que
foi dito anteriormente, podemos concluir que estamos diante do ocaso do atual
paradigma, e que um novo paradigma deverá tomar o seu lugar. Para que este novo
projeto ganhe sustentação deveremos desde já incorporar em nossa sociedade, mecanismos para lhe dar
forças para se concretizar. Segundo
Althusser, as relações de produção de uma sociedade, se reproduzem
através dos aparelhos ideológicos de Estado, e que o modo de produção
capitalista se reproduz através da
inserção de ideologias capitalistas
nestes aparelhos. Apesar de todos os
problemas enfrentados pela educação atualmente, é no aparelho ideológico de
estado (escola) que vários autores acreditam estar a resposta para o nascimento
desse novo paradigma, esta nova visão da educação se chama ecopedagogia e para
Gadotti “Ela
é uma pedagogia para a promoção da aprendizagem do sentido das coisas a partir
da vida cotidiana” (Gadotti,2000).
Incorporando uma nova ideologia na
educação, a ideologia da natureza, e também tomando como exemplo a vida
cotidiana, podemos assim fomentar uma nova educação, impregnados por esse novo
modo de pensar poderemos de fato pensar diferentemente e promover a alteração
tão esperada .
Vamos voltar a questão da ideologia, a
palavra ideologia foi usada pela primeira vez no sentido político mais amplo
por Karl Marx , há mais de 100 anos.
Ideologia era para Marx um conjunto de idéias que os proletários e burgueses
possuiam. A ideologia pertence sempre a um grande grupo de pessoas, nunca a um
sujeito separadamente e é uma forma de
ver o mundo, ou seja, é um visão de mundo . Ao nascer já recebemos de forma
direta uma carga ideológica, do aparelho ideológico de Estado Família que forma
as nossas primeiras impressões de mundo, neste contexto a visão de mundo que
recebemos atualmente é a da reprodução do modo de produção capitalista, onde a
vida é vista como um jogo e que no filme “Instinto” nos mostra claramente esta
visão. Mostra como deve ser o comportamento das pessoas que estão
intrinsicamente ligadas ao jogo, seu modo de viver, agir, amar etc.., aquele
que não quer participar do jogo , torna-se um empecilho e deverá ser eliminado
ou então, escondido em alguma instalação do Estado .
Mas a partir de que momento, o homem
começou, a impor as condições do “jogo”, foi com o início do capitalismo? Para
responder esta pergunta deveremos novamente voltar a questão da ideologia e
posteriormente retrocedermos no tempo .
A ideologia é atemporal , ela não tem um
tempo específico, ela repousa no inconsciente das pessoas e assume um caráter
de inconsciente coletivo;
especificamente, a ideologia reside no inconsciente individual e se reproduz no
inconsciente coletivo, desta forma então, a partir do momento que o homem
deixou de se imaginar como parte integrante da natureza, foi a partir daí que
ele assume a sua forma de pensar atual,
e é difícil de se mensurar , ou seja, é difícil datar este período . A partir
daí , o homem começou a ver a natureza não como uma extensão do seu corpo, mas
como uma coisa separada, extrínsica , dessa maneira, o homem perdeu o seu lado
natural, e passou a incorporar o seu lado técnico, econômico e político. Nas
várias fases da história do homem, a natureza foi vista com diferentes
olhares,os gregos e Romanos tinham uma visão da natureza diferente das pessoas
que viviam na idade média, e atualmente temos uma nova visão, olhamos para
natureza com olhares capitalistas , sedentos da obtenção do lucro fácil, Não
vou aqui me estender em tentar explicar a visão da natureza nos dois primeiros
casos, vou me ater a questão do capitalismo .
Segundo Gadotti ( apud Capra, 1993,p.8-9),
“ a vida em sociedade é uma batalha
competitiva pela existência, crendo num progresso material sem limites a ser
alcançado através do crescimento econômico e tecnológico”. Ora, este progresso
material sem limites, indica uma devastação da natureza, e é em última
instância a destruição do planeta sem medidas, a troco de um enriquecimento
monetário de umas poucas almas. Cabe aqui uma reflexão, com o atual sistema econômico, político e social, poderemos ter
um crescimento sem ocorrer uma extinção
humana ? A resposta invariavelmente é negativa , para que não ocorra uma destruição completa do planeta, há
necessidade de se promover um desenvolvimento sustentável que passa
rigorosamente pela questão social e ambiental. O que por certo não poderá ser
resolvido com um sistema capitalista baseado no consumo exagerado e no
desequilíbrio social . Resumidamente , a ocorrência de duas classes sociais
antagônicas , onde os menos privilegiados vivem em situação deplorável e uma pequena parcela vive em condições dita
modernas não poderá sobreviver para acontecer o chamado desenvolvimento sustentável,
já que como foi dito o homem faz parte da natureza é uma extensão dela, e se
algum homem vive em situação deplorável , a natureza está sendo degradada .
Como resposta as questões levantadas neste
artigo propomos um estudo parcial da ecopedagogia , e para abrirmos a discussão
sobre esse assunto, iniciaremos com trechos da carta da terra ( documento elaborado no fórum global ECO
92 ) .
Princípios da
carta da terra:
I- Respeitar e
cuidar da comunidade da vida .
Respeitar a terra e a
vida em toda a sua diversidade .
a)Reconhecer que todos os seres são interligados e cada forma de vida tem
valor, independente do uso humano .
II- Integridade
ecológica.
Proteger e restaurar a
integridade dos sistemas ecológicos da terra , com especial preocupação pela
diversidade Biológica e pelos processos naturais que sustentam a vida.
a)Adotar planos e regulações de
desenvolvimento sustentável em todos os níveis
que façam com que a conservação ambiental e a reabilitação sejam parte
integral de todas as iniciativas de desenvolvimento.
III- Justiça
social e econômica .
Erradicar a pobreza como
imperativo ético, social, econômico e ambiental
a)Garantir que as atividades econômicas e instituições em todos os níveis
promovam o desenvolvimento humano de forma eqüitativa e sustentável .
IV- Democracia,
Não violência e Paz.
Fortalecer as instituições
democráticas em todos os níveis e proporciona-lhes a transparência e prestação de contas no exercício do governo,
a participação inclusiva na tomada de decisões e o acesso à justiça .
Percebemos, nestes pequenos trechos das
carta da terra , que só poderemos proporcionar um futuro digno para a sociedade
humana se observarmos as questões anteriormente colocadas, e é na escola que
passará invariavelmente a tão esperada
mudança, pois , “a cidadania ambiental e a cultura de sustentabilidade serão necessariamente o resultado do fazer
pedagógico que conjugue a aprendizagem
a partir da vida cotidiana”. (Gutiérrez e Prado-1999)
Como promover a vida a partir da
cotidianidade ? Para Gutiérrez e Prado isso poderá ocorrer se forem observadas
as seguintes questões :
-
- Sincronizar nosso agir com as
exigências do viver e dos outros e
outras .
- Respeitar a vida em todas as suas formas; para isso será preciso
decifrar compreender e exercitar tais formas de vida .
- Vibrar com a vida a partir do
sentir próprio e alheio sem pedir explicações e arrazoamentos às leis da vida .
- Detectar os sinais do cosmos,
por mais estranhos que pareçam, a fim de viver em coerência com o universo ,
Cabe ao professor, empreender em sua
metodologia de ensino estes itens, e proporcionar ao seu aluno, momentos de
reflexão que possam de maneira
harmônica compreender o sentido da vida e suas consequências . Obviamente, uma visão ecopedagógica envolve
uma gama muito grande de conceitos, análises e estudos, porém, este artigo,
visa apenas colaborar com uma pequena abordagem sobre este tema, e acredito já estar de bom tamanho tal confrontação .
Em um primeiro momento, este artigo,
poderá ser interpretado como tendo uma visão alarmista e apocalíptica das
coisas, porém, devemos Ter em mente que se este grau de destruição da natureza persistir, o futuro da raça humana será
incerto ou o mais terrível possível,
quiçá não ocorrerá a sua aniquilação. Em nosso televisores assistimos todos os
dias imagens dessa destruição. No momento que este artigo estava sendo escrito
acontecia na Europa e na Ásia uma enchente sem precedentes, fruto da poluição.
Segundo os estudiosos, a poluição gera um aquecimento da atmosfera que está
provocando a alteração das temperaturas promovendo desastres ecológicos nunca
visto. Sobre a Ásia paira uma nuvem de poluentes sólidos que possuem a dimensão
de 3 brasis . Para finalizar, cabe uma última indagação: Até quando o ser
humano sobreviverá na face deste
maravilhoso planeta ?
GADOTTI,
Moacir. Pedagogia da terra . São
Paulo: Peirópolis, 2000.
ALTHUSSER,
Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado , Martins Fontes,
Editorial
Presença, 3ª edição, 1980, 120p .
MARCONDES FILHO,
Ciro, O que todo cidadão precisa saber sobre ideologia . Global,
São Paulo, 1985,
92p.
GUTIÉRREZ,
Francisco, PRADO, Cruz. ecopedagogia e cidadania planetária . São Paulo,
Cortez:
Instituto Paulo Freire, 1999, 128p .